FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: O BRASIL EM SETE FAÍSCAS DE FILOSOFIA POLÍTICA
José Alcimar de Oliveira*
“A história é a unidade de continuidade e descontinuidade. A sociedade não se mantém apesar de seu
antagonismo, mas graças a ele… (Theodor Adorno)”.
FAÍSCA 01 – Depois de 580 dias na condição de prisioneiro
político, Lula saiu da prisão para a Presidência do Brasil. E o outro? Que
situação mais tosca: saiu da encenação patética de autoproclamado
presidente do Brazil para a condição de fugitivo da Justiça. Quanta
diferença entre manter o Brasil com s e rechaçar o Brazil com z! O Brasil
com s não cabe no quintal de ninguém. No Brasil da resistência, em pouco
mais de duas semanas, a decência e a justiça se irmanaram, e
organizaram, com ânimo e alegria, o levante eleitoral de outubro de
2026. O povo colocou o Brasil no centro da geopolítica global.
FAÍSCA 02 – A filósofa política Agnes Heller nos ensina que “a
história é a substância da sociedade”. Essa substância é o ser humano, o
ser social, síntese de múltiplas determinações, como de forma
incontornável escreve Karl Marx. A história não tem dono e o seu devir é
um campo de forças. As ruas não têm donos e podem, sim, como ocorreu
nesse outubro de 2026 no Brasil, ser ocupadas pela verdade do povo. O
capitalismo digital foi neutralizado em sua arena. Sob a força do povo,
redes digitais e movimento de rua entraram em agônica simbiose contra
as farsas e trapaças da burguesia financeira, parasitária e entreguista.
FAÍSCA 03 – Nada do que se reveste de força ontológica, da força
de ser, desaparece. Foi o que de outra forma nos ensinou Agnes Heller,
que esteve em Manaus em 12 de maio de 2016, no dia em que completou
87 anos: “Nem um só valor conquistado pela humanidade se perde de
modo absoluto; tem havido, continua a haver, e haverá sempre
ressurreição”, o que a célebre filósofa húngara – no final da vida
ostracizada por setores do marxismo – chamava de “invencibilidade da
substância humana”. No Brasil de 2026, das brasas adormecidas em
estado de resistência, emergiram triunfantes as chamas de uma
incontestável vitória eleitoral.
FAÍSCA 04 – Há 70 anos de sua passagem da imanência histórica
para a transcendência dos que partem e deixam memória, e nesses
tempos em que o fascismo se traveste de sermão religioso, devemos
voltar à advertência do grande Bertolt Brecht: não podemos ainda cantar
vitória, porque continua fértil o ventre que gerou a coisa imunda. É da
ordem do eterno o cio da cadela do fascismo. A propósito, e com acerto,
Umberto Eco no pequeno ensaio O fascismo eterno nos diz que o fascismo
não desapareceu com a Segunda Guerra Mundial.
FAÍSCA 05 – O fascismo sempre pode voltar por se tratar mais de
uma forma de pensar do que propriamente de um regime político. Para
isso, é necessário, mesmo que não suficiente, existir um estúpido com
poder de iniciativa e conivência das ditas elites para destravá-lo. O Brasil
tem se mostrado nessas últimas duas décadas como o maior laboratório
social dessa forma política de organização do ódio. As classes dominantes,
notadamente hoje a burguesia financeira, sempre arrogante e parasitária,
ao negar direitos sociais ao povo, sobretudo o direito à educação,
prepararam e adubaram o solo social para o desenvolvimento do
fascismo.
FAÍSCA 06 – Nessa fase, a mais bélica do sistema do capital, em
que se intensifica um processo, que já se mostra irreversível, de colapso
ambiental e de barbárie social, a burguesia financeira já mandou às favas
qualquer sentimento de escrúpulo e, desinibida em sua arrogância e sede
de lucro, proclama que não há sociedade para todos. O capital pode
muito, mas sempre para poucos. O Brasil está no centro estratégico dessa
geopolítica suicidária e, por muito pouco, não fosse o levante eleitoral de
2026, conseguiu se desviar do abismo para o qual caminharam 60 milhões
de eleitoras e eleitores. O que Wilhelm Reich denomina de peste
emocional da humanidade já encontra vasto abrigo na sociedade
brasileira.
FAÍSCA 07 – Por fim, impõe-se converter para levante social no
pós-eleição o estado de levante eleitoral que resultou na eleição do
presidente Lula no dia 25 de outubro de 2026. O Brasil precisa recuperar,
pela via da práxis, a equação hegeliana entre razão e revolução. O
fascismo se alimenta da destruição da razão. Aos povos originários, em
Manaus e nos mais distantes Territórios Indígenas do Amazonas, da
Amazônia e de todo o Brasil, cabe o reconhecimento pelo inegável
protagonismo para afirmação coletiva da razão e para a construção do
outubro vermelho da luta, da resistência e da defesa da vida, o que se
consolidou na mais importante vitória eleitoral do Brasil do século XXI. O
levante apenas se iniciou. Se vencemos uma batalha, é preciso reconhecer
que a guerra continua, e deve se fortalecer com as armas da crítica e da
justiça, sobretudo contra o fascismo e o entreguismo da extrema direita
bolsonarista.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado (em 1998) e o doutorado (em 2011). É também teólogo
heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento
metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde
Manaus, AM, em novembro de 2026.