LUIS NASSIF: OS INFLUENCIADORES ENGOLIRAM OS JORNALISTAS

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Quando o jornalista troca o espírito crítico pela adesão ao consenso, deixa de exercer a função de mediador da realidade.

Ilustração de Kako Abraham – BBC – Reprodução.

Antes da explosão das redes sociais, o jornalismo empresarial já conhecia um fenômeno que hoje domina a esfera pública: o efeito-manada. Acompanhar os movimentos da opinião pública faz parte da essência da profissão. Submeter-se a eles é outra coisa. Quando o jornalista troca o espírito crítico pela adesão ao consenso, deixa de exercer a função de mediador da realidade e passa a agir como integrante de uma torcida organizada ou de um linchamento medieval.

O mecanismo é simples. O apoio da maioria dilui a responsabilidade individual. Quanto mais pessoas participam do ataque, menor é a sensação de culpa por eventuais excessos. O aplauso do público, o reconhecimento dos pares e, hoje, a busca por curtidas e compartilhamentos tornam racional, do ponto de vista individual, aderir ao coro dominante. O problema é que essa racionalidade destrói justamente o principal ativo do jornalismo: a capacidade de desconfiar do consenso.

No Brasil, esse fenômeno ganhou força durante os governos Lula. A ascensão social das camadas mais pobres provocou um sentimento de rejeição em parcelas expressivas das classes média e alta. O preconceito social deixou de ser apenas um traço difuso da sociedade para contaminar parte significativa da imprensa, especialmente a sediada no Rio de Janeiro, que ainda vivia os últimos anos da antiga condição de capital política e cultural do país.

Três personagens simbolizaram esse momento: Jô Soares, Arnaldo Jabor e Danuza Leão. Os dois primeiros, protegidos pela enorme audiência da Globo; Danuza, com sua coluna na Folha de S.Paulo.

Jô passou a cultivar diariamente uma ironia fundada na suposta superioridade intelectual e social das elites. Em torno de seu programa formou-se um grupo de comentaristas que, em maior ou menor grau, reproduzia esse mesmo olhar de desprezo pelas transformações sociais em curso.

Arnaldo Jabor imaginou ocupar o espaço que antes fora de Paulo Francis. A diferença é que Francis fazia contraponto ao pensamento dominante de sua época. Jabor acabou tornando-se exatamente o contrário: o principal porta-voz do novo consenso das elites econômicas e do mercado financeiro. Sua retórica tornou-se cada vez mais estridente, culminando em episódios como a desqualificação das manifestações que defendiam a redução da tarifa do transporte público, tratadas por ele como “quilos de merda” antes que percebesse que os protestos de 2013 haviam sido capturados pela direita.

Nem Danuza Leão escapou desse movimento. Viúva de Samuel Wainer, um dos grandes resistentes ao autoritarismo, passou a colecionar artigos cujo principal atrativo eram justamente as declarações mais bombásticas contra Lula e seus eleitores. Ainda nos anos 1990 escreveu que era um absurdo um torneiro mecânico disputar a Presidência contra “o príncipe dos sociólogos brasileiros”. Na ocasião respondi, na Folha, recorrendo ao velho samba de Janet de Almeida: Pra que discutir com madame?

Depois da eleição de Lula, Danuza voltou à carga ao ridicularizar uma festa junina organizada por Marisa Letícia no Palácio da Alvorada. Escrevi outra crônica observando que, se desejava criticar o governo, deveria procurar argumentos mais consistentes. Festa junina não era um defeito; era uma das manifestações culturais mais autênticas do país.

O processo atingiu outro patamar quando a Veja consolidou um modelo de jornalismo baseado na agressividade verbal, na personalização dos conflitos e na exploração permanente do escândalo. Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo aderiram rapidamente ao estilo. Mais tarde, durante o governo Dilma Rousseff, esse ambiente produziu uma das mais intensas campanhas de misoginia já dirigidas contra um presidente da República, muitas vezes reproduzida inclusive por articulistas mulheres.

Com a chegada das redes sociais, o incentivo econômico tornou-se ainda mais poderoso. A remuneração passou a ser medida em visualizações, curtidas e compartilhamentos. O caça-cliques estimulou frases de efeito, indignação permanente e declarações cada vez mais extremadas. Ainda assim, dificilmente esse ambiente conseguiu superar, em degradação jornalística, o período em que a lógica do escândalo dominou boa parte da grande imprensa brasileira.

Os ingredientes do efeito-manada

O efeito-manada não decorre apenas de falhas morais individuais. Ele resulta de um conjunto de mecanismos conhecidos pela psicologia social, pela sociologia e pelos estudos de comunicação.

O primeiro é a cascata informacional. Cada veículo presume que os demais já verificaram determinada informação e passa a reproduzi-la sem apuração própria. A repetição sucessiva transforma uma hipótese em verdade aparente.

O segundo é o contágio mimético, descrito por René Girard. Em momentos de tensão social, comunidades tendem a concentrar suas angústias em uma vítima simbólica. A punição do bode expiatório restaura momentaneamente a sensação de unidade do grupo.

O terceiro mecanismo é o pânico moral. Um comportamento real ou suposto deixa de ser um problema específico para transformar-se em ameaça existencial à sociedade. Qualquer reação passa a parecer legítima, por mais desproporcional que seja.

O quarto é a espiral do silêncio. Quem percebe que sua opinião diverge da maioria prefere calar-se para evitar isolamento. O silêncio dos cautelosos reforça artificialmente a impressão de unanimidade.

Por fim surge o populismo punitivo. O espetáculo da punição produz simultaneamente sensação de eficiência para os órgãos encarregados da investigação e enorme engajamento para a mídia. Garantias processuais, criadas justamente para proteger indivíduos contra o clamor popular, passam a ser tratadas como obstáculos burocráticos ou simples “filigranas”, como pretende o influenciador Otávio Guedes.

Nesse ambiente, permanecer na manada torna-se a decisão mais confortável. Se todos erram juntos, a responsabilidade se dilui. Se alguém resolve questionar a narrativa dominante e comete um único equívoco, esse erro será utilizado para desqualificar todo o seu trabalho.

É exatamente esse mecanismo que se observa em determinadas coberturas recentes. No caso do senador Jaques Wagner, por exemplo, uma reportagem transformou em evidência suspeita o fato de dólares encontrados em sua residência não estarem guardados em envelopes do Senado. A acusação não fazia sentido lógico: qualquer pessoa que recebesse diárias em moeda estrangeira retiraria o dinheiro dos envelopes e descartaria o papel. O objetivo da notícia não era demonstrar um ilícito, mas produzir mais um capítulo para manter viva uma narrativa previamente construída. No efeito-manada, cada episódio, por ridículo que seja, serve apenas para impedir que o tema desapareça da agenda pública.

O uso político do efeito-manada

O efeito-manada não é apenas um fenômeno psicológico. Ele também pode ser utilizado como instrumento de disputa política.

A lógica é conhecida. Identifica-se um mal-estar social, constrói-se uma narrativa simples para explicá-lo e alimenta-se diariamente essa narrativa por meio de notícias, vazamentos, declarações e campanhas de comunicação. Com o tempo, a repetição substitui a demonstração.

A Guerra Hispano-Americana de 1898 foi um dos primeiros exemplos modernos dessa estratégia. Grandes grupos de imprensa ajudaram a criar o ambiente político favorável à intervenção dos Estados Unidos em Cuba por meio de campanhas sistemáticas de propaganda.

Décadas depois, mecanismos semelhantes apareceriam em processos muito diferentes entre si. Nas chamadas Primaveras Árabes, houve a combinação entre mobilização espontânea, treinamento de ativistas, financiamento internacional, redes sociais e ampla cobertura da imprensa global. No Brasil, as manifestações de 2013 nasceram em torno de pautas progressistas, mas acabaram sendo apropriadas por grupos de direita que dispunham de financiamento, capacidade de mobilização e apoio crescente da grande mídia.

A Lava Jato representou talvez a expressão mais acabada desse modelo no país. Sob a bandeira legítima do combate à corrupção, consolidou-se um ambiente em que vazamentos seletivos, campanhas midiáticas e procedimentos jurídicos passaram a atuar de forma mutuamente reforçada. O resultado foi a substituição gradual do devido processo legal pelo julgamento permanente da opinião pública.

O maior risco para o jornalismo surge justamente nesse ponto. Quando a imprensa deixa de investigar para apenas reforçar narrativas previamente estabelecidas, abandona sua função democrática e transforma-se em parte do mecanismo de produção do consenso. A manada deixa de ser objeto da cobertura para tornar-se o próprio método de fazer jornalismo.

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