LUIS NASSIF: O ESQUEMA DE LAVAGEM DE DINHEIRO DOS BOLSONARO E DO PL
afinsophia 16/06/2026 0
Produtora é um estudo de caso da convergência entre dinheiro do Master, capital evangélico-bolsonarista e captura de verba pública.

As investigações sobre a tal produtora do filme “Dark Horse” têm se mostrado mais perigosas para Flávio Bolsonaro do que a própria conversa com Daniel Vorcaro. A produtora, Go Up Entertainment, cruza diretamente com o ecossistema Vorcaro/Banco Master/PL.
Investigações conduzidas especialmente pelo Intercept e pela Agência Pública mostram que a tal produtora tornou-se um desaguadouro de lavagem de dinheiro, especialmente de parlamentares do PL, além da família Bolsonaro.
A deputada Tabata Amaral (PSB-SP), cuja petição abriu a apuração no STF, descreve as entidades de Karina Ferreira da Gama como formalmente distintas, mas funcionando como um único grupo, com comando comum, mesma estrutura e até compartilhamento de endereço — desenho que sugere fragmentação dos repasses para escapar do rastreio.
A empresa parece ter sido criada para o filme. Esse é o ponto mais revelador. Segundo levantamento da Ancine a pedido de Malu Gaspar (O Globo), a Go Up teve o registro confirmado em 9 de julho de 2025, está regular, mas nunca lançou nenhum filme — no cinema, na TV aberta ou fechada. O contrato social na Junta Comercial de SP mostra uma alteração do objeto e das atividades econômicas em junho de 2025, ou seja, a empresa foi reposicionada às vésperas do projeto. As outras duas empresas no nome de Karina na Ancine — a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil — também nunca registraram nem lançaram qualquer produção.
O ninho de pessoas jurídicas
Karina opera uma constelação de CNPJs que recebem recursos públicos. O mais escandaloso: a ONG Instituto Conhecer Brasil firmou contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar 5 mil pontos de wi-fi na capital, dos quais só cerca de 3,2 mil foram concluídos — acordo de junho de 2024 hoje sob investigação da Polícia Civil e do MP-SP.
Há ainda a ANC (Academia Nacional de Cultura), que recebeu R$ 2,6 milhões em emendas “pix” de deputados do PL para produzir uma série sobre a colonização do Brasil. Some-se a Go7 Assessoria e a Upcon Serviços Especializados — pelo menos cinco empresas no nome dela.
Karina chegou ao projeto pelas mãos do deputado federal e ex-secretário de Cultura Mário Frias (PL-SP), que assina o roteiro. A relação é antiga e densa: Frias destinou emendas às ONGs dela e contratou uma de suas empresas na campanha eleitoral de 2022. A Agência Pública obteve uma minuta de cessão de direitos em que Mário Frias e a Go Up aparecem como “produtores” e Bolsonaro como “cedente”, com valores oferecidos ao ex-presidente pela sua história de vida.
O dinheiro
O financiamento é o coração da controvérsia. Karina admitiu em entrevista à GloboNews que Daniel Vorcaro foi responsável por mais de 90% da verba do filme; o orçamento já realizado seria de cerca de R$ 65,7 milhões (US$ 13 mi), dos quais R$ 61 milhões pagos por Vorcaro, dentro de um total acordado com Flávio Bolsonaro de R$ 134 milhões — o maior montante já destinado a uma única produção na história do cinema brasileiro.
O caminho do dinheiro não foi direto: o Banco Master nega ter repassado recursos diretamente, alegando que o relacionamento foi com a Entre Investimentos, pessoa jurídica distinta, e Karina diz que o dinheiro começou a entrar em março de 2025 a partir de um fundo mantido pelo advogado Paulo Calixto, no Texas. O nome que aparece na perícia é o fundo Havengate: a PF estuda formas de quebrar o sigilo do Havengate, suspeito de ter sido o veículo usado por Vorcaro para custear o “Dark Horse”, com aporte de US$ 13 milhões.
A Ancine abriu investigação formal em maio de 2026 para apurar irregularidades; vereadores de SP acionaram o Ministério Público pedindo a responsabilização do prefeito Ricardo Nunes e a suspensão dos contratos. Há também ações de pelo menos 14 figurantes alegando condições “humilhantes” e dizendo terem sido surpreendidos pelo tema pró-Bolsonaro do filme.
Resumindo o arco: a Go Up é uma produtora sem histórico, criada (ou reconfigurada) em meados de 2025, sustentada por uma rede de ONGs que captam emenda e contrato público, encaixada por Mário Frias e financiada — segundo a própria dona — majoritariamente por Vorcaro via estruturas opacas (Entre Investimentos, fundo do Texas, Havengate). É praticamente um estudo de caso da convergência entre dinheiro do Master, capital evangélico-bolsonarista e captura de verba pública.
Investigações do STF
Em 15 de maio de 2026, Flávio Dino abriu apuração preliminar no STF. Deputados e vereadores de SP enviaram ao menos R$ 7,7 milhões em emendas para entidades ligadas à Go Up, e somando os contratos públicos as entidades de Karina acertaram o recebimento de pelo menos R$ 110,8 milhões em recursos públicos no total.
A apuração mira repasses de parlamentares do PL: os ex-deputados federais Alexandre Ramagem (RJ) e Carla Zambelli (SP), e os deputados Marcos Pollon (MS), Bia Kicis (DF) e Mário Frias (SP). O caso mais escandaloso é o do próprio roteirista: Frias direcionou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil — R$ 1 milhão para um projeto de “letramento digital” e R$ 1 milhão para um projeto esportivo, sendo ele simultaneamente produtor executivo do filme — o cruzamento direto entre verba pública e cadeia de produção. A Academia Nacional de Cultura (ANC), por sua vez, recebeu cerca de R$ 2,6 milhões em emendas “Pix” de deputados do PL. Pollon e Kicis negam ter destinado recursos diretamente à produtora.
Levantamento aponta que deputados estaduais de SP indicaram ao menos R$ 700 mil para entidades ligadas a Karina, a maioria do PL: Valéria Bolsonaro, Lucas Bove e Gil Diniz. Detalhando o que o Metrópoles e a ação no STF já especificaram: Valéria Bolsonaro (PL) destinou R$ 100 mil ao Instituto Conhecer Brasil no fim de 2023, para aquisição de equipamentos; Lucas Bove (PL) indicou R$ 213 mil ao mesmo instituto para projetos esportivos, mas o repasse teria sido bloqueado por razões técnicas. E Gil Diniz (PL-SP) destinou R$ 200 mil à ANC para a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que Não se Rende” — projeto que pode ter recebido novo nome.
Vale registrar os “objetos” declarados, porque é onde mora o desvio de finalidade: letramento digital, projetos esportivos, aquisição de equipamentos, e a série documental “Heróis Nacionais”. A própria ANC, lembre-se, captou emendas “pix” para uma série sobre a colonização do Brasil — sempre o mesmo padrão de projeto cultural/educacional como invólucro.
As quatro entidades alvo
O conglomerado sob investigação é composto por Go Up Entertainment, Instituto Conhecer Brasil (ICB), Academia Nacional de Cultura (ANC) e Conhecer Brasil Assessoria. O JB sintetiza a tese da acusação: as quatro entidades atuariam de maneira coordenada, como grupo econômico unificado sob comando único, desenhado para pulverizar o trânsito de capital e camuflar o fluxo de caixa.
