DUDA BEAT: “FIZ MEU DISCO ENQUANTO ESTUDAVA POLÍTICA”

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MÚSICA E POLÍTICA

Oito anos após o primeiro álbum, cantora pernambucana fala sobre carreira, Europa e eleições

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Duda Beat pode lançar seu quarto álbum ainda este ano | Crédito: Divulgação

Formada em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cantora e compositora pernambucana Duda Beat defende, em 2026, que os eleitores leiam as propostas dos candidatos antes de votar.

“Política deveria ser matéria obrigatória — somos seres políticos o tempo inteiro. Leiam a agenda dos candidatos, porque é ali que eles vão dizer exatamente o que pretendem fazer nos próximos anos”, disse a artista durante entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.

A formação acadêmica e a carreira artística se cruzaram desde o início. Durante a graduação, Duda fez um retiro de meditação de dez dias e voltou decidida a escrever um disco. Entregou o álbum “Sinto Muito” em 27 de abril de 2018 e a monografia dois meses depois, em junho. “São discos dos quais me orgulho muito, com canções que escrevi com todo o meu amor e carinho, nos quais coloquei para fora um pedacinho de mim”, disse.

Neste mês de maio, a artista entra em estúdio para gravar seu quarto álbum, ainda sem título, previsto para o final de 2026 ou o início de 2027. “Sinto que as pessoas vão ficar muito felizes com as canções, porque tem aí um pouco da artista dos primeiros trabalhos”, antecipou. Para os fãs saudosos do tom melancólico dos primeiros trabalhos, ela promete: “Agora se prepara para chorar.”

A discografia que chega ao quarto álbum inclui “Sinto Muito” (2018) e “Te Amo Lá Fora” (2021), ambos por gravadora independente; “Tara e Tal” (2024), pela Universal Music Brasil; e os EPs “Detalhes”, com Nando Reis (2021, Relicário), e “Esse Delírio vol. 1” (2025, Universal Music Brasil).

De volta de uma turnê pela Europa — oito cidades em dez dias, de Londres a Lisboa —, Duda conta que notou mudança no perfil do público dos seus shows. Antes, a proporção era de 90% de brasileiros para 10% de estrangeiros. Agora, segundo ela, a divisão chegou a 70% e 30%. “O Brasil está em alta. Sinto que a galera está muito curiosa sobre o que a gente produz”, afirmou.

Leia a entrevista completa

Brasil de Fato: No dia 27 de abril de 2018, você lançou o álbum “Sinto Muito”, com músicas como “Bichinho” e “Ninguém Dança”. De lá para cá, se passaram oito anos. Como foi esse período?

Duda Beat: Esses oito anos foram muito deliciosos, com tudo que essa carreira inclui. É realmente um momento de celebrar. Estou muito feliz de estar completando oito anos, quero fazer mais oito e mais quanto for.

São oito anos com discos dos quais me orgulho muito, uma discografia da qual me orgulho, com canções que escrevi com todo o meu amor e carinho, nas quais coloquei para fora um pedacinho de mim — das coisas que estava sentindo, das coisas que vivi.

Falando um pouco de “Esse Delírio”, que é o EP no meio dessa discografia: é um EP onde falo sobre sonhos, sobre coisas que sonhei, que pensei, coisas que não vivi e que estava afim de colocar ali. Me sinto muito feliz e orgulhosa, ainda mais sabendo das coisas que já escrevi e que vão sair nos próximos meses. Me sinto muito abençoada com essa carreira.

Você fez uma turnê pela Europa. Conta para a gente como foi.

Muito legal — aquela coisa cansativa de um dia em cada país, mas é muito gostoso cantar lá fora, porque rola um encontro que é até um pouco nostálgico entre mim e o meu público de fora. Sinto que eles prestam muita atenção porque sentem muita falta. Moram fora do Brasil, então sentem muita falta do jeitinho brasileiro, do sotaque e das músicas que o Brasil produz, que são muito maravilhosas.

Mas uma coisa que percebi nessa última turnê, e acho muito legal falar, é que tinha muito gringo, muita galera local. Tenho sentido esse movimento de pessoas de fora querendo se aprofundar na música brasileira, estar perto e escutar.

Você consegue ter uma dimensão de quantos são brasileiros saudosistas, com saudades desse calor brasileiro, e quantos são realmente pessoas locais que já conhecem o seu trabalho?

Antes, quando eu ia para lá, sentia que era uma proporção de 90% para 10%. Hoje em dia posso dizer que está entre 70% e 30%. Vi muita gente, galera local prestando atenção. Com admiração, com respeito e com curiosidade. Sinto que as pessoas estão muito curiosas.

O Brasil está em alta, todo mundo já sabe disso, mas sinto que a galera está muito curiosa sobre o que a gente produz, o que a gente fala nas músicas. Não me admiraria se chegassem em casa e fossem descobrir o que eu falei nas canções, traduzir mesmo.

A gente é muito bem tratado, com muito amor e carinho. Em todos os países que fui, senti uma recepção muito calorosa, muito amorosa.

Quero falar agora sobre a sua relação com o brega, da relação do Recife e de Pernambuco com o brega, e principalmente como o Brasil enxerga esse ritmo. O brasileiro olha para o brega com receio?

Eu sentia isso, mas está mudando muito rápido. Não é à toa que você vê cantoras como Priscila Sena já despontando e conquistando o Brasil. Rolava um pouco isso: a galera do brega fazendo muito sucesso em Pernambuco, mas sem sair tanto.

Hoje em dia já acho o contrário. O brega e o brega funk estão conquistando cada vez mais. Acho que a história do brega funk começou a conquistar o país inteiro com MC Loma. O hit do Carnaval de 2019, se não me engano, foi “Envolvimento”. E cada vez mais estão rompendo barreiras, e fico muito feliz com isso. Além de ser de Pernambuco e exaltar muito nas minhas canções os ritmos produzidos lá, sempre falo, em toda entrevista, que a minha formação musical é pernambucana. Cresci ouvindo Chico Science e o Nação Zumbi, que estão muito presentes no meu trabalho como referência, além de todos os bregas do Recife.

Me lembro que voltava do colégio e tinha os programas do meio-dia — os programas de brega que passavam na TV do Recife. A Banda Metade, O Conde Só Brega… Eu e meus irmãos ficávamos vendo com muita admiração. Eu amava, sabia as músicas todas decoradas e cantava. Então, tenho essa formação musical do frevo, do xaxado e do forró.

A gente ia celebrar o forró no São João de Gravatá, no São João de Caruaru. Tudo isso está muito presente na minha formação musical, e tenho responsáveis por isso. Minha avó, que traz a história do frevo — ela é uma grande foliã do Carnaval do Recife. Todo ano fazia questão de estar no Bloco da Saudade, que é um bloco lírico do Recife.

Tudo isso foi permeando a minha vida de uma forma muito bonita, e acho que é por isso que isso reflete tanto no meu som: essa miscelânea musical de pegar esses ritmos e juntar com outras referências, para além do Brasil também, e fazer um som tão único que define muito o que eu faço.

Agora uma pergunta polêmica: o Carnaval do Recife é o Carnaval mais poderoso do Brasil?

Eu amo o Carnaval do Recife, cresci indo para o Carnaval do Recife. Então, é poderoso demais. Existe essa coisa de, durante o dia, você curtir Olinda, e à noite, curtir o Recife Antigo.

Existia um slogan, e acho que existe até hoje, que é o “Carnaval Multicultural”: um Carnaval onde você tem vários palcos espalhados pelo Recife Antigo e cada um tocando um gênero diferente. É um Carnaval para todo mundo, totalmente de graça, acessível, naquele lugar incrível.

Acho o Carnaval do Recife muito maravilhoso, acho ele inclusivo. Tem essa coisa de abraçar os ritmos que o Recife tem. Então, para mim, é o mais poderoso, sim, é o mais multicultural.

De certa forma, está acontecendo uma privatização do Carnaval em algumas cidades — São Paulo é uma referência, Rio de Janeiro, Belo Horizonte são algumas capitais que vêm passando por isso, por uma dominação de marcas. E o Recife vem resistindo nesse sentido, não só permanecendo inclusivo, aberto e multicultural, mas também com muito respeito aos verdadeiros fundadores e fundadoras do Carnaval. Ele se renova, mas não abre mão dos maracatus, por exemplo.

Exatamente. É muito bonita essa coisa de ir ao Recife Antigo à noite, estar na rua e ver os blocos passarem. Isso é a coisa mais bonita: passa um bloco de Maracatu, depois passa o bloco de frevo, o Bloco da Saudade e outros blocos. De dia você vai a Olinda e tem vários blocos de rua. É muito legal, acho um Carnaval completo. Tem as festas fechadas também, mas você tem esse poder de escolha.

Bate uma saudade de curtir o Carnaval só como foliã, e não como artista?

Muito. Às vezes eu vou e a galera me respeita muito. Outro dia fui ao Carnaval de Olinda e fiquei lá de boa. Sempre que posso, estou por lá celebrando e curtindo.

Estamos no marco de 30 anos do lançamento do álbum “Da Lama ao Caos”. O seu nome artístico é uma referência ao manguebeat?

Sim, completamente. Quando estávamos pensando no meu nome artístico, vieram algumas opções: Eduarda, Duda, Duda Bit — porque meu nome é Eduarda Bitencourt. Uma grande amiga minha falou: “Por que você não coloca ‘beat’ de batida?” Eu disse: “Caraca, é óbvio. O movimento manguebeat, que é um dos movimentos que mais me atravessam desde criança. Tem que ser esse nome.”

Chico Science é muito poderoso na minha vida. Em Recife tem uma coisa muito bonita: todo final de ano nas escolas, pelo menos na escola onde eu estudava, a gente dançava uma dança típica de Pernambuco. Na quinta série, dancei frevo no final do ano. Na sexta série, a gente dançava xaxado. Na oitava, dançávamos maracatu. Me lembro que fiz uma apresentação com uma música do Chico Science, “Maracatu Atômico”. Foi o meu primeiro contato com o Chico. Voltei para casa perguntando ao meu pai, que me disse: “Chico é um dos caras mais importantes de Pernambuco. Ele revolucionou.” E aí fui introjetando a obra dele inteira em mim.

Saiu uma homenagem aos 30 anos de “Da Lama ao Caos” e eu cantei a faixa-título nesse projeto. É a minha música favorita. Acho lindo a forma do repente que ele faz no meio da música, a guitarra pesada e o elemento eletrônico. E tem aquela frase dele, presente nesse disco: “Modernizar o passado é uma evolução musical.” Isso é algo que trago muito nas minhas canções. Tenho uma música que se chama “Meu Piseiro”, por exemplo — porque é um piseiro do meu jeitinho de misturar as coisas. Tenho um pagodão misturado com um forró. Vou fazendo as coisas do meu jeito assim. E acho que é muito sobre isso: modernizar o passado é uma evolução musical.

Então, o Chico está muito presente na minha vida. Sou amiga do Pupilo, e outro dia estava conversando com ele quando ele me disse uma coisa que me deixou com o olho cheio d’água: “Acho que o Chico ia te amar.” Eu falei: “Você acha?” E ele disse: “Acho que ele ia achar você foda. Acho que ele ia falar: ‘Caraca, que foda essa mina que tá fazendo as coisas do jeito dela, sem seguir fórmula, indo na dela.’” Existe uma conexão muito perceptível entre a gente.

Me lembro quando ele faleceu, foi em 97. Eu nasci em 87, então tinha uns 10 anos. Me lembro porque minha irmã voltou para casa dizendo que estava num bloco de rua e o bloco parou para dar a notícia, e a galera se dispersou. Foi uma coisa muito séria para ela, que ficou muito triste. E me lembro do clima em casa naquele dia: meu pai estava muito triste, minha mãe estava muito triste, porque ele é realmente um cara muito cultuado no Recife. Todo mundo é muito apaixonado por ele.

Até me lembrei de um documentário que vi sobre ele, que tem uma fala do Pupilo ou do Du Peixe dizendo que foram poucos anos, mas que ele entregou tudo que era para ser entregue nesse tempo. Uma maneira bonita de referenciar toda a trajetória dele, mas ao mesmo tempo muito triste.

Pesquisando, descobri que você é formada em Ciência Política pela UFRJ. Queria te ouvir sobre se a universidade pública e a Ciência Política te ajudaram na formação da sua carreira artística.

Completamente. Eu tentei por muito tempo entrar em medicina, não consegui e falei: “Vou fazer essa faculdade, vamos ver o que vai acontecer.” E me apaixonei pelo curso.

Costumo dizer que política deveria ser uma matéria obrigatória — política e economia deveriam estar na grade curricular, porque é muito importante entender que somos seres políticos, que fazemos política o tempo inteiro. Para minha carreira, foi extremamente importante. Sempre fui uma cantora que se posiciona, e é muito importante ter essa base, esse conhecimento, ter estudado tantos pensadores que falaram sobre política, ter estudado sobre o poder do voto, como ele funciona, para onde vai. Me orgulho muito dessa formação.

Foi no meio da faculdade de Ciência Política que fiz um curso de meditação, passei 10 dias em silêncio e voltei decidida a escrever um disco. Estava escrevendo o meu disco enquanto estudava política. Para mim isso é muito simbólico, muito importante. Entreguei o meu disco em 27 de abril de 2018 e entreguei meu artigo de conclusão dois meses depois, em junho.

Foi o seguinte: amo essas duas coisas, o que der eu vou fazer com muito amor e carinho. E aí a música acabou tomando um rumo muito grande, mas tenho essa formação no meu coração de uma forma muito bonita e viva.

Queria te ouvir um pouquinho sobre 2026, que é um ano extremamente político, ano de eleição. Parece que é mais o momento de a classe artística convocar a população para ir às ruas e manifestar o que está acontecendo no Congresso?

Com certeza. Vivemos numa sociedade democrática, temos que lutar pelos nossos direitos, sair às ruas, pedir as coisas em que acreditamos, lutar por essas causas. Isso também é fazer política, é ser político.

Sou uma pessoa que realmente se posiciona, sempre me posicionei. E se eu fosse deixar uma dica para os votantes deste ano: leiam a agenda de propostas dos candidatos. Isso é muito importante. A gente acha que não é tão relevante, mas é, porque é ali que eles vão dizer exatamente o que pretendem fazer nos próximos anos. E aí você vê se concorda ou não. E, se tiver tempo para se aprofundar no tema, entenda um pouco sobre o poder do voto. Para onde vai o seu voto?

E para encerrar: o que tem por vir pela frente?

Tem coisas por vir. Estou fazendo o meu álbum DB4, um álbum que estou fazendo com muita calma, com um espírito um pouco parecido com o do primeiro, no sentido de fazer sem pressa. O primeiro álbum é muito libertador: a gente não tem ninguém esperando nada da gente, então faz no seu tempo. E o meu trabalho é muito artesanal, demora um tempo para sair.

Nesse mês de maio entro em estúdio para gravar todos os instrumentos. As canções já estão todas prontas, escrevi até mais do que cabe num disco. Estava muito inspirada. Sinto que as pessoas vão ficar muito felizes com as canções, porque tem aí um pouco da artista dos primeiros trabalhos.

Li um comentário de um fã meu: “Sinto falta da Duda deprimida.” Até brinquei com ele e falei: “Você vai ver muita Duda deprimida. Agora se prepara para chorar.” E também para dançar, para chorar dançando, que é uma coisa muito presente no meu trabalho. Ainda estou vendo como as coisas vão se encaixar, se o álbum sairá este ano ou no próximo,, mas quando vier, tenho certeza de que a galera vai amar, porque estou muito apaixonada por esse quarto álbum.

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