1° DIA DO GPM TRANSCORREU SOB OS OLHOS DA IMPRENSA INTERNACIONAL E EMPOLGOU NOS DISCURSOS
Megaevento da esquerda mundial, realizado em Barcelona, reuniu lideranças de peso e com muita história. Organização e dimensão do encontro impressionaram jornalistas
De BARCELONA, Espanha | O epicentro do pensamento progressista global deslocou-se, nesta sexta-feira, 17 de abril de 2026, para a capital catalã. O primeiro dia do Global Progressive Mobilisation (GPM) transformou o imponente complexo da Fira de Barcelona, reconhecido internacionalmente como um dos mais modernos, tecnológicos e funcionais centros de convenções do planeta, num fervilhante laboratório de ideias e estratégias políticas. Sob o olhar atento de correspondentes das principais agências de notícias e veículos de comunicação de todos os continentes, o evento não apenas impressionou pelo rigor logístico, mas, sobretudo, pelo vigor dos discursos que clamam por uma “reação urgente” ao avanço das forças de ultradireita.
A atmosfera nos corredores da Fira era de um otimismo combativo. Jornalistas veteranos destacaram que, diferentemente de outros fóruns internacionais, o GPM conseguiu reunir, em um único dia, uma diversidade de atores, dos mais reconhecidos e gabaritados na história de luta de suas nações, incluindo ex-primeiros-ministros, até jovens ativistas digitais e lideranças sindicais de base. O objetivo é claro: construir um anteparo democrático e social-democrata contra o negacionismo, a desinformação e as políticas de exclusão que ganharam terreno em diversos países na última década.
Geopolítica da resistência: Do Brasil à Europa
Um dos pontos altos da jornada foi a forte presença latino-americana, com destaque para a participação da socióloga e primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva. Atuando como enviada especial para as mulheres na COP30, Janja participou do painel sobre o acesso global à justiça para mulheres e meninas no auditório Ernest Lluch. Ao lado dela, nomes históricos como o ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero e a atual ministra da Igualdade da Espanha, Ana Redondo, reforçaram a tese de que o feminismo progressista é, hoje, a principal barreira de defesa das democracias liberais.
Ainda sobre o Brasil, o GPM dedicou uma mesa redonda específica para discutir a “Defesa da Democracia” no país, reunindo figuras centrais como Edinho Silva, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Rogério Sottili, do Instituto Vladimir Herzog, e Camila Asano, da Conectas Direitos Humanos. O debate focou em como o país tem lidado com o legado do autoritarismo e a necessidade de fortalecer as instituições frente às ameaças golpistas.
Poder do trabalho e a nova agenda econômica
Enquanto os debates políticos inflamavam as salas principais, o auditório Dolores Huerta abrigava uma das assembleias sindicais mais representativas da história recente. Sob a égide da Confederação Europeia de Sindicatos (ETUC) e da Confederação Sindical Internacional (ITUC), líderes como Esther Lynch, Unai Sordo (CCOO) e Pepe Alvarez (UGT) debateram a resposta sindical ao crescimento da extrema direita entre a classe trabalhadora.
A tônica foi a justiça social como antídoto ao ódio. Wolfgang Katzian, presidente da ETUC, e Luc Triangle, secretário-geral da ITUC, foram enfáticos ao afirmar que a democracia só sobrevive se entregar resultados tangíveis na vida das pessoas, como aumento de salários e serviços públicos robustos. A presença de Stefan Löfven, ex-primeiro-ministro da Suécia e atual presidente do Partido dos Socialistas Europeus (PES), elevou o peso político da discussão, conectando a luta laboral com a alta política europeia.
No campo econômico, o GPM não se furtou a temas espinhosos. No painel “Oligarquia ou Democracia”, a professora Isabella Weber e Wayne Swan, presidente do Partido Trabalhista Australiano, defenderam a taxação de super-ricos como medida essencial para combater a desigualdade extrema. A economista e professora da University College London (UCL), Mariana Mazzucato, também brilhou em suas intervenções, propondo um novo “Moonshot”, uma missão coletiva para repensar a prosperidade humana em tempos de crise climática e tecnológica.
Inovação, juventude e os desafios do século XXI
A organização do evento dedicou espaços generosos para a “geração Z” e o impacto do mundo digital. No auditório Ernest Lluch, criadores de conteúdo e influenciadores digitais como Alán Barroso, Sarah Santaolalla e Juan Hernández ‘Anuj’ discutiram como a esquerda pode retomar a narrativa nas redes sociais, combatendo o assédio digital e a desinformação.
A discussão sobre tecnologia também teve um viés institucional profundo. A eurodeputada espanhola Laura Ballarín Cereza e a vice-presidente do Parlamento Europeu, Katarina Barley, debateram a implementação de uma idade mínima digital e a necessidade de soberania tecnológica para que os dados dos cidadãos não sejam usados como ferramentas de manipulação política.
Outro momento de grande simbolismo foi a participação de Dr. Mohammad Shtayyeh, ex-primeiro-ministro da Autoridade Palestina, que integrou o painel de política externa ao lado de nomes como o ex-ministro indiano Salman Khurshid. O debate sublinhou a urgência de uma ordem global baseada no direito internacional e na paz, em um mundo cada vez mais fragmentado por conflitos.
Barcelona: Palco da nova unidade
A escolha da Fira de Barcelona como sede não foi aleatória. A modernidade das instalações, que facilitou a circulação de milhares de delegados e a transmissão simultânea em dezenas de idiomas, simboliza a eficiência que o movimento progressista pretende imprimir em suas gestões. O primeiro dia, que deve se encerrar nas próximas horas, terá um coquetel de boas-vindas oferecido pela Delegação Espanhola do Grupo S&D no Parlamento Europeu.
O GPM mostrou, neste primeiro dia, que a esquerda mundial está abandonando a postura meramente defensiva. Através de lideranças como Iratxe García Pérez (S&D), Teresa Ribera (Comissão Europeia) e Paul Magnette (Partido Socialista Belga), o encontro emitiu uma mensagem clara: a resposta à extrema direita não será o silêncio, mas uma mobilização global coordenada, intelectualmente afiada e profundamente conectada com as necessidades do século XXI.
A imprensa internacional, que lotou as salas de imprensa da Fira, deixará Barcelona nesta sexta-feira com a convicção de que o “progressive playbook” está sendo escrito em tempo real. Amanhã, sábado, o evento prossegue com a expectativa de novas resoluções que devem pautar as agendas de governos e partidos em todo o globo, além da presença de quase uma dezena de chefes de Estado e de governo, entre eles, o presidente Lula, estrela mais aguardada do encontro.