A MÍDIA TELEVISIVA E A OPINIÃO PÚBLICA
O Médium Televisivo e a Inexistência da Informação

Dos Conceitos de Informação
& Informação, na teoria da informação, pode ser compreendida como a relação existente entre um emissor e um receptor. Há uma reação do receptor em resposta a uma ação do emissor. Não é necessário que o receptor capte perfeitamente o que foi enunciado pelo emissor, mas se faz necessário a reação como “sinal” de que a mensagem chegou até o receptor e foi decodificada, permitindo uma interpretação, sem a necessidade de que haja uma moral judicativa que atribua um juízo bem ou mal à informação enunciada. Mesmo havendo psicologismo neste conceito de informação, esta só ocorre em uma relação econômico-social, posto que os códigos inseridos na informação surgem da realidade construída desta relação.
& Embora exista a necessidade da relação emissor/receptor na teoria da informação, quando esta é intermediada por veículos eletrônicos, há a hegemonia do emissor (os intermediários eletrônicos) sobre o receptor, como ocorre no caso do médium televisivo. A relação emissor/receptor torna-se inexistente em decorrência da informação ter a sua estrutura selecionada, classificada, identificada e serializada segundo a lógica da economia de mercado. A informação não é distribuída, mas imposta de forma unívoca. Isto porque a informação, nos meios eletrônicos (principalmente o televisivo), está atrelada a empresas privadas que não permitem a liberdade de opinião pública e sim a de uma opinião privada sobre o que é público. Mesmo as redes de televisão apenas possuindo concessões que lhes permitem o direito de transmissão por um período determinado, elas realizam acordos com instituições privadas que colocam a informação de maneira manipulada, uma vez que devem atender os interesses privados destas instituições ou empresas.
& Informação como palavra de ordem. Não sai do estado de coisas constituído, é conservada aquém do óbvio. É implícita e só aparece no enunciado. Não há a preocupação de construir a informação a partir de elementos constitutivos que configuram o fato social, ela existe unicamente como enunciado que repete uma ordem estabelecida (seja a ordem de protesto ou a ordem de conservação). Em seu ato repetitivo, a informação redundante não se aprofunda em um significado (sentido, conceito), ela é justaposta, simultânea, vai de um significante a outro, sempre de maneira rasteira. Se um acontecimento envolve uma rede de relações que se encontram, se entrecortam e atravessam umas às outras, de onde saem interpretações livres e percepções autênticas do acontecido para daí os enunciados poderem surgir da vivência daqueles que participaram e contribuíram para o acontecimento e a informação salta para o mundo como elemento de análise do acontecimento, quando esta informação passa somente a determinar o fato, não levando em conta todo o seu aspecto comunitário, ela enuncia uma ordem, a informação permanece afastada da Vida (fluxo criativo contínuo que corre por fora) e não alcança as vivências, ao contrário, fecha a vivência na palavra de ordem.
& Segundo Paul Virilio, a informação, na era das novas tecnologias, vem ser acrescentada como uma terceira dimensão da matéria. Se antes a matéria era composta por massa e energia, após o avanço tecnológico, é a massa, a energia e a informação que compõem a matéria. Neste sentido, Virilio trata a informação como um conceito que vai além de suas definições descritas pelos saberes constituídos. Para ele a informação é a surpresa, o novo. “É a primeira vez que se faz amor, é a primeira vez que se abre os olhos, é a primeira vez que se descobre o mar. A informação é o que é inicial”. Mesmo assim, a informação pode ser usada como instrumento de domínio que impede que este novo venha à tona, o que ocorre quando a informação é o principal instrumento de intermediários que estão atreladas a lógica do capital.
A Televisão: o Leito de Procusto
Toda a estrutura da televisão é antipolítica e antidemocrática. Antipolítica, porque impede que os corpos possam agir livremente, realizando interpretações que apareçam de suas vivência diretas com a construção da realidade. Impede que as opiniões (doxa, aparência) apareçam publicamente a partir dos encontros dos acasos criados pelas relações dos homens com as coisas na realidade-aparência; ao contrário, tenta pôr a idéia de uma essência absoluta, representações estereotipadas como modelos a serem seguidos. É antipolítica, pois impede a construção dos espaços e das relações materiais e imateriais como liberdade para a construção de novas percepções, novos modos de existência. É antidemocrática, porque divulga e promove a tristeza. Sua própria organização de horários, programas, temas, entre outros, especulam a dor. Do jornal televisivo ao programa de auditório, do programa de culinária ao programa de humor, o que prevalece é a dor. A criança estuprada, os acidentes urbanos, coberturas parciais de guerra, a pedofilia, a chacina, o assassinato, o homicidio, o seqüestro, a corrupção, tudo é noticiado como fatos isolados de uma realidade econômica-social. Por isto é antidemocrática, uma vez que não usa a inteligência para compreender o acontecimento e joga a notícia como se ela se limitasse ao que está sendo noticiado. É antidemocrática, porque não pretende unir as potências, menospreza as experiência como acontecimentos e elementos constitutivos da realidade.
Tudo deve ser adequado à televisão. Por isto a informação é manipulada (aqui não somente no sentido de dirigir o curso de algo unilateralmente, segundo interesses próprios, mas também o de se apropriar de seus elementos, de suas partes, de sua própria estrutura) na tv. A televisão trata a informação como Procusto tratava seus visitantes: segundo o mito grego O Leito de Procusto, todos aqueles que passavam próximo à casa de Procusto era convidado para pernoitar. Dentro da casa existia uma cama onde os visitantes teriam de dormir. Sendo a cama de um tamanho determinado, Procusto adequava seus convidados à cama, cortando ou alongando seus membros. A televisão faz a informação de acordo com a sua necessidade (que segue a lógica do capital). Por esta razão, a informação na televisão é tratada somente do ponto de vista do emissor (a própria televisão). Pouco importa que se queira transformar a televisão em algo mais cultural e pedagógico. A própria estrutura da televisão é unívoca, ela jamais informou, pois jamais manteve uma relação com seus tele-espectadores. Vejamos, pois, sua estrutura:
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sua estrutura é vinculada à economia de mercado: o patrocínio de empresas privadas, a indissociação entre programação e comerciais;
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seu tempo e espaço são controlados segundo seus interesses: Espaço – os planos de câmera são feitos para que a imagem da tv seja nítida (o plano mais usado na tv é o Close-up), o que caracteriza uma evidente descontextualização de imagens com o texto proferido. Tempo – a informação não é transmitida em sua totalidade temporal, aquilo que daria sentido à informação é menosprezado, pois só é informado o chamado “atual”);
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informa para desinformar: a grande carga de informações não proporciona profundeza nem clareza dos acontecimentos, o que faz com que o tele-espectador tenha muita informação, mas o mínimo de entendimento sobre o que esta acontecendo;
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fragmenta a realidade: a informação não envolve e nem é, por parte da tv, envolvida com a totalidade dos aspectos que constituem a realidade, apenas vem com a informação aquilo que é manipulado pela rede de tevê;
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dispersa e infantiliza: a informação é organizada de forma que o telespectador não mantenha toda a sua atenção nela e gere nele entendimento sintetizado da realidade, onde a espectativa de algo deve ser superado o mais rápido possível;
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confunde autoridade com autoritarismo: a informação, quando passada por especialistas que são convidados a programas para falar de algum assunto em especial, é tratada como algo pronto, constituído, e que deve ser imposto como o melhor jeito de agir com algum problema. Demonstram pesquisas, casos recentes, mas não envolvem o assunto em questão com a realidade econômica-social, com as experiências particulares de outros, e tratam a ciência e os saberes como receitas que receberam o aval de algumas pessoas. Tratam a informação com autoritarismo, pois impõe-na; não agem com autoridade, pois não constroem o conhecimento a partir de experiências novas, mas a partir de enunciados que repetem a ordem.
O Monopólio da Informação.
A Rede Globo de Televisão (RGTV) tem em seu histórico uma série de eventos que ilustram bem como o monopólio da informação é feito pelo médium televisivo. No livro Mídia: Crise Política e Poder no Brasil, Venício A. de Lima coloca alguns deles, aos quais reproduzimos aqui nesta coluna:
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Como as ditaduras militares, a RGTV, como outras redes de televisão, tiveram suas forças consolidadas com o capital e apoio internacional. Isto resultou em uma ligação direta e indireta da RGTV e A Ditadura Militar no Brasil;
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Interferência nas eleições de 1983 no Rio de Janeiro entre Brizola e Moreira Franco. Consistiu em uma fraude em que reunia a RGTV e a empresa Proconsult, a responsável por fazer a contagem dos votos. Segundo entrevistas de ex funcionários da Globo, a fraude realmente ocorreu;
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Omissão de cobertura das Diretas Já. A RGTV só foi realizar transmissão completa das Diretas Já quando esta se tornou evidente e a participação popular crescia forçando a votação no Congresso Nacional da Emenda Constitucional que restabeleceria as eleições diretas. Antes disso, a RGTV noticiava informações distorcidas sobre os comícios realizados;
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Segundo alguns testemunhos, teria sido Roberto Marinho que nomeou Maílson da Nóbrega Ministro da Fazenda de José Sarney. José Sarney e Roberto Marinho eram sócios no negócio mediático televisivo.
Entre outros exemplos, principalmente no que diz respeito aos intentados contra Lula, entre tantos, como as tentativas de manipulação em todos os debates que Lula participou, dois se sobressaem:
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O caso Lurian: Collor mostrou no debate às vésperas da eleição de 1989 documentos que comprovavam que Lula tinha “uma filha não reconhecida fora do casamento”. Explorado exaustivamente pela mídia nas últimas horas antes da eleição, a história comprovou-se falsa;
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A construção e divulgação do factóide do dinheiro da compra do Dossiê que incriminaria Serra no esquema das ambulâncias. Noticia que o Jornal Nacional divulgou em detrimento das noticias sobre a queda do avião da Gol que já possuía.
A persistência da RGTV em denegrir o Presidente Lula, ligando seu nome, seus parentes e seu governo a escândalos políticos divulgados pela mídia tomaram proporções de desinformação enormes pelo país, uma vez que palavras forjadas começaram a fazer parte do cotidiano televisivo das pessoas, como mensalão, CPI, ligação de corrupção e pizza, entre outros. Nestes casos, a Tv Globo deixou bem claro o fenômeno informar para desinformar da televisão. Ela noticiava “fatos” sem se preocupar em explicá-los, elucidá-los, demonstrar todos os envolvidos. A Tv Globo manipulou as informações, pois tomou posse de informações que não lhe pertencia, posto que a informação não pertence a ninguém, ela é pública. Manipulou porque não informou, mas se apropriou de uma verdade e quis usá-la como modelo, impedindo o surgimento de opiniões públicas. O que a RGTV fez foi uma série de acusações sem provas, as notícias transmitidas por ela eram (e são) condenatórias sem antes terem apresentado ou se preocupado com a existência de provas concretas. A Rede Globo de Televisão esclareceu com estas e outras ações a sua antipolitização e antidemocratização, fazendo da informação uma violência social, uma vez que quis (e fez) a divulgação da ignorância, da força, do autoritarismo, da tristeza. Ela garantiu ao médium televisivo seu principal aspecto: a não informação.