Todos os elementos estão à mão. Basta organizá-los em grupos de trabalho, com determinações objetivas e sob o comando do próprio Presidente.

Se o governo Lula pretende preparar as ‘entregas’ do próximo mandato, a receita é objetiva: organizar, ainda neste ciclo, os grupos de trabalho que vão mapear, projetar e executar as cadeias produtivas dos novos setores estratégicos da economia brasileira — com ênfase nas terras raras, nos datacenters e inteligência artificial, e na bioeconomia da Amazônia.
Todos os elementos estão à mão. Basta organizá-los em grupos de trabalho, com determinações objetivas e sob o comando do próprio Presidente da República.
Passo 1 — Constituição dos Grupos de Trabalho
Os grupos de trabalho devem reunir os principais atores institucionais capazes de traduzir visão estratégica em capacidade produtiva real. A arquitetura proposta articula quatro conjuntos de atores:
1.1 Associações Setoriais da Indústria de Base
- ABDIB — Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base
- ABIMAQ — Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos
- ABINEE — Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica
1.2 Centros de Inteligência Estratégica do Governo
- BNDES — Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
- IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
- FINEP — Financiadora de Estudos e Projetos
- CGCEE — Comitê de Gestão da Competitividade e Eficiência Energética
1.3 Grupos de Apoio às Pequenas e Médias Empresas
- Sistema S (SENAI, SEBRAE, SESI e correlatos)
- Organização Brasileira das Cooperativas (OCB)
- MST — Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
1.4 Ministérios Estratégicos
Participação dos principais ministérios ligados à economia, ciência e tecnologia, desenvolvimento social e meio ambiente — com coordenação transversal por especialistas em política industrial, análise setorial e tecnologia.
Eixos Temáticos dos Grupos de Trabalho
Cada grupo de trabalho será organizado em torno de metas específicas, correspondentes aos novos vetores de desenvolvimento:
Eixo 1 — Cadeia Produtiva das Terras Raras
Mapeamento completo da cadeia, da extração ao processamento e à manufatura de insumos estratégicos, com identificação de parceiros internacionais e empresas nacionais aptas a operar em cada elo.
Eixo 2 — Datacenters, Energia Verde e IAs Nacionais
Desenvolvimento de infraestrutura de processamento de dados de escala soberana, acoplada à expansão de energia renovável e ao fomento de iniciativas nacionais de inteligência artificial.
Eixo 3 — Bioeconomia da Amazônia
Estruturação de cadeias produtivas sustentáveis baseadas na biodiversidade amazônica, com ênfase em produtos de alto valor agregado, carbono, biotecnologia e mercados internacionais.
Passo 2 — Definição dos Objetivos e Entregas por Grupo
Cada grupo de trabalho deverá produzir, ao final de seu ciclo, um conjunto definido de entregas concretas e mensuráveis. São oito dimensões de trabalho:
- Construção do mapa completo da cadeia produtiva do setor, com identificação dos elos ausentes e das interdependências críticas.
- Identificação das empresas nacionais com capacidade técnica e financeira para desenvolver projetos em cada elo da cadeia.
- Identificação de empresas internacionais parceiras — com foco em transferência de tecnologia e co-investimento produtivo.
- Montagem do pacote de estímulos financeiros e tributários (crédito subsidiado, desoneração, desonerações setoriais, fundos de venture capital público).
- Inclusão, em cada grupo de trabalho, de agenda específica para pequenas e médias empresas — mapeando segmentos com maior potencial de absorção por MPEs e cooperativas.
- Identificação dos setores prioritários dentro de cada cadeia, com critérios de seleção baseados em valor estratégico, geração de emprego e potencial exportador.
- Identificação dos benefícios regionais por estado — especialmente aqueles onde as empresas serão instaladas, articulando federalismo fiscal e desenvolvimento regional.
- Montagem de políticas de estímulo à transição do capital financeiro para os novos setores produtivos, reduzindo a dependência do carry trade e da rentabilidade puramente financeira.
Nota de Método
O êxito do programa depende de que os grupos de trabalho não sejam consultivos — mas executivos. A diferença está na clareza das metas, na autoridade de coordenação e no compromisso de que cada eixo produz, no prazo definido, um plano setorial aprovado pelo governo e com dotação orçamentária correspondente. O modelo histórico mais próximo são os Grupos Executivos do governo JK: estruturas ágeis, centradas em metas, com capacidade de transitar entre governo, setor privado e academia.
A simples montagem dos grupos e o início dos trabalhos ajudará no início da construção de uma perspectiva de futuro, capaz de trazer de volta o otimismo em relação ao país.
A diferença para 2026 é que os novos setores são mais intensivos em conhecimento, mais distribuídos territorialmente e mais dependentes de redes de PMEs e cooperativas do que a industrialização pesada dos anos 1950. A arquitetura dos grupos deve refletir essa especificidade.