LUIS NASSIF: É HORA DE DISCUTIR O EXTRATIVISMO FINANCEIRO

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A forma mais sofisticada e rentável de espoliação: o extrativismo financeiro. E o seu principal motor atende pelo nome de carry trade.

Foto de Sebastião Moreira – EFE – Reprodução
Sempre que uma nova riqueza natural surge no horizonte brasileiro — seja o pré-sal, o agronegócio ou as terras raras —, o país é assombrado pelo mesmo fantasma histórico: conseguiremos transformar esse potencial em desenvolvimento real ou repetiremos a velha sina de exportar recursos e importar prosperidade?

Enquanto o debate público se concentra no campo e nas minas, consolidou-se silenciosamente a forma mais sofisticada e rentável de espoliação da nossa história: o extrativismo financeiro. E o seu principal motor atende pelo nome de carry trade.

O mecanismo é objetivo. Investidores internacionais captam recursos onde os juros são historicamente baixos — como Estados Unidos, Europa ou Japão — e os aplicam nos juros estratosféricos do Brasil. O lucro nasce dessa diferença de taxas (spread). Ao contrário do investimento produtivo, aqui não se constroem fábricas, não se gera emprego e não se desenvolve tecnologia. Trata-se da exploração de uma renda puramente artificial, cuja conta é paga pelo Tesouro Nacional.

Troque o açúcar, o ouro ou o café pelo diferencial de juros, e a estrutura colonial reaparece intacta.

O círculo vicioso da Selic

Esse modelo de negócios criou um círculo macroeconômico perfeito, que aprisiona a política monetária brasileira em uma armadilha cíclica:

Quando o Federal Reserve (o Banco Central americano) aperta os juros lá fora, o capital foge do Brasil. O real se desvaloriza e a inflação sobe. A resposta padrão do Banco Central brasileiro é elevar a Selic para conter uma suposta pressão de demanda. Com isso, recompõe-se o prêmio dos investidores, o capital volta, e a engrenagem reinicia.

A política monetária passa a girar em torno da necessidade de estabilizar o fluxo financeiro, sacrificando a indústria, o crédito e o crescimento do país.

Para garantir a sobrevivência dessa máquina, formou-se uma sólida “coalizão rentista”. Bancos, gestores de fundos e investidores internacionais unem forças para defender juros estruturalmente elevados, atuando como as velhas oligarquias agrárias que preferiam administrar a renda da dependência a enfrentar o custo de modernizar o país.

A roupa moderna da dependência

Essa dinâmica não é um erro técnico de percurso; é a expressão monetária do subdesenvolvimento descrita há meio século pelo pensamento econômico latino-americano.

Quando Raúl Prebisch e a CEPAL demonstraram que a periferia global estava condenada a exportar commodities baratas e importar manufaturas caras, desenharam o que hoje podemos chamar de reprimarização monetária. Na base da hierarquia internacional de moedas, o real precisa pagar um prêmio permanente para ser aceito. O Brasil passou a exportar sua própria taxa de juros — um produto bruto, sem valor agregado.

O mestre Celso Furtado alertava que o subdesenvolvimento se perpetua porque o excedente gerado na periferia não se converte em acumulação interna, sendo drenado para fora. No cenário atual, esse dreno ganhou contornos ainda mais graves sob as teses de Arghiri Emmanuel e Ruy Mauro Marini sobre a troca desigual.

Como o mercado financeiro não produz valor real, os bilhões de reais transferidos a cada subida da Selic saem diretamente do produto social brasileiro — dos impostos e do suor do trabalhador. O ajuste fiscal severo que financia a conta de juros nada mais é do que a face moderna da superexploração do trabalho.

O caminho para a autonomia

Romper esse ciclo não significa fechar as fronteiras para o capital estrangeiro, mas sim blindar o país contra a volatilidade especulativa. A experiência internacional de nações que se industrializaram rapidamente, como a China, aponta para caminhos claros:

  • Fricções regulatórias: Implementação de tributação diferenciada por prazo de permanência (punindo o capital de curto prazo).
  • Controle sobre derivativos
  • Mecanismos macroprudenciais: Exigência de depósitos compulsórios sobre ingressos especulativos e maior regulação sobre o mercado de derivativos.

O verdadeiro debate econômico do Brasil contemporâneo não se resume à falsa dicotomia entre austeridade e gastança, mas sim entre autonomia e dependência. Chegou a hora de discutir o extrativismo financeiro com a mesma seriedade com que debatemos as nossas riquezas naturais. Afinal, no século XXI, a maior riqueza extraída do Brasil não está no subsolo ou nas florestas: está na decisão soberana sobre a quem a nossa taxa de juros deve servir.

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