LULA VOLTA À VILA EUCLIDES PARA LANÇAR CAMPANHA E RESGATAR A ORIGEM OPERÁRIA DO PT
Publicado por Diario do Centro do Mundo
O local escolhido pelo PT carregava um forte valor simbólico. Em 1979, quando ainda era dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Lula discursava diante de dezenas de milhares de trabalhadores reunidos no estádio, então conhecido como Vila Euclides, em meio à mobilização contra o arrocho salarial e a repressão da ditadura militar.
O ato deste domingo (16/8) marca oficialmente o início da campanha petista. O partido também aproveitará a ocasião para gravar imagens destinadas à propaganda eleitoral e lançar o jingle da candidatura.
A estrutura do evento reproduz a configuração das grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC: um palco montado no centro do campo e a militância espalhada pelo gramado. Embora as arquibancadas tenham capacidade para 12,5 mil pessoas, o PT espera reunir cerca de 20 mil participantes, com caravanas organizadas por diretórios regionais inclusive de outros estados.
A escolha do estádio também serve para recontar a história do próprio PT, criado há 47 anos a partir de movimentos sociais e sindicais que ganharam força durante a abertura política.
A Vila Euclides fica em uma região que se transformou rapidamente com a expansão da indústria automobilística. A partir dos anos 1950, São Bernardo do Campo passou a concentrar grandes montadoras, favorecida pela proximidade de São Paulo, pela Via Anchieta e pelo acesso ao Porto de Santos.
Ford, Willys Overland, Mercedes-Benz, Karmann Ghia, Volkswagen e Simca instalaram operações na região, atraindo trabalhadores de diferentes partes do país.
São Bernardo passou de 81,2 mil habitantes em 1960 para 425,6 mil em 1980. Somente durante os anos 1970, cerca de 20 mil novos moradores chegavam à cidade a cada ano.
Com o crescimento das mobilizações, o prédio do sindicato deixou de comportar as assembleias. O estádio da Vila Euclides passou então a ser utilizado pelos trabalhadores, também por oferecer uma área aberta e mais difícil de ser controlada pela repressão.
A primeira grande assembleia ocorreu em 13 de março de 1979, reunindo cerca de 20 mil pessoas, segundo documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Ao menos 18 assembleias foram realizadas no estádio durante as greves de 1979 e 1980.
Segundo os registros policiais, 12 delas tiveram entre 40 mil e 70 mil participantes. O sindicato dos metalúrgicos afirma que os maiores encontros chegaram a superar 100 mil pessoas.
Sem um sistema de som adequado, Lula falava de um palanque improvisado. As palavras eram repetidas de trabalhador para trabalhador até alcançar os que estavam no fundo do estádio.
O estádio chegou a ser sobrevoado por helicópteros do Exército durante as assembleias. Mesmo assim, segundo o aposentado, a presença militar não provocava pânico entre os trabalhadores.
De Costa e Silva a Primeiro de Maio
O estádio havia sido construído nos anos 1950 como campo de futebol da Fiação e Tecelagem Elni. Depois do fechamento da empresa, foi incorporado pela prefeitura e recebeu arquibancadas e iluminação.
Na inauguração oficial, em agosto de 1968, ganhou o nome de Arthur da Costa e Silva, general que havia presidido o Brasil durante a ditadura. A denominação, porém, nunca se popularizou. A população continuou chamando o local de Vila Euclides.
Depois da greve de 1980, o prefeito Antônio Tito Costa, do MDB, oficializou a mudança do nome para estádio Primeiro de Maio.
O local se tornou um dos principais símbolos da mobilização operária contra a ditadura. Para o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Unicamp e autor de estudos sobre o movimento operário do ABC, a concentração das grandes montadoras na região foi decisiva para a dimensão das greves.
O ABC reunia milhares de trabalhadores em grandes fábricas concentradas em uma mesma área, cenário diferente do que ocorria na capital paulista, onde os trabalhadores estavam distribuídos por centenas de empresas.
As greves de 1979 e 1980 deram ao movimento operário um papel central na resistência à ditadura e ajudaram a criar as condições políticas para o surgimento do Partido dos Trabalhadores na década seguinte.

Quase 50 anos depois, outra realidade
O retorno de Lula à Vila Euclides ocorre em uma cidade muito diferente daquela que ele conheceu como líder sindical.
A indústria perdeu espaço em São Bernardo do Campo. Em 2002, o setor respondia por 42,4% dos empregos do município. Em 2021, a participação havia caído para 26,8%.
Um dos principais símbolos dessa transformação foi a Ford, que encerrou em 2019 as atividades de sua fábrica na cidade, depois de mais de um século de presença no município.
Hoje, quatro grandes montadoras permanecem na região: GM, em São Caetano do Sul, e Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen, em São Bernardo do Campo.
A indústria responde atualmente por cerca de 23% dos empregos formais de São Bernardo, atrás de serviços, com quase 42%, e comércio, com 35%, segundo dados da Rais de 2025.
A própria população também envelheceu. Quase um quarto do eleitorado tem mais de 60 anos, enquanto a faixa etária mais numerosa está entre 40 e 49 anos. É um perfil bastante diferente do operariado jovem e migrante que lotava a Vila Euclides durante as grandes greves.
A mudança econômica também alterou o cenário político local. Depois de comandar São Bernardo por 24 anos, o PT perdeu a prefeitura em 2016 e não conseguiu recuperar o cargo.
Em 2024, Marcelo Lima, do Podemos, venceu a eleição municipal com 55,74% dos votos no segundo turno. O PT sequer chegou à disputa final. Seu candidato, Luiz Fernando, terminou o primeiro turno com 23,09%.
Apesar disso, Lula manteve força eleitoral na cidade. Na última eleição presidencial, recebeu 53,83% dos votos, contra 46,17% de Jair Bolsonaro.
O reencontro com a própria história
A volta de Lula ao estádio Primeiro de Maio tenta conectar dois momentos separados por quase meio século: o líder sindical que mobilizava dezenas de milhares de metalúrgicos durante a ditadura e o presidente que disputa novamente o Palácio do Planalto.
A paisagem industrial mudou, o perfil dos trabalhadores mudou e o próprio PT deixou de ser um partido recém-criado para se transformar em uma das principais forças políticas do país.
Mas a memória das greves permanece associada ao estádio onde Lula consolidou sua liderança nacional.