FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: CHESTERTON E CHE GUEVARA
José Alcimar de Oliveira
O que há de comum entre um e outro? Talvez nada. Ou uma qualidade
ontológica fundamental: a humanidade. Foram humanos, demasiadamente
humanos, ou pessoas plenas, íntegras, tudo e mais, intensas, ricas e
contraditórias, menos medíocres.
Uma coincidência, é que o latino Che
nasce no mesmo dia e mês em que morre o inglês Chesterton. Che viveu
entre 14 de junho de 1928 e 09 de outubro de 1967. Chesterton, entre 29 de
maio de 1874 e 14 de junho de 1936.
Por coincidência, quando relia a esmo uma nova edição de sua
Ortodoxia – sua autobiografia espiritual – , de 1908, considerada,
entre os mais de 100 livros que escreveu, sua obra mais
genial, recebi do amigo e filósofo Marcos José, publicado hoje no site
afinsophia.org, um texto curto (Bolsonaro, sob a força de sua inteligência,
diz que Che “só inspira marginais, drogados e a escória da esquerda”, e
Che, poetiza: “somos plenos”), mas tecido com densidade ontológica, sobre
os 53 anos da morte do Che, nesse 09 de outubro de 2020.
Ambos foram, Chesterton e Che, cada um ao seu modo, poetas e sonhadores:
Chesterton nos diz que “a imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade
é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de
xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente
acontece com artistas criadores.
Como se verá, não estou aqui, em nenhum
sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na
imaginação. A paternidade artística é tão sadia quanto a paternidade física”.
Não sei se Che leu Chesterton. Poeta e artista da militância revolucionaria,
médico que se dedicou à cura da insanidade subjetiva e social produzida
pela lógica da necrocracia capitalista, imagino que Che seria um entusiasta
leitor de Chesterton.
O possível e polêmico diálogo entre os dois seria
movido por estatuto de grandeza e empatia. E se entrasse em discussão o
direito da Argentina às Malvinas (Falkland para os ingleses), penso que o
notável, terno e pesado inglês, com seus 140 quilos, estaria de acordo em
devolvê-las ao domínio argentino.
Chesterton ouviria com interesse o grande Che, ao afirmar que
“nós socialistas, somos mais livres porque somos mais plenos;
somos mais plenos por sermos mais livres” e que “nós
nos faremos na ação cotidiana, criando um homem novo com uma nova
técnica”, porque “o esqueleto da nossa liberdade completa está formado;
falta-lhe apenas a substância proteica e a roupagem; nós a criaremos”.
Por seu turno, e com não menos interesse, Che ouviria com atenção Chesterton
ao dizer que “o poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é
que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se
estilhaça”. No fim, a Kensington de Chesterton, pela mediação de Marx e
Engels, e no espírito do internacionalismo socialista, abraçaria a Rosário de Che.
*José Alcimar é filósofo, teólogo-não ortodoxo, crítico da política, escritor, poeta, doutor e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).