LUIS NASSIF: COMO AS TARIFAS DE TRUMP MUDARAM O COMÉRCIO EXTERIOR BRASILEIRO

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O Brasil encerrou o ano com exportações recordes de US$ 348,7 bilhões, redirecionou seus fluxos para a Ásia, o Oriente Médio e a África

Casa Branca – Flickr

Quando o governo Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em 2025, a intenção declarada era pressionar Brasília a se alinhar às prioridades comerciais de Washington. O resultado foi o oposto: o Brasil encerrou o ano com exportações recordes de US$ 348,7 bilhões, redirecionou seus fluxos comerciais para a Ásia, o Oriente Médio e a África — e aprofundou uma transformação estrutural que já estava em curso. As tarifas americanas, paradoxalmente, aceleraram a diversificação que o Brasil não havia conseguido concluir em décadas de retórica de política industrial.

O choque tarifário e a resposta brasileira

O “Dia da Libertação” americano, em 2 de abril de 2025, impôs uma tarifa de 10% sobre exportações brasileiras como piso. Em julho do mesmo ano, Trump elevou as alíquotas para 50% (40% sob o IEEPA mais 10% de tarifa recíproca), entre as mais altas aplicadas a qualquer país no mundo. A reação do mercado foi imediata: entre agosto e dezembro de 2025, as exportações brasileiras aos EUA caíram US$ 3,7 bilhões em relação ao ano anterior, e em fevereiro de 2026, a queda acumulada chegou a 20,3%.

Mas a queda nas vendas americanas não se traduziu em crise — traduziu-se em reorientação. Em fevereiro de 2026, no mesmo mês em que as exportações ao mercado americano recuavam, as vendas à China cresciam 38,7%. O Brasil não perdeu mercado; trocou de cliente.

A decisão da Suprema Corte americana, em fevereiro de 2026, de invalidar parte das tarifas impostas sob o IEEPA reduziu temporariamente a pressão, mas não reverteu os fluxos já estabelecidos. A diversificação tinha ganhado vida própria.

O mapa das exportações em transformação

China: o grande absorvedor

A China consolidou sua posição como principal parceiro comercial do Brasil, cargo que ocupa desde 2009, mas agora com uma margem histórica. O comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões em 2025 — mais que o dobro da relação com os EUA (US$ 83 bilhões no mesmo período). As exportações brasileiras à China chegaram a US$ 100 bilhões, o segundo maior valor histórico.

O deslocamento foi imediato e preciso. China absorveu 37% das exportações redirecionadas pelo Brasil entre agosto e dezembro de 2025. No segmento de soja — o principal produto de exportação brasileiro — 76,6% do total exportado já vai para o mercado chinês. O petróleo bruto, que assumiu o topo da pauta exportadora em 2024, também tem na China seu principal comprador.

A lógica econômica é clara: quando os EUA impuseram tarifas sobre a China em 2018 e 2025, os consumidores chineses precisaram substituir importações americanas. O Brasil estava disponível, com volume, qualidade e proximidade de preços. Soja, carne bovina, café e grãos brasileiros entraram pelo espaço deixado pelos exportadores americanos.

Índia: o mercado do futuro

O crescimento mais expressivo por destino em 2025 não foi a China — foi a Índia, com alta de 52,9% nas importações de produtos brasileiros. O comércio bilateral alcançou US$ 15,2 bilhões no ano, e ambos os governos firmaram meta de US$ 20 bilhões para 2026. O Brasil inaugurou seu primeiro escritório da ApexBrasil em Nova Délhi e realizou o Fórum Empresarial Brasil-Índia para estruturar a expansão comercial.

Os produtos em crescimento incluem petróleo, minérios, produtos agrícolas processados e insumos industriais. A Índia representa para o Brasil o que a China foi nos anos 2000: um mercado em rápida expansão, com crescente classe média e demanda por proteínas, energia e matérias-primas — exatamente o portfólio brasileiro.

Oriente Médio e África: fronteiras em abertura

As regiões do Oriente Médio e da África registraram crescimentos de 20,4% e 24,4%, respectivamente, nas importações de produtos brasileiros em 2025. A Arábia Saudita autorizou a entrada de nove frutas brasileiras, consolidando-se como um dos principais destinos do agronegócio na região, com importações de produtos agrícolas superiores a US$ 2,8 bilhões em 2025. O Egito recebeu autorização para importar carne de pato e coelho brasileiros, e novos mercados africanos absorveram proteínas animais que antes tinham os EUA e a Europa como destino preferencial.

A distribuição geográfica das exportações brasileiras em 2025 reflete essa transformação: 48,9% foram para a Ásia, 17,1% para a Europa, 15,2% para a América do Norte, 14% para América Latina e Caribe, 4,4% para a África — e crescendo.

A pauta exportadora: o que muda (e o que ainda resiste à mudança)

Petróleo assume o topo

Pela primeira vez na história, em 2024, o petróleo bruto superou a soja como principal produto de exportação do Brasil, posição mantida em 2025. Os combustíveis minerais e óleos responderam por US$ 57,16 bilhões, ou 17% do total exportado. O pré-sal, que levou décadas para ser desenvolvido, tornou-se o principal gerador de divisas do país.

Agronegócio se sofistica

O agronegócio mantém participação de 48 a 49% da pauta, mas a composição mudou. Além da soja e das carnes — líderes tradicionais —, crescem as exportações de produtos processados, frutas frescas para mercados premium e insumos agroindustriais. O Brasil obteve autorizações para exportar produtos de maior valor agregado a mercados como Japão, Cingapura, Coreia do Sul e vários países do Golfo Pérsico.

Manufaturados: o calcanhar de Aquiles e os pontos de luz

A grande fragilidade estrutural da pauta exportadora brasileira permanece: a participação dos manufaturados de alto valor agregado ainda é relativamente baixa para uma economia do tamanho do Brasil. Mas há pontos de luz. Os manufaturados responderam por 23% das exportações à China no primeiro trimestre de 2025 — alta de 6 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

A Embraer é o caso exemplar de exportação brasileira de alto valor agregado. Em 2024, o BNDES financiou a exportação de 56 aeronaves para mercados nas Américas, Europa e Ásia. Para 2026, a empresa planeja iniciar a produção de veículos aéreos elétricos (eVTOL), aposta que pode abrir um nicho de exportação de ponta nos próximos anos.

Perspectivas para 2026 e além

O Brasil entra em 2026 com a base mais diversificada de parceiros comerciais de sua história recente. O acordo Mercosul-UE, mesmo com implementação parcial e pendências jurídicas no bloco europeu, já começa a gerar efeitos: as importações europeias de produtos brasileiros cresceram 34,7% após a aprovação do texto pelo Senado.

A candidatura brasileira ao status de maior exportador agrícola do mundo — posição que já ocupa em vários segmentos — se consolida. E o crescimento da Índia como destino, somado à expansão no Oriente Médio e na África, reduz a dependência bilateral da China.

O que as tarifas de Trump deixarão como legado para o comércio exterior brasileiro não é um ciclo de restrição e retaliação, mas a evidência de que a diversificação, quando necessária, acontece — e que o Brasil tem musculatura exportadora suficiente para encontrar novos clientes quando os antigos fecham as portas.

A questão que o país ainda precisa responder é se aproveitará esse momento para dar o salto qualitativo — exportar mais produtos com maior valor agregado, mais tecnologia, mais serviços — ou se permanecerá confortavelmente dependente das vantagens comparativas naturais que, por ora, continuam abundantes.

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