O RELATO DO FOTÓGRAFO, SÉRGIO SILVA QUE PERDEU A VISÃO POR FORÇA DE UMA BALA DA PM/SP E PRECISOU LUTAR POR JUSTIÇA APÓS JUNHO DE 2013

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Ao GGN, profissional relembra a noite em que ficou cego e a batalha de 13 anos até ser indenizado

O fotojornalista Sérgio Silva. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
Na noite de 13 de junho de 2013, o exercício do jornalismo foi interrompido pelo impacto de uma bala de borracha que apagou a visão de quem estava ali para registrar a história. Para um fotojornalista que cobria o ato contra o aumento das tarifas em São Paulo, aquela data está longe de ser apenas um registro nos livros de política, mas um “grande filme” de memória viva. O que se seguiu foi uma batalha de 13 anos que transitou do trauma físico à tortura institucional.

Este é o relato de Sérgio Silva, fotógrafo que detalhou ao GGN a jornada de dor e resistência que o levou da rua da Consolação ao Supremo Tribunal Federal. Em uma conversa densa, Sérgio revisita a noite fatídica, a luta para sustentar a família após a perda da visão do olho esquerdo e a revitimização imposta por um judiciário que, por mais de uma década, tentou culpá-lo pela própria tragédia.

O dia fatídico

O cenário na Rua da Consolação, no dia 13 de junho, era de tensão crescente. Sérgio recorda que a organização do ato buscava manter a ordem para evitar pretextos de intervenção, mas o comando da Polícia Militar já sinalizava uma postura ríspida, tratando a imprensa quase como um alvo a ser afastado. O fotógrafo relata que, após buscar abrigo atrás de uma banca de jornal para se proteger do gás lacrimogêneo, decidiu retomar o trabalho quando os disparos cessaram momentaneamente. Foi nesse hiato de aparente calma que o golpe veio.

“Foi quando eu baixei a câmera do rosto, no exato instante em que terminei de fazer os cliques, que a tropa retomou os disparos com bala de borracha na direção em que eu estava. Um desses tiros atingiu meu olho esquerdo e a consequência foi a perda total da visão. Foi uma noite de muita violência e covardia por parte da tropa, uma ação totalmente desproporcional contra jovens que ofereciam, no máximo, a resistência de estar na rua”.

Em meio à fumaça e ao caos, Sérgio precisou gritar por ajuda até ser amparado por um professor da rede pública. Como as vias estavam bloqueadas pela própria polícia, a caminhada até o hospital tornou-se um longo caminho de quase cinco quilômetros, marcado por desmaios causados pela dor e pelo sangue que não estancava. Ao chegar no hospital, a sutura no globo ocular foi apenas o primeiro passo de uma saga que o afastaria do sustento de sua casa e de sua família por meses.

“Como eu trabalhava como freelancer, eu não tinha um emprego fixo e dependia totalmente da minha atuação para ter remuneração. Depois de ser atingido, fiquei absolutamente sem nenhuma fonte de renda, sendo um trabalhador comum que precisava pagar aluguel e colocar comida na mesa. Essa violência interrompeu a minha possibilidade de ganhar o pão diário e eu precisei retomar o trabalho muito mais rápido do que o meu corpo permitia, porque os boletos não paravam de chegar”.

O processo de revitimização na Justiça

A busca por justiça, iniciada ainda em 2013, revelou-se uma nova camada de violência, desta vez institucional. O judiciário paulista, em primeira instância, produziu uma sentença que Sérgio classifica como cruel e mentirosa. O juiz Olavo Zampol Júnior ignorou as provas e testemunhos, sentenciando que o fotógrafo seria o responsável pelo próprio ferimento ao supostamente se colocar na “linha de tiro”. Essa tese da “culpa exclusiva da vítima” arrastou o processo por mais de uma década.

“A justiça em São Paulo ignorou minha profissão e o meu direito de estar ali trabalhando, conduzindo o processo de uma maneira muito violenta e injusta. Eu passei a ser o acusado, não a vítima, enfrentando uma revitimização onde o tribunal ignorou provas e testemunhas, como o do professor que me socorreu. Foi uma condução política do sistema judiciário para prolongar o tempo e garantir que o Estado não fosse responsabilizado pelo erro cometido”.

A decisão unânime da Primeira Turma do STF veio no dia 28, e reverteu o histórico de negativas do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que fundamentava a impunidade na tese da “culpa exclusiva da vítima”. O julgamento, consolidado pelos votos dos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, contou com o reajuste do voto do relator, Alexandre de Moraes, que reconheceu a responsabilidade civil objetiva do Estado. Com o veredito, o governo paulista foi condenado a pagar uma indenização de R$ 100 mil por danos morais, além de uma pensão vitalícia a Sérgio Silva — seguindo o precedente firmado pela própria Corte em 2021, que já havia garantido direito semelhante ao também fotógrafo Alex Silveira, vítima de violência policial idêntica.

Para Sérgio, a vitória na corte máxima do país é necessária, mas carrega o peso de uma espera que nunca deveria ter existido para qualquer cidadão violentado pelo poder público.

“Existe um alívio, mas eu ainda sinto indignação, porque eu não deveria ter passado por esses 13 anos tentando provar que o responsável era o Estado. Já não bastasse o trauma, a perda da visão e o impacto psicológico, eu ainda tive que enfrentar essa luta exaustiva. Por isso, mesmo com o voto favorável de toda a corte, eu não sinto nenhuma glória, porque nada vai apagar a violência psicológica que essas decisões anteriores provocaram na minha vida durante todo esse tempo”.

O significado daquele tiro

Ao refletir sobre o significado daquele dia, Sérgio entende que o tiro que o cegou foi, simbolicamente, um ataque à própria liberdade de imprensa e ao direito de fiscalizar o poder. Ele recorda que não foi o único profissional ferido naquela noite e traça um paralelo com a violência que ainda hoje persegue jornalistas no Brasil. A preocupação com a segurança da família, que o levou a manter sigilo sobre detalhes pessoais após sofrer ameaças por sua militância, é o lembrete constante de que a luta por justiça no Brasil muitas vezes cobra um preço que vai além do tribunal.

“Aquele tiro não foi atirado contra o Sérgio indivíduo, mas contra a sociedade e contra a imprensa, pois a polícia não queria ser fotografada enquanto agia de maneira desproporcional. O jornalismo que se preza em garantir os direitos da população também precisa, em algum lugar, falar de si e proteger os seus. Recebo com carinho o apoio dos profissionais ao longo desses anos, pois todos percebemos que fomos alvos de uma mesma estrutura de opressão”.

Assista a um trecho da entrevista abaixo:

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