FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: FILOSOFIA E DIALÉTICA DO MAL: OU DO ANTIEVANGELHO DA EXTREMA DIREITA

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FILOSOFIA E DIALÉTICA DO MAL: OU DO ANTIEVANGELHO DA EXTREMA DIREITA

José Alcimar de Oliveira*

 

 

A indignação é um começo. Uma maneira de se levantar e de entrar em ação. É preciso indignar-se, insurgir-se e só depois ver do que dá. É preciso indignar-se apaixonadamente, antes mesmo de descobrir as razões dessa paixão (Daniel Bensaïd).

             

01. A extrema direita, vassala e aliada ao Império, está em guerra contra o Brasil. Essa guerra de muitas frentes recorre a várias formas de fraudar o real e de produzir, por meio da dissonância cognitiva, mundos paralelos em que se refugiam os inimigos do pensamento, muitos travestidos do não menos dissonante patriotismo por país estranho. Figuras tristes que habitam as cavernas da ignorância, onde vivem aprisionados, muitos, inclusive, de forma voluntária. Essa gente mitificada, oriunda de todas as classes sociais, configura bem o lumpesinato, conceito de que Marx se utiliza para identificar “o lixo de todas as classes”, que no Brasil encontrou sua acabada forma política e religiosa na extrema direita.

             

 

02. No Brasil e fora de suas fronteiras, parece que o mundo (do ser natural e do ser social) entrou em estado de ebulição. Colapso ambiental e barbárie social, sob as forças da mão invisível (sempre suja de sangue) do capital sem controle, que a tudo controla, e se fez religião universal e última da humanidade. Hegel, em seu otimismo no poder da razão, imaginava que esse reinado definitivo encontraria no cristianismo sua forma suprema. Mas outro foi o devir da história, e hoje, nesse primeiro quarto do século XXI, é o sistema do capital e não o cristianismo, como prefigurava Hegel, o verdadeiro palco teleológico da razão religiosa. Do local ao global, com ou sem dinheiro, somos todos fiéis monetários dessa religião venal.  

             

 

03. Sob a força venal da revelação do Novíssimo Testamento, cuja formatação canônica foi estabelecida pelo ultraneoliberalismoeconômico, borrou-se a fronteira entre religião e capitalismo.  É o reverso da tese spinozista do Deus sive Natura. Se para o autor da Ética demonstrada de forma geométrica dizer Deus implica dizer Natureza, para a gramática do Novíssimo Testamento, quem afirma o Capital afirma igualmente a Religião. O rito monetário é universal. A todos unifica no mesmo culto, pouco importam os templos e seu estilo arquitetônico.

             

 

04. Rompeu-se a dicotomia (falsa dicotomia) não prevista pelo racionalismo cartesiano. Em texto inacabado, Walter Benjamin já discernira a equivalência entre capitalismo e religião. O mundo vive sob A Nova Ordem do Novíssimo Testamento Ultraneoliberal, que logrou de forma prática promover entre todas as religiões a integração que o Concilio Vaticano II (1962-1965) havia projetado (mas destinada ao fracasso) apenas entre as denominações cristãs, haja vista o Decreto “Unitatis Redintegratiosobre o ecumenismo. O que o Capital une nem Deus pode dividir. Somos todos universalmente incluídos na mesma confissão religiosa. O que muda é a forma de inclusão e de usufruto das promessas. Aos ricos, o direito ao paraíso na terra. Aos pobres, resta a promessa da vida após a morte, porque vida já não têm antes da morte.  

             

 

05. A imaginária batalha (ou guerra) espiritual, arma utilizada pela extrema direita para desviar a classe trabalhadora do foco dos dilaceramentos reais, não pode prescindir de ancoragem material, porque para o senso comum o mal precisa e deve ser personificado. E antes que me acusem de aporofobia (aversão aos pobres) afirmo que o senso comum atravessa todas as classes sociais, inclusive de gente com título de pós-doutorado. Vem da cristandade medieval a base ideológica para essa materialização do mal, ao iconografar de forma tremenda e luminosa imagens de satanás, do tridente, do fogo do inferno, das bruxas, que até hoje aterrorizam corações e mentes. A pedagogia do medo e da ignorância sempre foi exitosa. Num universo em que a maioria da população era analfabeta seria inútil falar do mal com especulações metafísicas ou teológicas.

           

 

  06. Como explicar em lições didáticas ou por imagens o argumento ontológico de Santo Anselmo ou as cinco vias de Aquino(referenciadas no princípio aristotélico da causalidade) para provar a existência de Deus num mundo da mais degradada desigualdade social como era o mundo dos pobres da cristandade medieval?  Para o senso comum ou mundo da opinião (doxa, para os gregos) o mal tem que ser palpável, tocável. Mesmo com uma formação teológica rasa a extrema direitabrasileira sabe disse. Por isso, o mal deve adquirirplasticidade, seja na figura de Lula, de Alexandre de Morais, dos ministros do STF, ou de qualquer agente opositora ou opositor ao seu projeto político de poder.

             

 

07. Para um povo, como o brasileiro, em grande parte privado do direito à educação e, por isso, intocado pelas mediações da razão iluministaque contraditoriamente também serve da base para a instrumentação ideológica (ver, por exemplo, O iluminismo como mistificação das massas, de Adorno) –, em que os conceitos que regem a vida social têm profunda base religiosa, nada mais funcional ao processo de manipulação cognitiva operado pela extrema direita do que o recurso ao misticismo e aos mistérios não tão misteriosos do complexo universo da religião. Como seriam necessários, nesses tempos de retração cognitiva e deliberada política da ignorância, recuperar os Círculos de Cultura do Brasil dos anos 1960, ao tempo do projeto de alfabetização política criado por nosso maior educador, Paulo Freire.

 

  • José Alcimar éProfessor de Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, agosto de 2025.

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