Não sei se Dias Toffoli é culpado ou inocente. Há pistas a serem investigadas, como a compra do resort da família. Mas são apenas pistas. Pode ser que descubram coisas graves mais à frente, pode ser que não.
A oportunidade ímpar de praticar o linchamento, porém, não poupa ninguém. Pouco importa se estão acendendo a pira de uma nova Lava Jato ou desestabilizando as instituições — pois o Supremo Tribunal Federal também é atingido —, abrindo espaço para o crime organizado. Como se dizia em Minas: não me importa se o pato é macho, o que eu quero é ovo.
De repente, o infatigável repórter deixa de lado PCCs, Masters e congêneres, e envereda pelo “furo grandioso”: o resort dos irmãos de Toffoli abriga um cassino. Opa! Mas o resort não foi vendido para um fundo ligado ao Master? Não venham estragar o furo com esses detalhes irrelevantes.
Outro repórter, ladino, desses farejadores de carniça, descobriu que Toffoli se hospedou no resort. O que ele teria ido fazer lá? Ora, visitar a família, talvez?
O precedente de Luiz Estevão
Como ministro, Toffoli foi responsável por mandar executar a pena de Luiz Estevão, o empresário controlador do grupo Metrópole, cujo jornal é o que tem mais se esmerado nas denúncias irrelevantes.
Lembro-me que, quando Estevão foi denunciado, em meados dos anos 90, tornou-se alvo de linchamento semelhante ao que ocorre hoje com Toffoli. Queriam de todo jeito sua prisão, mesmo antes do julgamento. Fui o único jornalista a me insurgir contra esse abuso. Sugeri à então jovem juíza que tocava o caso que seria abuso ordenar a prisão preventiva. Que ele deveria ser julgado, as provas analisadas e, depois, constatado o crime, que ela aplicasse a pena mais severa. E ela acatou o conselho.
Levei pancada. Na recém-criada lista de discussão do MPF, fui acusado de cúmplice de Luiz Estevão. Mas uma subprocuradora me procurou depois, por e-mail, para revelar o truque: procuradores haviam vazado uma suspeita contra ela para o Correio Braziliense e, com base na própria notícia plantada, fizeram a denúncia no MPF.
Saí em defesa da subprocuradora, denunciando o que se tornaria, dali em diante, prática corriqueira: o truque dos vazamentos e das campanhas baseadas em fatos irrelevantes ou distorcidos. Mas o que fazer se o velho e o novo jornalismo padecem da mesma ausência de filtros e princípios? E gostam de carniça?
Jornalismo ou espetáculo?
Se amanhã aparecer algum fato fundamentado contra Toffoli, não venham os “idiotas da objetividade” afirmar que “bem que eu falava”. Independentemente de qualquer coisa, essas denúncias preliminares não constituem jornalismo responsável. Fazem parte da brincadeira com a opinião pública, de jogar carne fresca para o tigre — prática que desmoraliza a profissão e corrói as bases da democracia.
O papel do jornalismo é investigar, apurar e contextualizar, não alimentar fogueiras. A diferença entre fiscalização rigorosa e linchamento público está justamente nos princípios que orientam a cobertura: busca da verdade ou busca do clique, interesse público ou espetáculo?
Enquanto essa distinção não for levada a sério, continuaremos substituindo o jornalismo pela performance da indignação.