CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO CONTRATOU POR R$ 1.025 MILHÃO EMPRESA DE R$ 3 MIL CRIADA POR EX-SERVIDORES DA JUSTIÇA LEITORAL
Lidera foi aberta em setembro de 2025 por três profissionais com trajetória em TREs; uma das sócias ainda estava no TRE-SC, e outros dois CNPJs ligados a ela também foram contratados pela campanha.
Acampanha de Flávio Bolsonaro (PL) contratou por R$ 1,025 milhão uma consultoria eleitoral aberta em setembro de 2025, quando uma de suas sócias-administradoras, Denise Goulart Schlickmann, ainda era servidora do TRE-SC e titular da Secretaria de Auditoria do tribunal. Os dados foram levantados pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum.
A Lidera Consultoria Eleitoral e Partidária não foi a única estrutura ligada a Denise contratada pela candidatura. A campanha também destinou R$ 102,5 mil à Omnia Conhecimento e Tecnologia e R$ 185 mil à Denise Schlickmann Sociedade Individual de Advocacia. Juntos, os três contratos chegam a R$ 1.312.500.
Denise se aposentou em 11 de junho de 2026. O contrato milionário da Lidera com Flávio veio depois, em 17 de agosto. O ponto em aberto está antes: durante quase nove meses, Denise permaneceu vinculada ao TRE-SC ao mesmo tempo em que figurava como sócia-administradora da consultoria.
A Lidera, CNPJ 62.714.298/0001-59, havia sido aberta em 15 de setembro de 2025, com capital social de R$ 3 mil. Além de Denise, entraram na sociedade Lígia Regina Carlos Limeira e Raquel Maria Ferro Nogueira, duas profissionais que também construíram carreira na Justiça Eleitoral. Denise e Raquel foram registradas como sócias-administradoras.
O contrato nº 15 com a campanha presidencial prevê serviços de contabilidade eleitoral e menciona a nota fiscal nº 25. Na prestação parcial consultada pela Fórum, R$ 512,5 mil já constavam como pagos e os outros R$ 512,5 mil ainda não haviam sido pagos. As despesas da campanha estão disponíveis no DivulgaCandContas, do TSE.
Dois meses depois de abrir a Lidera, Denise seguia em atividade no TRE-SC
Em novembro de 2025, dois meses depois da abertura da empresa, o TRE-SC ainda apresentava Denise como servidora. No Congresso Catarinense de Direito Eleitoral, ela dividiu com Lígia Limeira uma mesa sobre “Financiamento político e prestação de contas”. Lígia já aparecia na programação como consultora.
Denise também seguia em funções institucionais. Naquele mesmo mês, a Corregedoria catarinense levou à 57ª edição do Colégio de Corregedoras e Corregedores Eleitorais do Brasil (CCORELB) o projeto “Desinformação é Coisa do Passado”, produzido pelo Comitê Gestor do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação do TRE-SC e coordenado por Denise.
A atividade continuou em dezembro. Em reunião preparatória para as eleições de 2026, realizada em 9 de dezembro, o TRE-SC identificou Denise como coordenadora do Grupo de Apoio Técnico de Combate à Desinformação.
A aposentadoria veio em junho de 2026. A Portaria P/TRE-SC nº 81 concedeu aposentadoria voluntária à então analista judiciária, e outro ato a retirou, a partir de 11 de junho, do cargo comissionado de titular da Secretaria de Auditoria.
Lei distingue participação societária de administração efetiva
O artigo 117, inciso X, da Lei nº 8.112 proíbe servidor público federal de participar da gerência ou administração de sociedade privada. A mesma regra permite a participação como acionista, cotista ou comanditário.
O registro como sócia-administradora, porém, não basta sozinho para caracterizar a conduta. O Enunciado da Consultoria-Geral da União 14/2026, publicado pela Advocacia-Geral da União em julho, estabelece que o enquadramento pressupõe exercício de fato da atividade e atuação reiterada e habitual.
O Fórum Investiga perguntou ao TRE-SC se Denise exerceu efetivamente atividades de administração da Lidera enquanto estava no tribunal, se houve licenças ou afastamentos e se alguma participação empresarial foi comunicada. À Lidera, a reportagem perguntou quem comandava a empresa naquele período.
As três sócias vieram da Justiça Eleitoral
Denise, Lígia e Raquel já trabalhavam com contas eleitorais muito antes da criação da Lidera. Em 2005, o TSE designou Raquel, então servidora do TRE-PI, para o Grupo de Estudos de Prestação de Contas de Campanha Eleitoral. Ela entrou no lugar de Lígia, do TRE-RN.
Lígia chegou à Diretoria-Geral do TRE-RN e também ocupou função de coordenação na área de Controle Interno e Auditoria. O tribunal concedeu sua aposentadoria em 2024.
Em 2021, Denise e Lígia aparecem novamente juntas num trabalho do TSE. Denise coordenou o eixo dedicado ao financiamento de campanha na sistematização das normas eleitorais, com Lígia entre os responsáveis pelo conteúdo. O estudo está na Biblioteca Digital do TSE.
Raquel já estava aposentada quando a Lidera nasceu. Ela deixou o quadro ativo do TRE-PI em 2018. Em junho de 2026, uma portaria do TRE-PI a identifica como presidente da Associação dos Servidores da Justiça Eleitoral do Estado do Piauí (ASJEPI).
Seis dos sete outros clientes estão no Piauí e no Rio Grande do Norte
Fora da campanha presidencial, a Lidera aparece em outros sete contratos eleitorais que somam R$ 480 mil. Quatro estão no Piauí: Joel Rodrigues da Silva (PP), candidato ao governo, R$ 100 mil; Ciro Nogueira Lima Filho (PP), candidato ao Senado, R$ 50 mil; Júlio Ferraz Arcoverde (PP), candidato a deputado federal, R$ 30 mil; e José Fernando Oliveira de Brito, o Zé Fernando (PP), candidato a deputado estadual, R$ 15 mil.
No Rio Grande do Norte, Carlos Eduardo Xavier, o Cadu de Lula (PT), candidato ao governo, contratou a Lidera por R$ 150 mil. Cadu foi secretário de Estado da Fazenda no governo de Fátima Bezerra (PT). Samanda Alves de Freitas, a Samanda de Lula (PT), candidata ao Senado, contratou a empresa por R$ 110 mil.
O sétimo contrato é de R$ 25 mil com Thiago Martins Milhim, o Thiago Ganem (PL), candidato a deputado federal por Minas Gerais. Assim, seis dos sete outros clientes identificados estão no Piauí e no Rio Grande do Norte, estados onde Raquel e Lígia desenvolveram suas carreiras na Justiça Eleitoral. A carteira reúne candidaturas de campos políticos distintos, com PT, PP e PL.
Mais R$ 287,5 mil em duas estruturas ligadas a Denise
A Omnia Conhecimento e Tecnologia Ltda., da qual Denise é sócia e Henrique Schlickmann Sobierajski é administrador, recebeu R$ 102,5 mil da candidatura de Flávio para “consultoria técnica especializada em financiamento de campanha”, conforme a nota fiscal nº 128.
Outros R$ 185 mil foram declarados em serviços da Denise Schlickmann Sociedade Individual de Advocacia. O escritório foi aberto em 31 de agosto de 2026, quando Denise já estava aposentada do TRE-SC.
Os valores foram contratados com pessoas jurídicas distintas e não correspondem a pagamentos pessoais feitos a Denise.
Lidera, TRE-SC e campanha não responderam
A Fórum perguntou à Lidera quantos profissionais atuam no contrato presidencial, quais serviços serão entregues e como foi formado o preço de R$ 1,025 milhão. A empresa também foi questionada sobre a divisão de trabalho entre Lidera, Omnia e o escritório.
A campanha de Flávio Bolsonaro recebeu perguntas sobre os critérios e o escopo das três contratações. O TRE-SC foi procurado para esclarecer a situação funcional de Denise durante os meses em que ela aparecia simultaneamente como servidora do tribunal e sócia-administradora da Lidera.
Até o fechamento, os três não haviam respondido. O espaço permanece aberto para manifestação.