CLÁUDIA DUTRA: ESSENCIAL ROMPER A FALSA POLARIZAÇÃO MANDETTA X TERRA
Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a press conference on the coronavirus with Health Minister Luiz Mandetta (R) at Alvorada Palace in Brasilia, on January 31, 2020. - The death toll from China's coronavirus outbreak has reached 258, its government said Saturday, as foreign nations tightened restrictions on travellers from China in response to the rapid spread of the illness. (Photo by Sérgio Lima / AFP)
Cláudia Dutra: Essencial romper a falsa polarização Mandetta X Terra
PEDALANDO NA FARINHA!
por Cláudia Pereira Dutra, especial para o Viomundo
A defesa da vida, como direito fundamental de todos, indistintamente, deve guiar nossa luta e promover a unidade para enfrentar a pandemia do coronavírus.
A luta pela vida, durante e depois da pandemia, aponta o reducionismo expresso na polarização Mandetta X Terra.
Primeiro, a despeito das divergências no governo sobre as medidas de combate ao coronavírus, são todos aliados no golpismo e unidos pela conivência com as ideias fascistas de Bolsonaro, disputando rumos no contexto de uma crise que também gera fraturas na aliança “militar miliciana neoliberal” que comanda o Brasil.
Segundo, a reprodução do confronto que opõe “terraplanistas” àqueles que realinham à direita foge ao central, que é a ineficiência do governo no enfrentamento à pandemia – saúde, emprego, renda.
Ou seja, o simplismo não estimula pensar a crise global, complexa, e também não aponta o debate fundamental no país, sobre garantia de saúde pública e gratuita, renda mínima, segurança alimentar, atenção aos mais vulneráveis, educação e ciência, direitos trabalhistas e previdenciários.
É preciso desconstruir a cilada do “menos pior”, que limita a reflexão – este não é um embate entre fundamentalistas e uma visão científica, crítica, em defesa da vida.
No mundo todo, o fundamentalismo endossa as teses ultraneoliberais, do lucro acima da vida, do descarte de seres humanos tidos como “não rentáveis”.
Na linha do tempo dos golpistas, não há o que separe o Terra Plana do ministro dos Planos de Saúde, hoje enfiado no jaleco do SUS.
Alguns pontos, nos ajudam nessa reflexão:
1. Ataque ao SUS, apostando na precariedade do sistema público para alavancar a dita eficiência do setor privado, que ignora a desigualdade no acesso e no atendimento.
2. Apoio à EC 95/2016 que congela por 20 anos os gastos públicos de saúde e educação e já retirou, em 4 anos, mais 22 bilhões da saúde.
3. Fim do Programa Mais Médicos, com a perseguição comandada pelo governo e que culminou na expulsão de mais 8 mil médicos cubanos do Brasil.
4. Recuo nas Políticas de enfrentamento à HIV/Aids, de gênero e saúde reprodutiva do Ministério da Saúde, para conciliar questões ideológicas da Presidência.
5. Retrocesso na política antimanicomial que trás de volta o terror às pessoas com doença mental.
6. Falta de planejamento para enfrentar o coronavírus. Sabia-se da epidemia desde dezembro de 2019 e não foram comprados, a tempo, os respiradores e os equipamentos de proteção individual para os profissionais do setor.
Também, não foram adquiridos testes para covid-19 e repassados recursos para produção em grande escala pela Fiocruz.
10. Além de tudo, a campanha “Brasil não pode parar”, contra a orientação de isolamento da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi embargada pela justiça.
No entanto, o ministro da Saúde, após desavença com Bolsonaro, permaneceu no cargo e já aponta para flexibilização das medidas de isolamento a partir da próxima semana.
Por tudo isso,é essencial romper a lógica da falsa polarização. Caso contrário, vamos seguir “pedalando na farinha”!
*Claudia Pereira Dutra é professora e militante de Direitos Humanos.