SOLIDARIEDADE E RECONSTRUÇÃO: MST CHEGA A 100 CASAS RECUPERADAS APÓS TORNADO NO PARANÁ
afinsophia 29/11/2025 0
Com base em seus princípios, movimento mobiliza mais de 300 militantes na recuperação de áreas devastadas
- RECIFE (PE)
- DANIEL LAMIR E EDNUBIA GHISI
Em menos de um mês após o tornado que atingiu o Paraná, a Brigada de Solidariedade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) alcançou, na quinta-feira (27), a marca de 100 casas reconstruídas, cobertas ou reformadas em Rio Bonito do Iguaçu. O município foi o mais afetado pelo fenômeno natural extremo registrado em 7 de novembro, que destruiu 90% das edificações, deixou seis mortos, 835 feridos, 1.060 desalojados e dezenas de desabrigados.
A 100ª restauração entregue foi em um espaço religioso, reinaugurado com oração. Mas o trabalho do MST começou ainda na noite da tragédia (7), quando militantes organizaram uma cozinha solidária em parceria com a prefeitura. Dois dias depois, em 9 de novembro, iniciaram-se os mutirões de limpeza e cobertura de casas em áreas da reforma agrária.
Mais de 400 famílias acampadas e assentadas tiveram prejuízos em casas, estruturas coletivas e áreas produtivas. O assentamento Nova Geração, em Guarapuava, registrou dezenas de desalojados e uma morte. Desde então, mais de 300 militantes de várias regiões do Paraná e de outros estados se revezam semanalmente na reconstrução. Os quatro primeiros dias foram dedicados às comunidades do próprio movimento; depois, parte das equipes passou também a atuar na zona urbana. A previsão é de seguir com os trabalhos até 20 de dezembro, quando haverá uma celebração de Natal com o município.

Solidariedade permanente e mútua
Para Bruna Zimpel, moradora do acampamento Terra Livre, em Clevelândia, e integrante da Direção Nacional do MST, a atuação intensa no Paraná expressa a própria identidade do movimento. Segundo ela, “o MST, desde a sua origem, foi pensado a partir de três objetivos: lutar pela terra, pela reforma agrária e pela transformação social”. Esses objetivos, afirma, só se sustentam porque o movimento se organiza a partir de princípios – entre eles a solidariedade.
“A solidariedade é um dos nossos princípios centrais, porque toda nossa luta é construída coletivamente, com a participação de todas as famílias”, afirma Bruna. Para ela, o que se vê hoje em Rio Bonito do Iguaçu não é algo excepcional, mas parte de uma prática histórica: “A solidariedade é permanente. Ela é vivenciada no cotidiano dos nossos territórios, nos acampamentos e assentamentos”, conta.
A dirigente destaca que o MST também já recebeu solidariedade de diferentes setores da sociedade brasileira e internacional, especialmente em momentos de perseguição política. Por isso, diz, o movimento mantém uma relação de reciprocidade com a classe trabalhadora: “Entendemos que a classe trabalhadora do mundo é uma só. Então, quando se faz necessário exercer a solidariedade de maneira firme e consistente, assim se faz”, afirma.
Histórias de reconstrução no Paraná
Na linha de frente da coordenação da equipe de Infraestrutura, Joabe Mendes de Oliveira, do acampamento Padre Roque Zimmermann, em Castro, relata que a atuação vai além do trabalho braçal: “A gente tem que chegar, conversar com a família, acolher, chorar junto. Ao mesmo tempo, é muito gratificante poder ajudar e reconstruir Rio Bonito”, relata o militante que está há semanas longe de casa.
Entre a população que recebeu apoio está Luciane de Fátima Moreira, que sobreviveu com o filho pequeno no único quarto que permaneceu inteiro. “O tornado destruiu tudo em segundos. Não tinha onde se esconder”, relembra. A brigada auxiliou na cobertura da casa e na limpeza do terreno. “A gente não tem palavras pra agradecer, o conforto que vocês [do movimento] estão dando. Já imaginaram se a gente não tivesse essa ajuda?”, conta a sobrevivente que vive em Rio Bonito do Iguaçu há 10 anos.
O acampado Celson Marins, do Pepe Mujica, em Reserva, chegou com cerca de 40 pessoas para apoiar a reconstrução de telhados. “Para mim é uma experiência que não tem o que falar, não tem palavras, porque ajudar o próximo é muito bom. E aqui aprendemos a dar valor à natureza, à vida e valor em tudo. A cidade que caiu toda, ficou tudo no chão, não escolheu classe, nem cor, nem posição. Então precisamos aprender a valorizar a vida, valorizar a natureza”, considera o camponês.
Um relato comum na região é que muitas pessoas atingidas, por ainda estarem em choque pela destruição das moradias, por ferimentos ou perda de parentes, não conseguem fazer a limpeza dos terrenos para retirada de entulhos. A militante Jucilene, do acampamento Valdair Roque, integrou a primeira equipe de limpeza de ruas e terrenos. “Só quem está aqui vê o tamanho da destruição”, afirma.

Reconhecimento institucional
A participação do voluntariado do movimento tem sido decisiva, segundo o capitão Julian Waldrigues, da Defesa Civil, responsável pela operação desde o início. Ele define a atuação do MST como “peça essencial” para remover detritos, reorganizar áreas e permitir o avanço das reformas. A expectativa é de que a reconstrução completa dure cerca de seis meses, com a necessidade de manter a articulação entre prefeitura, governo estadual e órgãos federais.
O prefeito de Rio Bonito do Iguaçu, Sezar Bovino, agradeceu publicamente os coletivos e movimentos que atuam na cidade. Ele mostrou, na sede da prefeitura, uma imagem aérea da cidade antes da catástrofe e afirmou que, em breve, outro quadro mostrará a cidade “mais bonita e planejada, reconstruída com as mãos de tantos voluntários”.
O processo de reconstrução conta com apoio do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA), que já realizou mais de 1.400 laudos na área urbana. Nas comunidades rurais, os laudos foram produzidos pela equipe técnica do projeto Semeando Gestão, ligado à Cooperativa Central da Reforma Agrária em parceria com a Itaipu, ao CREA e ao Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR). Mais de 400 laudos rurais já foram concluídos.

Rede de apoio
Além da reconstrução física, o MST mantém uma ampla rede de apoio social. No assentamento 8 de Junho funciona uma cozinha solidária, organizada com o Coletivo Marmitas da Terra. Nos primeiros dias, foram produzidas cerca de 2.500 marmitas diárias; hoje são aproximadamente 600, reflexo da recuperação gradual das famílias.
No Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Dona Laura, a brigada ajudou na limpeza, reorganização e pequenos reparos. As atividades foram retomadas em 18 de novembro, com educadoras sem terra apoiando práticas pedagógicas e cuidado diário das crianças.
O Setor de Saúde do MST também atua no Espaço de Saúde Popular Luiza Aparecida, montado no centro comunitário da associação 8 de Junho, atendendo militantes e moradores.
Bruna Zimpel, da Direção Nacional do MST no Paraná, reforça a importância do apoio contínuo: “É necessário seguir o mês de dezembro com ações massivas, organizadas e cooperadas na reconstrução de Rio Bonito”.
Como apoiar
Para garantir os revezamentos das equipes, o MST mantém uma campanha permanente de arrecadação para transporte e combustível.
Doações podem ser feitas para:
Associação Marmitas da Terra
CNPJ: 55.025.405/0001-76
Banco Crehnor Laranjeiras (350)
Agência: 3001
Conta Corrente: 33506-1
Pix: marmitadesaude@gmail.com
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