ESTUDO DA FIOCRUZ MOSTRA QUE ENCHENTES E INUNDAÇÕES APROFUNDAM DESIGUALDADES EM SAÚDE NO BRASIL, PRINCIPALMENTE NO AMAZONAS

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Os municípios com os maiores índices gerais de severidade foram Japurá, Careiro da Várzea e Atalaia do Norte, todos no Amazonas

Foto Metro Jornal

Desastres hidrológicos como enchentes, enxurradas e inundações não atingem o Brasil de forma igualitária. Um estudo desenvolvido por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) revela que os impactos desses eventos, tanto em vidas humanas quanto na infraestrutura de saúde, são sentidos com muito mais força na Região Norte do país.

A pesquisa analisou desastres hidrológicos registrados no Brasil entre 2000 e 2023 e foi realizada em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de Alagoas, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e a London School of Hygiene and Tropical Medicine.

IMPACTO 

Para dar precisão à análise, os pesquisadores criaram três indicadores inéditos:

  • Índice de Perdas Humanas (HLI): contabiliza mortes, feridos, enfermos, desabrigados, desalojados e desaparecidos
  • Índice de Perdas na Infraestrutura de Saúde (HII): mede unidades de saúde danificadas ou destruídas, prejuízos financeiros às instalações e impactos sobre o atendimento de emergência
  • Índice Geral de Severidade (GSI): combina os dois anteriores em uma medida única

Os dados foram extraídos do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID).

Piores resultados

Embora as perdas humanas se espalhem por todo o território nacional, com picos em 2006, 2011, 2015 e 2019, os danos à infraestrutura de saúde se concentram na Região Norte. Os municípios com os maiores índices gerais de severidade foram Japurá, Careiro da Várzea e Atalaia do Norte, todos no Amazonas.

Segundo a pesquisadora líder do estudo, Gisele Paixão Pereira, os resultados refletem um conjunto de vulnerabilidades: isolamento geográfico, fragilidade da infraestrutura local e desigualdades socioeconômicas históricas. Populações indígenas, ribeirinhas e moradores de municípios isolados estão entre os mais afetados.

“No Norte, os impactos são agravados pela fragilidade das unidades de saúde, marcada por deficiências estruturais, ausência de protocolos de emergência e escassez de recursos humanos e materiais, o que frequentemente leva à interrupção dos serviços durante eventos extremos”, afirma Gisele.

Amazônia

O estudo também identificou municípios gravemente afetados em outras regiões. No Nordeste, as inundações se tornaram uma ameaça crescente, agravada por vulnerabilidades sociais. No Sul e Sudeste, mesmo com renda média mais alta, fragilidades na infraestrutura urbana e na gestão de riscos deixam cidades expostas.

“Os desastres hidrológicos no Brasil são fortemente influenciados por desigualdades sociais, planejamento urbano deficiente e políticas preventivas frágeis. As perdas afetam desproporcionalmente as populações vulnerabilizadas, agravando desigualdades pré-existentes”, ressalta Gisele.

Políticas públicas

Os pesquisadores defendem que os três índices desenvolvidos podem ser usados como instrumento de governança. Na prática, eles ajudariam gestores a identificar áreas mais vulneráveis, priorizar investimentos preventivos e planejar ações de resposta e reconstrução.

A recomendação central do estudo é que o enfrentamento dos desastres hidrológicos exige estratégias integradas, que unam adaptação climática, redução da pobreza e fortalecimento da infraestrutura pública de saúde. A conclusão se alinha a acordos internacionais como o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

*Com informações da Fiocruz.

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