LUIS NASSIF: DEUS NOS LIVRE DAS MENTES SIMPLES – E DAS PESSOAS RAIVOSAS

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Outro dia cai em armadilha já conhecida: nunca fazer ironia em texto público. Fiz. A reação foi desanimadora e exaustiva.

Reprodução

Não pense que a ira e o terraplanismo são monopólio dos bolsonaristas. Há bolsões do nosso lado — menores, é verdade — mas intensamente barulhentos, primários e, convenhamos, exaustivos.

Outro dia caí numa armadilha contra a qual o grande Millôr Fernandes já alertava há décadas: nunca faça ironia em texto público.

Para rebater a velha manobra do jornalista que atribui qualquer informação a “seis fontes”, respondi que havia consultado “doze fontes” que diziam exatamente o contrário — e que revelaria seus nomes assim que a jornalista revelasse os dela.

Para quê?

Em minutos, surgiram os perspicazes de plantão: acusaram-me de não querer revelar fontes e — pasmem — de talvez nem tê-las. Fui obrigado a explicar, um por um, que não havia fonte nenhuma. Era ironia. 😉

Erro meu. Ironia exige um mínimo de sofisticação do leitor — e esse é um insumo cada vez mais escasso.

A lógica da simplificação agressiva

Há também os irados. Esses não interpretam: reagem.

Diante de situações complexas, comportam-se como o Pateta ao volante: pegam o controle do próprio post e saem atropelando tudo pela frente — especialmente quem ousa introduzir nuances onde eles querem certezas absolutas.

Por nuance, entenda-se algo simples: criticar decisões de um governo que você apoia.

Como assim? Lula não escorrega. Questionar é fazer o jogo do inimigo. Discordar é traição. Apontar ajustes é sabotagem.

Haja fígado.

O caso Moraes — um personagem de três camadas

Esse comportamento aparece com nitidez no debate sobre Alexandre de Moraes. Ele é, evidentemente, um personagem complexo — e isso já basta para irritar os simplificadores.

Há, no mínimo, três Moraes.

O primeiro é o que conduziu o chamado “inquérito do fim do mundo”. Ali demonstrou visão estratégica e coragem pessoal que, muito provavelmente, entrarão para a história.

O Supremo percebeu antes de muitos a engrenagem da conspiração que se formava no entorno do bolsonarismo. O inquérito foi aberto, entregue a Moraes, que montou sua equipe com base em critérios de confiança pessoal — errando, é verdade, em ao menos um caso grave.

Mas o saldo é inegável: havia riscos reais, inclusive pessoais e familiares. Ainda assim, não houve vacilo. Sua atuação ajudou a pavimentar a resistência institucional que culminou na preservação da ordem democrática.

O segundo Moraes é o magistrado de perfil autoritário, que, como tantos outros integrantes de cortes superiores, passou a monetizar prestígio.

Aqui é preciso precisão: não há prova de “ato de ofício” — isto é, de decisões judiciais tomadas em benefício de contratantes. Mas o simples fato de circular nesse ambiente já fornece munição farta para críticas.

O terceiro elemento não é exatamente uma pessoa, mas um arranjo: a aliança entre Lula e o STF — particularmente Moraes, Gilmar e Toffoli.

O paradoxo dos “objetivos”

É aqui que os defensores da objetividade absoluta entram em curto-circuito.

Como defender hoje o STF se foi o mesmo STF que endossou o impeachment, prendeu Lula e o retirou da eleição de 2018?

A resposta é menos moralista e mais histórica: instituições não são essências fixas. São contextos.

O Supremo — como qualquer poder — é ele e suas circunstâncias.

Não cabe aos novos Catões decretar que “Cartago deve ser destruída”. Essa tentação moralizante pode ser confortável, mas é politicamente inútil.

A pergunta relevante é outra: o que o STF representa hoje?

E mais: o que representa, neste momento, a convergência entre Moraes, Gilmar, Flávio Dino e Dias Toffoli?

O critério que importa

Todo juízo precisa ser subordinado a um objetivo maior.

No Brasil de hoje, esse objetivo é claro: a preservação da democracia.

O resto entra em outra chave:

  • decisões equivocadas → criticam-se
  • excessos → suportam-se
  • agendas regressivas → disputam-se

Mas sem perder o eixo.

Porque quando se perde o eixo, a crítica vira munição — não para corrigir o rumo, mas para desmontar o próprio sistema que permite a crítica.

Em resumo

A política real não é feita de pureza, mas de equilíbrio de forças.

Quem exige coerência absoluta acaba, frequentemente, servindo à incoerência maior.

E quem não suporta complexidade costuma resolver o problema do pior jeito possível: eliminando-a — junto com a própria capacidade de compreender o mundo.

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