“A GENTE FICA MENOS SOZINHO QUANDO INCLUI A SOLIDÃO NO ENCONTRO COM O OUTRO”, AFIRMOU A PSICANALISTA, ANA SUY QUE FALA DE AMOR E CONEXÃO NA ERA DIGITAL

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SAÚDE MENTAL E AMOR

Psicanalista Ana Suy reflete sobre desamparo, narcisismo, inteligência artificial e a importância de sustentar a falta como parte da vida

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‘O outro nos modifica, e isso é trabalhoso e pode ser dolorido’, declara a psicanalista | Crédito: Arquivo pessoal / Ana Suy

Estamos cada vez mais conectados e, ainda assim, nunca nos sentimos tão sós. Golpes do amor, terapias por chat GPT, relacionamentos mediados por algoritmos e uma sensação generalizada de desencontro marcam a experiência contemporânea. Para entender o que está por trás desse fenômeno, o BdF Entrevista entrevistou a psicanalista Ana Suy, autora do best-seller A gente mira no amor e acerta na solidão.

Ela explica que a solidão estrutural tem raízes profundas, uma vez que o bebê humano já nasce num estado de desamparo e não tem condições de atender suas próprias necessidades. “Depende absolutamente de um outro que cuide, que adivinhe, que supra. Essa experiência fica inscrita no corpo. A depender do que acontece na vida, esse estado de desamparo pode acordar, e podemos ser lançados numa solidão sem recursos para lidar com ela.”

A psicanalista introduz um recorte de gênero fundamental para entender a busca por relacionamentos. “De maneira geral, quando vamos falar do tema do amor e da solidão no mundo masculino, isso parece ser um problema menor do que no mundo feminino. As meninas estão acostumadas a ouvir que vão ficar sozinhas, que não serão queridas. Ainda está muito presente a ideia de que uma menina precisa ser escolhida por um homem.”

Essa marca, segundo Ana, explica por que tantas mulheres caem em ciladas como o “golpe do amor”. “Não é difícil cair nesse discurso de que ‘agora fui vista’. São discursos por vezes tão sedutores. Quando você está sendo seduzida, engambelada, só fica óbvio depois. Durante, essas pessoas podem ser altamente sedutoras, e isso bagunça a cabeça, especialmente das mulheres.”

Narcisismo, algoritmos e a ilusão da terapia por IA

Ana Suy analisa o fenômeno das terapias e da busca por apoio emocional em inteligências artificiais. “O eu é uma paixão. Somos apaixonados pela nossa própria imagem. O narcisismo é uma necessidade humana. Vivemos numa era de imagens, de espelhos, de selfies. As redes sociais são essa vitrine narcísica.”

Ela explica como os algoritmos potencializam esse movimento. “Tenho a sensação de que todo mundo vê as mesmas coisas que eu. Isso torna a convivência com o outro cada vez mais insuportável, porque cria um viés de confirmação que enaltece nossa posição narcísica.”

Sobre as inteligências artificiais, Suy atribui a busca ao fato de entrar nesse lugar “gostosinho de contornar nosso narcisismo, de dizer que você está e o que pensa é certo”. E acrescenta: “Se você muda de ideia, ela diz ‘que bom que você mudou’. Não importa o que você faça, está ali babando ovo. Isso é muito diferente de uma experiência psicoterapêutica bem feita”.

A diferença fundamental, segundo Suy, é que o outro real nos modifica. “O encontro com um outro de fato, que vê o mundo com lentes que não são as minhas, tem chances de me alterar. E a gente precisa, para se modificar, perder a ideia que tinha de quem era. Se relacionar é continuamente elaborar o luto pela ideia que fazíamos de nós mesmos.”

O horror aos intervalos e a dificuldade de suportar a si mesmo

A psicanalista aponta um fenômeno típico da contemporaneidade: o horror aos intervalos. “A gente vai preencher todos os espaços, acabando com qualquer lugar vazio em nós, nas nossas agendas. Não pode aparecer nenhum furo. Mas é justamente o tempo que vai sendo necessário para construir e desconstruir relações, para encontrar novidades em nós mesmos, para tolerar diferenças.”

“Um dos trabalhos mais difíceis e mais importantes que temos na vida é suportar a gente mesmo. Se não conseguimos, atribuímos ao outro a exigência de que ele nos suporte, para que possamos nos suportar através dele”, reflete.

Ana Suy critica os manuais de autoajuda que propõem uma cronologia para o amor. “Dizem: primeiro você precisa ficar sozinho para depois encontrar alguém, primeiro você precisa se amar para depois estar numa relação. Racionalmente, até concordo. Mas na prática, isso não é uma cronologia. A ideia que fazemos de quem somos passa pela maneira como somos vistos pelo outro. Eu e o outro não somos instâncias tão separadas quanto gostaríamos.”

A psicanalista propõe uma ressignificação da falta. “A falta é justamente aquilo que precisamos para impulsionar, para sustentar a vida. Porque não basta estar vivo para viver. A gente precisa de um certo entusiasmo, de um certo desejo.”

Ela critica o ideal de plenitude vendido pela sociedade. “Vivemos num mundo em que tentamos cobrir esse desejo com coisas, com nomes prontos que possam caber para todos. A psicanálise traz uma notícia que pode ser vista como má, mas que acho ótima: cada um vai precisar se aprofundar em si mesmo, tornar-se especialista de si mesmo, para encontrar alguma alegria de viver, que será sempre incompleta”, pontua.

“Se a gente assume que somos sozinhos no mundo e que isso pode nos levar a encontrar outras pessoas, a gente vai menos tomado pelas exigências vorazes de que o outro seja, aconteça, faça. Paradoxalmente, a gente fica menos sozinho quando a gente inclui a nossa solidão no encontro com o outro, e inclui a solidão do outro também no encontro com a gente mesmo”, destaca.

Para ela, essa perspectiva traz leveza. “Se relacionar é a gente descobrir continuamente que o outro não é nosso semelhante tanto quanto gostaríamos. Às vezes isso é muito bom, às vezes é péssimo, às vezes é insuportável. Mas se a gente atribui ao outro a tarefa de a gente se suportar, aí fica insuportável mesmo.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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