À época do anúncio dos cortes, entidades do setor classificaram o cenário como de “terra arrasada”. Embora o Brasil não esteja entre os principais destinos históricos dos recursos da USAID, o impacto também foi sentido no país. Dos US$ 56 milhões previstos para 2024, apenas US$ 30 milhões foram efetivamente repassados. Parte desse montante financiaria operações de agências como a Organização Internacional para as Migrações (OIM), que posteriormente anunciou um déficit de cerca de US$ 5 milhões apenas em suas atividades no território brasileiro.
Historicamente, os Estados Unidos ocuparam papel central na arquitetura da assistência internacional desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A ajuda externa norte-americana funcionou não apenas como resposta humanitária, mas também como instrumento de influência diplomática e estabilização geopolítica. Estruturas como a USAID e o Escritório de Assistência Humanitária (BHA) garantiram previsibilidade financeira a organismos como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a própria OIM.
Com a retração americana, especialistas apontam que, em tese, haveria espaço para outros países ocuparem esse vácuo. No entanto, isso não se concretizou na prática. A China ampliou sua presença internacional, mas ainda enfrenta críticas relacionadas à transparência de seus financiamentos. Ao mesmo tempo, países tradicionalmente relevantes na cooperação internacional, como Japão, Noruega, Alemanha e Reino Unido, mantiveram ou reduziram suas contribuições, agravando a escassez global de recursos.
Brasil sente efeitos da crise
Entre 2024 e 2025, o Brasil tornou-se um exemplo concreto dos efeitos dessa retração internacional. Programas de acolhimento e assistência a migrantes e refugiados passaram a enfrentar dificuldades operacionais diante da redução abrupta de recursos externos.
A Operação Acolhida, resposta do governo federal ao fluxo migratório de venezuelanos em Roraima, é frequentemente citada como modelo de cooperação civil-militar. No entanto, sua estrutura financeira sempre dependeu fortemente de organismos internacionais, especialmente OIM e ACNUR, tradicionalmente financiados pelos Estados Unidos. Com o recuo da USAID, esse modelo mostrou fragilidades, sobretudo nas áreas de gestão de abrigos, proteção legal e interiorização de migrantes.
Diante da escassez de recursos públicos e internacionais, algumas organizações passaram a buscar alternativas no setor privado. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu durante as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Sem financiamento suficiente, a OIM recorreu a parcerias inéditas no Brasil.
A solução encontrada foi a construção de Centros Humanitários de Acolhimento financiados majoritariamente pelo Sistema Fecomércio-RS. O aporte, de quase US$ 11 milhões, tornou-se o maior financiamento privado já recebido pela OIM no país.
Especialistas apontam que esse modelo representa uma tendência crescente de “privatização da ajuda humanitária”, na qual empresas e entidades privadas passam a financiar diretamente ações que antes eram sustentadas por Estados e organismos multilaterais. Embora permita respostas rápidas em situações emergenciais, o formato levanta questionamentos sobre a dependência da assistência humanitária em relação aos interesses e à capacidade financeira do setor privado.
Durante as enchentes, iniciativas privadas, como a atuação da empresa Starlink, ligada ao empresário Elon Musk, também ganharam destaque e geraram debates públicos. Para analistas, esses episódios ilustram como a ajuda privada tende a se concentrar em crises agudas, altamente visíveis e com impacto direto sobre regiões economicamente relevantes.
Crises prolongadas ou menos visíveis, como a recepção contínua de refugiados em Roraima, dificilmente mobilizam recursos privados na mesma escala. Com isso, cresce a preocupação de que a desigualdade na distribuição de atenção e financiamento aprofunde a vulnerabilidade de populações já em situação crítica.
*Com informações do The Conversation Brasil.