LULA: “QUEM SABE UM DIA A GLOBO RECONHECE QUE PRESTOU SERVIÇO A UM CRÁPULA COMO O MORO?”

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Ao citar o mea-culpa tardio da emissora sobre a ditadura militar, Lula tocou em uma ferida aberta na memória política brasileira

Lula em entrevista ao FlowCRÉDITO: RICARDO STUCKERT

247 — Em uma das passagens mais contundentes e carregadas de indignação histórica de sua entrevista ao podcast Flow, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confrontou diretamente o papel hegemônico da mídia corporativa brasileira na perseguição jurídica que o levou ao cárcere político por 580 dias. Sem meias palavras, o mandatário mirou na TV Globo e na Operação Lava Jato ao traçar um paralelo com o apoio da emissora da família Marinho à ditadura militar iniciada em 1964:

“A imprensa avacalha com você a vida inteira e depois não tem a coragem de pedir desculpas. Ninguém que me acusou pediu desculpas até hoje. Mas um dia vão pedir. Quem sabe daqui a uns 50 anos, como a Globo só reconheceu o golpe militar depois de 50 anos… Quem sabe um dia ela reconhece que eu era inocente e que ela prestou serviço a um crápula como o Moro?”

A declaração foi feita a poucos dias do primeiro turno das eleições, no mesmo momento em que o presidente justificava sua ausência no tradicional debate promovido pela emissora dos Marinho — preferindo falar abertamente, sem cortes e sem as amarras dos formatos televisivos tradicionais, em uma transmissão independente assistida por centenas de milhares de pessoas simultaneamente.

A engrenagem do linchamento midiático

A crítica de Lula atinge o coração da engenharia do lawfare praticado no Brasil entre 2014 e 2018. O conluio entre a força-tarefa de Curitiba, liderada pelo ex-juiz Sergio Moro e pelo ex-procurador Deltan Dallagnol, e as redações dos grandes monopólios de comunicação não foi mero acidente editorial, mas uma estratégia deliberada de condenação prévia pela opinião pública para inviabilizar sua candidatura em 2018 e abrir caminho para a extrema direita.

O presidente relembrou o massacre de reputações promovido dia após dia em horário nobre:

“Acusaram que eu tinha uma desgraçada de uma chácara. Era só mostrar que era minha, e nunca conseguiram porque o dono tinha cheque administrativo comprovando a compra. Falaram que eu tinha um apartamento no Guarujá, quando na verdade hoje sou eu quem processa a empresa para reaver o dinheiro das parcelas do consórcio que paguei. Criaram um monstro achando que estavam criando um santo.”

Lula ressaltou que a escolha de se entregar em São Bernardo do Campo, em abril de 2018, e permanecer na cela da Polícia Federal em Curitiba foi um ato de coragem política para desmascarar a farsa por dentro:

“Eu poderia ter saído do Brasil. Eu poderia ter ido para uma embaixada. Mas eu resolvi ir para a Polícia Federal porque eu queria provar o canalha que era o Moro. Queria provar o bandido que era o Dallagnol. E queria provar que a imprensa brasileira foi cúmplice dessa infâmia jurídica.”

O paralelo histórico com 1964

Ao citar o mea-culpa tardio da emissora sobre a ditadura militar, Lula tocou em uma ferida aberta na memória política brasileira. Em agosto de 2013, quase meio século após o golpe de 1964, o Grupo Globo publicou um editorial reconhecendo que o apoio ao regime autoritário havia sido um “erro”. Para o presidente, o roteiro da Lava Jato seguiu a mesma matriz golpista de consórcio entre setores do Judiciário e o aparato midiático para tutelar a soberania popular.

Ele recordou também o histórico de manipulações e perseguições da emissora em suas disputas eleitorais desde a redemocratização:

  • A edição do debate de 1989: A célebre montagem exibida no Jornal Nacional para favorecer Fernando Collor de Mello às vésperas da votação;
  • O boicote aos debates em 1994 e 1998: A blindagem a Fernando Henrique Cardoso para evitar a exposição do projeto de privatizações tucano;
  • A cadeira vazia em 2006: O tratamento desigual e os ataques virulentos quando disputou a reeleição contra Geraldo Alckmin e dissidentes partidários.

“Com o Lulinha pode tudo. O preconceito sempre foi gigantesco. Eu convivo com os meios de comunicação desde 1975, quando virei presidente do sindicato. Eu conheço a imprensa como poucos políticos conhecem e sei a quantidade de sacanagem da qual fui vítima.”

A soberania da verdade contra o cartel da notícia

Questionado pelo apresentador Igor Coelho sobre a cobertura diária e a proliferação constante de denúncias sem provas, Lula reafirmou sua integridade moral e lançou um desafio aberto a seus detratores:

“Eu cansei de desafiar empresário, banqueiro e adversário durante a Lava Jato: mostrem um centavo ilícito na minha conta bancária, mostrem um canalha que tenha me telefonado para pedir favor ou oferecer vantagem. Eu duvido você encontrar alguém neste país que diga que ofereceu propina para o Lula. Quem diz que recebeu proposta de corrupção é porque carrega na cara a mensagem de que aceita; na minha cara está escrito: nem venha.”

O presidente concluiu resgatando os ensinamentos de sua mãe, Dona Lindu, para contrapor a vaidade togada e o cinismo das corporações de mídia: “Minha mãe não viveu para ver tudo isso, mas me ensinou: caráter e dignidade a gente não aprende na escola e não compra em supermercado; a gente nasce com eles. A história já colocou cada um no seu lugar. O Moro virou um pária político e a verdade sobre a farsa que montaram está gravada para sempre.”

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