OLHO NO PETRÓLEO
Bruno Huberman fala sobre centralidade dos países do Golfo na economia energética global
Desde que EUA e Israel começaram a atacar o Irã, no dia 28 de fevereiro, Teerã tem retaliado alvejando bases militares estadunidenses e a infraestrutura de países vizinhos do Golfo Pérsico. Os ataques em resposta à agressão também atingiram infraestruturas petroleiras, aeroportos, navios e até um hotel de luxo de Dubai.
Ao BdF Entrevista, o professor de Relações Internacionais Bruno Huberman explica como essas alianças se desenvolveram muito atreladas ao interesse no petróleo abundante na região. “Inicialmente se descobriu que Iraque e Irã eram grandes produtores de petróleo, ainda no começo do século 20, mas depois toda essa região. Por isso que você vai ter [no Conselho] países grandes como Arábia Saudita combinados com menores como Emirados e Catar, porque eram todos protetorados britânicos”, explica Huberman, destacando que, em troca, esses países buscavam segurança e estabilidade econômica.
O ponto de virada ocorreu na década de 1970, com o choque do petróleo — no processo de Pan-Arabismo que seria sufocado anos mais tarde com o auxílio de Israel —, e o acordo com a Arábia Saudita para a criação do petrodólar, garantindo a dominância da moeda estadunidense como fiel da balança no mercado global.
“O Irã está fazendo uma movimentação muito clara em, por exemplo, aliviar e permitir que os navios tanques que estão comercializando não em petrodólar, mas em petroyuan, passem [pelo Estreito de Ormuz]. Ou seja, sinalizando essa transformação dessa hegemonia do dólar que, como o próprio Trump disse, se cai a hegemonia do dólar global, é como se os EUA perdessem uma guerra mundial, o que é completamente verdadeiro”, afirma.
Para Huberman, um rompimento total dos países do Golfo com Washington é bastante improvável, mas a crescente influência chinesa como mediadora diplomática e a entrada de nações árabes em blocos como o Brics sinalizam um declínio da influência estadunidense na região. “Os países do Golfo cresceram muito a sua autonomia nos últimos anos e o seu poder de barganha por por causa da sua centralidade na geoeconomia, na geopolítica internacional. Então, um rompimento não acredito de forma alguma que possa acontecer, mas o que pode vir a acontecer é uma maior aproximação com Rússia e China. Por exemplo, a Arábia Saudita nunca formalizou sua entrada no Brics e pode vir a formalizar para aumentar cada vez mais o poder de barganha na relação com os Estados Unidos e o Ocidente”, exemplifica.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.