CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO CONTRATOU POR R$ 1.025 MILHÃO EMPRESA DE R$ 3 MIL CRIADA POR EX-SERVIDORES DA JUSTIÇA LEITORAL

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Lidera foi aberta em setembro de 2025 por três profissionais com trajetória em TREs; uma das sócias ainda estava no TRE-SC, e outros dois CNPJs ligados a ela também foram contratados pela campanha.

Por: Diego Feijó de AbreuPUBLICADO: 23/09/2026 –
Campanha de Flavio Bolsonaro – Foto: Carlos Moura/Agência Senado

08:12

Acampanha de Flávio Bolsonaro (PL) contratou por R$ 1,025 milhão uma consultoria eleitoral aberta em setembro de 2025, quando uma de suas sócias-administradoras, Denise Goulart Schlickmann, ainda era servidora do TRE-SC e titular da Secretaria de Auditoria do tribunal. Os dados foram levantados pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum.

A Lidera Consultoria Eleitoral e Partidária não foi a única estrutura ligada a Denise contratada pela candidatura. A campanha também destinou R$ 102,5 mil à Omnia Conhecimento e Tecnologia e R$ 185 mil à Denise Schlickmann Sociedade Individual de Advocacia. Juntos, os três contratos chegam a R$ 1.312.500.

Denise se aposentou em 11 de junho de 2026. O contrato milionário da Lidera com Flávio veio depois, em 17 de agosto. O ponto em aberto está antes: durante quase nove meses, Denise permaneceu vinculada ao TRE-SC ao mesmo tempo em que figurava como sócia-administradora da consultoria.

A Lidera, CNPJ 62.714.298/0001-59, havia sido aberta em 15 de setembro de 2025, com capital social de R$ 3 mil. Além de Denise, entraram na sociedade Lígia Regina Carlos Limeira e Raquel Maria Ferro Nogueira, duas profissionais que também construíram carreira na Justiça Eleitoral. Denise e Raquel foram registradas como sócias-administradoras.

O contrato nº 15 com a campanha presidencial prevê serviços de contabilidade eleitoral e menciona a nota fiscal nº 25. Na prestação parcial consultada pela Fórum, R$ 512,5 mil já constavam como pagos e os outros R$ 512,5 mil ainda não haviam sido pagos. As despesas da campanha estão disponíveis no DivulgaCandContas, do TSE.

Dois meses depois de abrir a Lidera, Denise seguia em atividade no TRE-SC

Em novembro de 2025, dois meses depois da abertura da empresa, o TRE-SC ainda apresentava Denise como servidora. No Congresso Catarinense de Direito Eleitoral, ela dividiu com Lígia Limeira uma mesa sobre “Financiamento político e prestação de contas”. Lígia já aparecia na programação como consultora.

Denise também seguia em funções institucionais. Naquele mesmo mês, a Corregedoria catarinense levou à 57ª edição do Colégio de Corregedoras e Corregedores Eleitorais do Brasil (CCORELB) o projeto “Desinformação é Coisa do Passado”, produzido pelo Comitê Gestor do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação do TRE-SC e coordenado por Denise.

A atividade continuou em dezembro. Em reunião preparatória para as eleições de 2026, realizada em 9 de dezembro, o TRE-SC identificou Denise como coordenadora do Grupo de Apoio Técnico de Combate à Desinformação.

A aposentadoria veio em junho de 2026. A Portaria P/TRE-SC nº 81 concedeu aposentadoria voluntária à então analista judiciária, e outro ato a retirou, a partir de 11 de junho, do cargo comissionado de titular da Secretaria de Auditoria.

Lei distingue participação societária de administração efetiva

artigo 117, inciso X, da Lei nº 8.112 proíbe servidor público federal de participar da gerência ou administração de sociedade privada. A mesma regra permite a participação como acionista, cotista ou comanditário.

O registro como sócia-administradora, porém, não basta sozinho para caracterizar a conduta. O Enunciado da Consultoria-Geral da União 14/2026, publicado pela Advocacia-Geral da União em julho, estabelece que o enquadramento pressupõe exercício de fato da atividade e atuação reiterada e habitual.

O Fórum Investiga perguntou ao TRE-SC se Denise exerceu efetivamente atividades de administração da Lidera enquanto estava no tribunal, se houve licenças ou afastamentos e se alguma participação empresarial foi comunicada. À Lidera, a reportagem perguntou quem comandava a empresa naquele período.

As três sócias vieram da Justiça Eleitoral

Denise, Lígia e Raquel já trabalhavam com contas eleitorais muito antes da criação da Lidera. Em 2005, o TSE designou Raquel, então servidora do TRE-PI, para o Grupo de Estudos de Prestação de Contas de Campanha Eleitoral. Ela entrou no lugar de Lígia, do TRE-RN.

Lígia chegou à Diretoria-Geral do TRE-RN e também ocupou função de coordenação na área de Controle Interno e Auditoria. O tribunal concedeu sua aposentadoria em 2024.

Em 2021, Denise e Lígia aparecem novamente juntas num trabalho do TSE. Denise coordenou o eixo dedicado ao financiamento de campanha na sistematização das normas eleitorais, com Lígia entre os responsáveis pelo conteúdo. O estudo está na Biblioteca Digital do TSE.

Raquel já estava aposentada quando a Lidera nasceu. Ela deixou o quadro ativo do TRE-PI em 2018. Em junho de 2026, uma portaria do TRE-PI a identifica como presidente da Associação dos Servidores da Justiça Eleitoral do Estado do Piauí (ASJEPI).

Seis dos sete outros clientes estão no Piauí e no Rio Grande do Norte

Fora da campanha presidencial, a Lidera aparece em outros sete contratos eleitorais que somam R$ 480 mil. Quatro estão no Piauí: Joel Rodrigues da Silva (PP), candidato ao governo, R$ 100 mil; Ciro Nogueira Lima Filho (PP), candidato ao Senado, R$ 50 mil; Júlio Ferraz Arcoverde (PP), candidato a deputado federal, R$ 30 mil; e José Fernando Oliveira de Brito, o Zé Fernando (PP), candidato a deputado estadual, R$ 15 mil.

No Rio Grande do Norte, Carlos Eduardo Xavier, o Cadu de Lula (PT), candidato ao governo, contratou a Lidera por R$ 150 mil. Cadu foi secretário de Estado da Fazenda no governo de Fátima Bezerra (PT). Samanda Alves de Freitas, a Samanda de Lula (PT), candidata ao Senado, contratou a empresa por R$ 110 mil.

O sétimo contrato é de R$ 25 mil com Thiago Martins Milhim, o Thiago Ganem (PL), candidato a deputado federal por Minas Gerais. Assim, seis dos sete outros clientes identificados estão no Piauí e no Rio Grande do Norte, estados onde Raquel e Lígia desenvolveram suas carreiras na Justiça Eleitoral. A carteira reúne candidaturas de campos políticos distintos, com PT, PP e PL.

Mais R$ 287,5 mil em duas estruturas ligadas a Denise

A Omnia Conhecimento e Tecnologia Ltda., da qual Denise é sócia e Henrique Schlickmann Sobierajski é administrador, recebeu R$ 102,5 mil da candidatura de Flávio para “consultoria técnica especializada em financiamento de campanha”, conforme a nota fiscal nº 128.

Outros R$ 185 mil foram declarados em serviços da Denise Schlickmann Sociedade Individual de Advocacia. O escritório foi aberto em 31 de agosto de 2026, quando Denise já estava aposentada do TRE-SC.

Os valores foram contratados com pessoas jurídicas distintas e não correspondem a pagamentos pessoais feitos a Denise.

Lidera, TRE-SC e campanha não responderam

A Fórum perguntou à Lidera quantos profissionais atuam no contrato presidencial, quais serviços serão entregues e como foi formado o preço de R$ 1,025 milhão. A empresa também foi questionada sobre a divisão de trabalho entre Lidera, Omnia e o escritório.

A campanha de Flávio Bolsonaro recebeu perguntas sobre os critérios e o escopo das três contratações. O TRE-SC foi procurado para esclarecer a situação funcional de Denise durante os meses em que ela aparecia simultaneamente como servidora do tribunal e sócia-administradora da Lidera.

Até o fechamento, os três não haviam respondido. O espaço permanece aberto para manifestação.

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