TARIFLÁVIO QUER TIRAR DE MORAES PEDIDO DE INVESTIGAÇÃO DO DARK HORSE PARA PASSAR PARA O BOLSONARISTA MENDONÇA

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BOLSONARISMO EM PÂNICO

Moraes encaminhou à PGR pedido para investigar esquema de Daniel Vorcaro com Flávio Bolsonaro no fundo Havengate. Senador quer que solicitação vá para as mãos de André Mendonça, com quem dividiu palanque na Marcha para Jesus.

Por: Plínio Teodoro: 05/06/2026 – 
– Flávio Bolsonaro e André Mendonça na Marcha para Jesus (Miguel Schincariol AFP / Peter Leone Ofotográfico Folhapress)

Osenador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) protocolou pedido no Supremo Tribunal Federal para que o ministro Alexandre de Moraes seja declarado suspeito para processar e julgar fatos relacionados ao empresário Daniel Vorcaro e ao Banco Master.

O movimento foi apresentado após Moraes encaminhar à Procuradoria-Geral da República um pedido do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) que solicita apuração sobre supostas ligações entre o senador e o banqueiro, especialmente no financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, o filme Dark Horse.

A defesa de Flávio quer que o caso seja redirecionado para André Mendonça, atual relator do caso Master no STF, com quem o senador dividiu o palanque na Marcha para Jesus, em São Paulo, dias antes do protocolo. A manobra ocorre enquanto Vorcaro, preso em Brasília, negocia uma delação premiada que menciona o senador.

A investida contra Moraes

A defesa de Flávio Bolsonaro argumenta que o ministro Alexandre de Moraes tem uma relação com Daniel Vorcaro que o impediria de atuar com imparcialidade no caso. Segundo os advogados do senador, o pedido não representa qualquer juízo de valor sobre a natureza dessa relação, mas busca garantir a observância das regras processuais e regimentais do STF. O argumento, em linguagem técnica, tem uma consequência prática direta: retirar Moraes da equação em um momento em que o ministro acabou de movimentar o caso ao encaminhar o pedido de Lindbergh Farias à PGR.

A ação foi protocolada na sequência imediata da decisão de Moraes de dar curso ao requerimento do deputado petista. Lindbergh havia solicitado que o STF apurasse as supostas ligações entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro no contexto do financiamento de Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao enviar o pedido à PGR para manifestação, Moraes sinalizou que a apuração teria seguimento institucional. A resposta da defesa do senador veio em forma de questionamento à própria competência do ministro para conduzir o processo.

O timing do pedido de suspeição é, por si só, revelador. Ao contestar a legitimidade de Moraes para o caso no momento em que o ministro deu o primeiro passo concreto em direção à apuração, a defesa de Flávio Bolsonaro buscou interromper o fluxo processual antes que ele avançasse. O STF ainda não havia se manifestado formalmente sobre o pedido até o fechamento desta reportagem.

O elo com o Banco Master

O pedido de Lindbergh Farias que desencadeou toda a movimentação tem como núcleo o financiamento da cinebiografia Dark Horse por Daniel Vorcaro. Segundo informações que embasaram o requerimento do deputado, trocas de mensagens entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro mostram o senador cobrando de Vorcaro a destinação de recursos para a produção do filme. A segunda proposta de acordo de delação premiada apresentada por Vorcaro inclui menções ao senador e aponta que mais de 10 milhões de dólares teriam sido destinados ao clã Bolsonaro, supostamente para financiar o projeto cinematográfico.

Vorcaro está preso em Brasília e conduz negociações de delação premiada com as autoridades. A inclusão de Flávio Bolsonaro na segunda proposta de acordo amplia o alcance político do caso e coloca o senador diretamente no centro de uma investigação que já envolve ex-ministros do governo Jair Bolsonaro. O caso Master, que começou como uma apuração sobre irregularidades financeiras no banco, foi se ramificando até atingir figuras centrais do bolsonarismo.

A solicitação de Lindbergh Farias ao STF foi o gatilho formal para que o nome de Flávio Bolsonaro entrasse no radar do Supremo de forma mais direta. Ao encaminhar o pedido à PGR, Moraes deu ao caso uma dimensão institucional que a defesa do senador claramente buscou neutralizar com o pedido de suspeição. O conteúdo da delação de Vorcaro, ainda em negociação, é tratado como sigiloso, mas sua existência e o fato de mencionar o senador já são públicos.

A estratégia de relatoria

O destino que a defesa de Flávio Bolsonaro quer dar ao caso não é neutro: os advogados pedem explicitamente que o pedido de Lindbergh Farias seja redirecionado para o ministro André Mendonça, atual relator do caso Banco Master no STF. A escolha não é aleatória. Mendonça já concentra em suas mãos as decisões centrais do inquérito e tem adotado uma postura de centralização que, na prática, restringiu o espaço de atuação de outros órgãos, incluindo a própria Polícia Federal.

A proximidade pública entre Flávio Bolsonaro e André Mendonça ganhou visibilidade concreta quando os dois dividiram o palanque na Marcha para Jesus, em São Paulo, no dia 4 de julho. No mesmo trio elétrico, Mendonça foi questionado sobre “os grandes casos” que enfrenta no Supremo e respondeu pedindo “sabedoria para fazer justiça a todos”, sem comentar casos específicos. Flávio, por sua vez, fez um discurso de tom eleitoral diante de milhares de evangélicos, citando “guerra espiritual” e prometendo expulsar “o mal” do governo nas próximas eleições.

O evento reuniu ainda o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, ambos citados em investigações ligadas ao caso Master. A imagem de Flávio Bolsonaro ao lado do relator do caso que envolve seu nome, em um evento de massa com outros investigados, sintetiza a dimensão política da disputa que se trava nos bastidores do STF.

Contexto de blindagem

Quando André Mendonça assumiu a relatoria do caso Master, sua primeira decisão foi também a mais reveladora. O ministro determinou que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, fosse afastado do acompanhamento direto das investigações. A decisão foi além: Mendonça deixou claro, em texto expresso, que apenas as autoridades policiais diretamente envolvidas na condução dos procedimentos poderiam ter acesso ao inquérito sigiloso, vedando a comunicação inclusive com superiores hierárquicos e outras autoridades públicas.

O ministro também centralizou em si a autorização para abertura de qualquer nova investigação decorrente do caso. Segundo a decisão, “a instauração de qualquer nova investigação ou inquérito deve, antes, ser expressa e fundamentadamente requerida a este Relator, devendo-se aguardar a respectiva deliberação a respeito, caso a caso”. Na prática, nenhuma linha de apuração pode ser aberta sem o aval de Mendonça, o que inclui investigações sobre ex-colegas de ministério no governo Bolsonaro, como Flávia Perez, Ronaldo Bento e João Roma.

Além do afastamento da PF, Mendonça autorizou que Daniel Vorcaro não depusesse em comissões do Congresso, incluindo a CPMI do INSS. O deputado Rogério Correia (PT-MG) criticou publicamente as decisões, apontando interferência inconstitucional e o que chamou de “dupla blindagem”: de um lado, as conexões dos investigados com o bolsonarismo; de outro, as ligações com a Igreja Lagoinha, frequentada por Mendonça. O ministro foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, que o definiu como “terrivelmente evangélico”.

Disputa política e implicações

A movimentação de Flávio Bolsonaro no STF é lida por analistas e parlamentares da oposição como uma tentativa de evitar que Alexandre de Moraes, conhecido por conduzir investigações sobre o clã Bolsonaro com rigor, tenha qualquer participação no caso que envolve o senador. Transferir a relatoria para Mendonça significaria concentrar em um único ministro, indicado pelo próprio Jair Bolsonaro, o controle sobre um inquérito que já atingiu figuras centrais do bolsonarismo e pode se expandir ainda mais com a delação de Vorcaro.

O peso político do caso Master vai além de Flávio Bolsonaro. A presença de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes no mesmo evento em que o senador e o relator do caso dividiram o palanque evidencia que o inquérito orbita em torno de uma rede de poder que inclui os principais nomes da direita para 2026. Qualquer desdobramento da delação de Vorcaro que atinja essas figuras terá impacto direto no cenário eleitoral, o que torna a disputa pela relatoria algo muito maior do que uma questão processual.

A autonomia da Polícia Federal no caso já foi concretamente limitada pelas decisões de Mendonça. Se o pedido de suspeição de Moraes for aceito e o caso for integralmente redirecionado para o ministro indicado por Bolsonaro, a PF passará a depender ainda mais de um único ponto de controle para avançar nas investigações. O desfecho da delação de Vorcaro, com seu conteúdo ainda sigiloso mas politicamente explosivo, é o elemento que pode definir os próximos capítulos de um caso que já se tornou um dos mais sensíveis da história recente do STF.

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