“A GENTE FICA MENOS SOZINHO QUANDO INCLUI A SOLIDÃO NO ENCONTRO COM O OUTRO”, AFIRMOU A PSICANALISTA, ANA SUY QUE FALA DE AMOR E CONEXÃO NA ERA DIGITAL
afinsophia 27/02/2026 0
SAÚDE MENTAL E AMOR
Psicanalista Ana Suy reflete sobre desamparo, narcisismo, inteligência artificial e a importância de sustentar a falta como parte da vida
Estamos cada vez mais conectados e, ainda assim, nunca nos sentimos tão sós. Golpes do amor, terapias por chat GPT, relacionamentos mediados por algoritmos e uma sensação generalizada de desencontro marcam a experiência contemporânea. Para entender o que está por trás desse fenômeno, o BdF Entrevista entrevistou a psicanalista Ana Suy, autora do best-seller A gente mira no amor e acerta na solidão.
Ela explica que a solidão estrutural tem raízes profundas, uma vez que o bebê humano já nasce num estado de desamparo e não tem condições de atender suas próprias necessidades. “Depende absolutamente de um outro que cuide, que adivinhe, que supra. Essa experiência fica inscrita no corpo. A depender do que acontece na vida, esse estado de desamparo pode acordar, e podemos ser lançados numa solidão sem recursos para lidar com ela.”
A psicanalista introduz um recorte de gênero fundamental para entender a busca por relacionamentos. “De maneira geral, quando vamos falar do tema do amor e da solidão no mundo masculino, isso parece ser um problema menor do que no mundo feminino. As meninas estão acostumadas a ouvir que vão ficar sozinhas, que não serão queridas. Ainda está muito presente a ideia de que uma menina precisa ser escolhida por um homem.”
Narcisismo, algoritmos e a ilusão da terapia por IA
Ana Suy analisa o fenômeno das terapias e da busca por apoio emocional em inteligências artificiais. “O eu é uma paixão. Somos apaixonados pela nossa própria imagem. O narcisismo é uma necessidade humana. Vivemos numa era de imagens, de espelhos, de selfies. As redes sociais são essa vitrine narcísica.”
Ela explica como os algoritmos potencializam esse movimento. “Tenho a sensação de que todo mundo vê as mesmas coisas que eu. Isso torna a convivência com o outro cada vez mais insuportável, porque cria um viés de confirmação que enaltece nossa posição narcísica.”
Sobre as inteligências artificiais, Suy atribui a busca ao fato de entrar nesse lugar “gostosinho de contornar nosso narcisismo, de dizer que você está e o que pensa é certo”. E acrescenta: “Se você muda de ideia, ela diz ‘que bom que você mudou’. Não importa o que você faça, está ali babando ovo. Isso é muito diferente de uma experiência psicoterapêutica bem feita”.
A diferença fundamental, segundo Suy, é que o outro real nos modifica. “O encontro com um outro de fato, que vê o mundo com lentes que não são as minhas, tem chances de me alterar. E a gente precisa, para se modificar, perder a ideia que tinha de quem era. Se relacionar é continuamente elaborar o luto pela ideia que fazíamos de nós mesmos.”
O horror aos intervalos e a dificuldade de suportar a si mesmo
A psicanalista aponta um fenômeno típico da contemporaneidade: o horror aos intervalos. “A gente vai preencher todos os espaços, acabando com qualquer lugar vazio em nós, nas nossas agendas. Não pode aparecer nenhum furo. Mas é justamente o tempo que vai sendo necessário para construir e desconstruir relações, para encontrar novidades em nós mesmos, para tolerar diferenças.”
“Um dos trabalhos mais difíceis e mais importantes que temos na vida é suportar a gente mesmo. Se não conseguimos, atribuímos ao outro a exigência de que ele nos suporte, para que possamos nos suportar através dele”, reflete.
Ana Suy critica os manuais de autoajuda que propõem uma cronologia para o amor. “Dizem: primeiro você precisa ficar sozinho para depois encontrar alguém, primeiro você precisa se amar para depois estar numa relação. Racionalmente, até concordo. Mas na prática, isso não é uma cronologia. A ideia que fazemos de quem somos passa pela maneira como somos vistos pelo outro. Eu e o outro não somos instâncias tão separadas quanto gostaríamos.”
A psicanalista propõe uma ressignificação da falta. “A falta é justamente aquilo que precisamos para impulsionar, para sustentar a vida. Porque não basta estar vivo para viver. A gente precisa de um certo entusiasmo, de um certo desejo.”
Ela critica o ideal de plenitude vendido pela sociedade. “Vivemos num mundo em que tentamos cobrir esse desejo com coisas, com nomes prontos que possam caber para todos. A psicanálise traz uma notícia que pode ser vista como má, mas que acho ótima: cada um vai precisar se aprofundar em si mesmo, tornar-se especialista de si mesmo, para encontrar alguma alegria de viver, que será sempre incompleta”, pontua.
“Se a gente assume que somos sozinhos no mundo e que isso pode nos levar a encontrar outras pessoas, a gente vai menos tomado pelas exigências vorazes de que o outro seja, aconteça, faça. Paradoxalmente, a gente fica menos sozinho quando a gente inclui a nossa solidão no encontro com o outro, e inclui a solidão do outro também no encontro com a gente mesmo”, destaca.
Para ela, essa perspectiva traz leveza. “Se relacionar é a gente descobrir continuamente que o outro não é nosso semelhante tanto quanto gostaríamos. Às vezes isso é muito bom, às vezes é péssimo, às vezes é insuportável. Mas se a gente atribui ao outro a tarefa de a gente se suportar, aí fica insuportável mesmo.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.