“O SOM DO MUNDO É MUSICAL”: JOÃO PARAHYBA REFLETE SOBRE A ESCUTA PARA ALÉM DOS PALCOS

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MEMÓRIA MUSICAL

Com seis décadas de carreira, o percussionista lança o primeiro álbum solo celebrando a identidade na música brasileira

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Cofundador do Trio Mocotó, João Parahyba revisita seis décadas de trajetória e reafirma a música como linguagem viva no Sabe Som?| Crédito: Divulgação

Com uma trajetória que atravessa a música popular brasileira, o jazz, os terreiros, e as salas de aula, o percussionista e cofundador do Trio Mocotó, João Parahyba, propõe uma escuta que não se limita ao palco nem ao mercado, mas ao mundo. “Eu tô no meio de um pasto ouvindo o grilo, ouvindo a água, ouvindo o vento. Tudo isso é música. O motor do ônibus é música, a buzina é música, o alarme é música. O mundo, entendeu? O som no mundo é musical. O problema é que as pessoas não têm tempo de parar para ouvir”, conta.

No episódio 97 do podcast Sabe Som?, apresentado por Thiago França, o percussionista conduz a conversa por um território em que música, memória e política se cruzam o tempo todo. Parahyba recorre à ideia de que a música é também um registro histórico, uma espécie de retrato sensível de cada época.

“Eu comecei ouvindo música cubana, boleros e música caipira. Aí você começa a ver uma fotografia do tempo. Você vê que tudo gira, tudo é um círculo. Tudo se esquece do salsa, do bolero, das orquestras… Um dia volta. Nada some para sempre. Tem ciclos de época”, afirma o percussionista ao falar sobre sua formação musical.

Para ele, a lógica do que está “em alta”, que elege estilos e descarta outros, não dá conta da complexidade da música como experiência cultural. O que hoje parece ultrapassado retorna, transformado, justamente porque carrega memória, afeto e identidade. Essa escuta ampliada aparece também quando ele fala sobre ritmo e espiritualidade, evocando a figura do ogã como metáfora de criação musical.

“Existe uma relação que eu diria assim: um ogã moderno. Já quiseram fazer minha cabeça, eu não deixei, eu falei assim: ‘Não, eu sou aqui, eu sou o transmissor’. Ele não recebe santo, ele faz a ponte. Ele cria a ligação rítmica para chamar”, explica.

Miscelânea musical

Segundo ele, a partir daí, a música deixa de ser apenas composição ou técnica e passa a ser relação com o ambiente, com o corpo e com o cotidiano. Nesse sentido, João define a música como território de encontro e também de resistência: “A minha música é mistura. Mistura de raça, mistura de gênero, mistura de religião. Eu sou um poço de imigrantes musicais. Isso é o Brasil.”

Essa ideia de mistura aparece como contraponto direto às disputas políticas e sociais que atravessam o país. “Toda essa briga contra o MST, contra imigrantes, não deveria existir. Na música isso não existe. Porque a harmonia é isso: é diferença convivendo.”

A crítica se estende também ao modelo de formação musical importado, especialmente à experiência que viveu em uma das mais prestigiadas escolas do mundo, a Berklee College of Music, nos Estados Unidos. “Você faz quatro anos e sai músico básico. Você não sai de lá artista. Você sai com um manual de como se faz. Isso me decepcionou muito.”

Para o músico, o problema não é o domínio técnico, mas a padronização da sensibilidade, pois segundo ele o curso “é uma grande escola de arroz e feijão”, que você aprende a tocar em qualquer situação, mas não aprende a ser quem você é.

Ao inverter a lógica em que a indústria musical coloca a produção estrangeira como referência absoluta, ele afirma que “a nossa grama é mais verde que a deles”, não como slogan nacionalista, mas como defesa de um conhecimento que nasce da mistura, do território e da experiência coletiva.

Ele, que lançou recentemente primeiro trabalho solo em 14 anos, explica que o disco é também uma celebração dessa trajetória e de sua visão musical. O álbum Mangundi reúne samba, jazz, baião, polirritmias afro-brasileiras e arranjos que refletem sua convivência com diversas tradições e estilos musicais. A obra foi pensada como um manifesto da música instrumental brasileira e universal, e vida valorizar o encontro entre pessoas e referências diversas.

João Parahyba também é considerado um legado vivo do samba-rock, um artista que experimentou desde eletrônica a ritmos ancestrais, colaborou com nomes como Jorge Ben (que o apelidou de “Comanche”), Gal Costa, Gilberto Gil, Ivan Lins e Dizzy Gillespie. 

O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 10h da manhã, e está disponível nas principais plataformas de podcast como Spotify e YouTube Music.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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