LUIS NASSIF: DEUS NOS LIVRE DAS MENTES SIMPLES – E DAS PESSOAS RAIVOSAS
afinsophia 06/05/2026 0
Outro dia cai em armadilha já conhecida: nunca fazer ironia em texto público. Fiz. A reação foi desanimadora e exaustiva.

Não pense que a ira e o terraplanismo são monopólio dos bolsonaristas. Há bolsões do nosso lado — menores, é verdade — mas intensamente barulhentos, primários e, convenhamos, exaustivos.
Outro dia caí numa armadilha contra a qual o grande Millôr Fernandes já alertava há décadas: nunca faça ironia em texto público.
Para rebater a velha manobra do jornalista que atribui qualquer informação a “seis fontes”, respondi que havia consultado “doze fontes” que diziam exatamente o contrário — e que revelaria seus nomes assim que a jornalista revelasse os dela.
Para quê?
Em minutos, surgiram os perspicazes de plantão: acusaram-me de não querer revelar fontes e — pasmem — de talvez nem tê-las. Fui obrigado a explicar, um por um, que não havia fonte nenhuma. Era ironia.
Erro meu. Ironia exige um mínimo de sofisticação do leitor — e esse é um insumo cada vez mais escasso.
A lógica da simplificação agressiva
Há também os irados. Esses não interpretam: reagem.
Diante de situações complexas, comportam-se como o Pateta ao volante: pegam o controle do próprio post e saem atropelando tudo pela frente — especialmente quem ousa introduzir nuances onde eles querem certezas absolutas.
Por nuance, entenda-se algo simples: criticar decisões de um governo que você apoia.
Como assim? Lula não escorrega. Questionar é fazer o jogo do inimigo. Discordar é traição. Apontar ajustes é sabotagem.
Haja fígado.
O caso Moraes — um personagem de três camadas
Esse comportamento aparece com nitidez no debate sobre Alexandre de Moraes. Ele é, evidentemente, um personagem complexo — e isso já basta para irritar os simplificadores.
Há, no mínimo, três Moraes.
O primeiro é o que conduziu o chamado “inquérito do fim do mundo”. Ali demonstrou visão estratégica e coragem pessoal que, muito provavelmente, entrarão para a história.
O Supremo percebeu antes de muitos a engrenagem da conspiração que se formava no entorno do bolsonarismo. O inquérito foi aberto, entregue a Moraes, que montou sua equipe com base em critérios de confiança pessoal — errando, é verdade, em ao menos um caso grave.
Mas o saldo é inegável: havia riscos reais, inclusive pessoais e familiares. Ainda assim, não houve vacilo. Sua atuação ajudou a pavimentar a resistência institucional que culminou na preservação da ordem democrática.
O segundo Moraes é o magistrado de perfil autoritário, que, como tantos outros integrantes de cortes superiores, passou a monetizar prestígio.
Aqui é preciso precisão: não há prova de “ato de ofício” — isto é, de decisões judiciais tomadas em benefício de contratantes. Mas o simples fato de circular nesse ambiente já fornece munição farta para críticas.
O terceiro elemento não é exatamente uma pessoa, mas um arranjo: a aliança entre Lula e o STF — particularmente Moraes, Gilmar e Toffoli.
O paradoxo dos “objetivos”
É aqui que os defensores da objetividade absoluta entram em curto-circuito.
Como defender hoje o STF se foi o mesmo STF que endossou o impeachment, prendeu Lula e o retirou da eleição de 2018?
A resposta é menos moralista e mais histórica: instituições não são essências fixas. São contextos.
O Supremo — como qualquer poder — é ele e suas circunstâncias.
Não cabe aos novos Catões decretar que “Cartago deve ser destruída”. Essa tentação moralizante pode ser confortável, mas é politicamente inútil.
A pergunta relevante é outra: o que o STF representa hoje?
E mais: o que representa, neste momento, a convergência entre Moraes, Gilmar, Flávio Dino e Dias Toffoli?
O critério que importa
Todo juízo precisa ser subordinado a um objetivo maior.
No Brasil de hoje, esse objetivo é claro: a preservação da democracia.
O resto entra em outra chave:
- decisões equivocadas → criticam-se
- excessos → suportam-se
- agendas regressivas → disputam-se
Mas sem perder o eixo.
Porque quando se perde o eixo, a crítica vira munição — não para corrigir o rumo, mas para desmontar o próprio sistema que permite a crítica.
Em resumo
A política real não é feita de pureza, mas de equilíbrio de forças.
Quem exige coerência absoluta acaba, frequentemente, servindo à incoerência maior.
E quem não suporta complexidade costuma resolver o problema do pior jeito possível: eliminando-a — junto com a própria capacidade de compreender o mundo.