A Sabesp já demitiu mais de 2 mil funcionários desde a privatização, sendo mil apenas no primeiro trimestre de 2025, segundo seu balanço.

Ontem, um trabalho da Sabesp perfurou um gasoduto da Comgás, provocando uma explosão que destruiu dezenas de casas e deixou um morto.
É consequência clara da privatização da Sabesp, conforme explicarei mais à frente. Mas o jornal do estado, o diário que foi fundado para defender os direitos dos paulistanos e paulista, perpetrou a seguinte reportagem sobre o evento.
Primeira página – esconde a nota na parte inferior da primeira página, sem mencionar o nome da Sabesp

Título interno, continua sem mencionar o nome da Sabesp no título e no intertítulo

O nome Sabesp só aparece no 7o parágrafo da matéria. Pela redação, a Sabesp “identificou” o vazamento. Nem de longe se fala de sua responsabilidade

A responsabilidade da privatização
Na área de manutenção, a mudança foi bem mais sensível — e mais controversa — do que na segurança.
O que aparece no pós-privatização da Sabesp é uma combinação de:
- explosão dos investimentos em expansão de rede;
- pressão por redução de custos fixos;
- enxugamento das equipes próprias;
- aumento da terceirização da manutenção operacional.
A companhia praticamente dobrou — cresceu 120%, para ser preciso — os investimentos totais após a privatização. Em 2025, os aportes chegaram a R$ 15,2 bilhões, contra cerca de R$ 6,9 bilhões antes da privatização. No acumulado desde julho de 2024, a empresa contabiliza R$ 10,6 bilhões investidos, dentro de um plano de R$ 70 bilhões até 2029. (Agência SP)
Mas há uma distinção importante:
- cresceu muito o CAPEX (obras, expansão, novas tubulações, estações);
- enquanto o OPEX técnico-operacional passou por racionalização.
Ou seja: entrou muito dinheiro em obras e ativos novos, mas houve forte pressão sobre manutenção cotidiana e pessoal técnico.
Antes da privatização, o plano plurianual da Sabesp já mostrava uma divisão interessante entre rubricas de “expansão de sistemas”, “melhoria de sistemas”, “renovação de ativos” e “desenvolvimento operacional (energia, automação, retrofits)”. (Seu Dinheiro)
Essa última rubrica é justamente onde historicamente ficam manutenção pesada, substituição de equipamentos, automação, modernização operacional e manutenção preventiva. O dado relevante é que, proporcionalmente, a expansão passou a pesar mais do que a manutenção tradicional.
Ao mesmo tempo, sindicatos e associações de trabalhadores começaram a denunciar redução de equipes técnicas, PDVs e demissões, terceirização acelerada, perda de pessoal experiente de campo e risco de aumento de vazamentos e falhas de resposta rápida. (Agência Brasil)
A Sabesp já demitiu mais de 2 mil funcionários desde a privatização, sendo mil apenas no primeiro trimestre de 2025, segundo balanço da própria empresa. Segundo Amauri Pollachi, engenheiro com 30 anos de empresa e hoje conselheiro do ONDAS (Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento), o quadro total caiu de cerca de 12.500 para menos de 8.000 funcionários em apenas dois anos — com dois PDVs mirando preferencialmente os técnicos mais experientes e de salários mais elevados.
Impacto operacional
O impacto operacional já é mensurável. Antes, um vazamento era consertado em dois dias; agora leva cinco, seis, segundo Pollachi. Há denúncias de queda na qualidade dos serviços e aumento de acidentes operacionais, como vazamentos de esgoto em regiões próximas à Rodovia Castelo Branco e à Represa do Guarapiranga. Em junho de 2025, a empresa registrou o despejo de esgoto não tratado no rio Tietê após o rompimento de uma tubulação em obras na zona norte de São Paulo — incidente que causou repercussão nacional.
Quanto ao índice de perdas físicas — o dado mais objetivo para avaliar a qualidade da manutenção de rede — a Sabesp reconhece que 19% de toda a água fornecida se perde em vazamentos nas tubulações, e outros 10% são desviados por furtos e fraudes. Para enfrentar o problema, a companhia planeja investir R$ 9,7 bilhões até 2029 em combate a perdas e fraudes, dos quais R$ 7 bilhões voltados especificamente ao desvio de água. O argumento da empresa é que novas tecnologias compensam a redução de equipes: localização de vazamentos por satélite e fiscalização de reposição asfáltica com inteligência artificial seriam parte dessa reconversão.
Na prática, o modelo parece ter migrado de:
Modelo estatal clássico
- manutenção mais preventiva;
- equipes próprias;
- conhecimento acumulado local;
- oficinas e operação regionalizadas;
para algo mais parecido com utilities privadas internacionais:
Modelo pós-privatização
- manutenção orientada por indicadores;
- contratos terceirizados;
- automação e telemetria;
- manutenção “sob demanda”;
- centralização de compras e gestão;
- foco em produtividade por equipe.
Isso gera um efeito paradoxal: no curto prazo, os investimentos explodem; mas a capacidade orgânica de manutenção pode enfraquecer se houver perda excessiva de técnicos experientes.
E esse é exatamente o ponto do conflito atual. A distribuição de dividendos aumentará progressivamente, passando de 25% para até 100% do lucro líquido a partir de 2030, o que impõe pressão estrutural permanente sobre os custos operacionais.
O árbitro desse conflito, ao menos institucionalmente, é a ARSESP. A agência afirma que acompanha e monitora eventuais impactos da redução de quadro com base em indicadores contratuais, e que, caso sejam identificadas inconsistências, serão adotadas medidas cabíveis. O problema é que o primeiro relatório público sobre a nova concessão está previsto apenas para o final de 2025 — ou seja, por ora falta o instrumento básico de transparência que permitiria avaliar sistematicamente se o modelo está ou não comprometendo a qualidade da manutenção.
É uma tensão típica de privatizações de infraestrutura: expansão financeira rápida versus manutenção silenciosa do sistema. Os indicadores que dirão se o modelo funciona — índice de perdas físicas, tempo médio de reparo, reclamações por 10 mil consumidores no SAU-ARSESP — estão sendo monitorados, mas ainda não são públicos de forma consolidada. A resposta chegará nos próximos 12 a 24 meses.