ANTÔNIO NÓBREGA FALA SOBRE TIA CIATA E REINVENÇÃO DA TRADIÇÃO MUSICAL BRASILEIRA
Artista explicou inspiração de espetáculo estreado em São Paulo em entrevista ao podcast Conversa Bem Viver
No espetáculo, estreado no fim de março, Nóbrega traz uma mistura de canções autorais e de compositores consagrados – Divulgação|Sesc-SP
“Eu já acompanhava um pouco o que se escreve sobre a Tia Ciata e foi publicado um livro muito bom de Roberto Moura, chamado Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro“, contou Nóbrega. Segundo ele, a obra de 2022 o ajudou a aprofundar sua reflexão sobre a importância da personagem, somando-se ao fato de que o ano de 2024 marcou os 170 anos de nascimento e os 70 de falecimento de Tia Ciata. “Tentei apresentar esse espetáculo no ano passado, mas não foi possível, então a gente fez no começo deste ano”, explicou.
No espetáculo, estreado no fim de março, Nóbrega traz uma mistura de canções autorais e de compositores consagrados, como Jacob do Bandolim e Lourival Oliveira, para refletir sobre como a tradição musical se renova ao longo do tempo.
Tia Ciata se tornou um símbolo da cultura afro-brasileira, reunindo em sua casa nomes como Pixinguinha, Donga e João da Baiana. “Ela fazia rodas de batuque, rodas de partido alto, que correspondiam à poesia improvisada realizada no Rio de Janeiro. Tinha esse papel centralizador, aglutinador e provocador da cultura. E certamente fazia isso de modo inconsciente, movida pelo interesse, pelo gosto, pelo prazer”, afirmou Nóbrega. “Esse acontecimento, para mim, tem um significado simbólico muito rico”, disse.
O artista ressalta que seu espetáculo não tem um caráter histórico. “Eu não ‘historizo’ o que aconteceu na casa de Tia Ciata; eu apresento no meu trabalho quais são os ecos indiretos que considero dessas reuniões”, explicou. Para ele, esses “ecos” estão na forma como o samba e outras manifestações populares foram reinventadas ao longo do tempo, mantendo suas raízes vivas na identidade musical do Brasil.
Segundo Nóbrega, o samba passou por diversas transformações. “O samba hoje corresponde a uma canção dentro da qual é tratado um tema – um tema de amor, social, paródico, engraçado –, normalmente uma estrofe e um refrão; às vezes, sem refrão, só a contação daquela história. Nos primórdios, não era: samba era uma toada, cantiga, versos tirados de improviso. As primeiras escolas de samba desfilavam por meio desse tipo de cantarolagem”, explicou. “Foi o pessoal do Estácio de Sá realmente quem trouxe a musculatura, o ritmo com o qual a gente canta hoje o samba.”
De acordo com ele, parte importante dessa reinvenção aconteceu na casa de Tia Ciata. “Em Pernambuco, na região da Zona da Mata, há uma manifestação chamada Maracatu Rural. No dia do Maracatu Rural, que é uma manifestação sobretudo de poesia, os mestres de dois grupos se encontram para realizar um torneio, um improviso de poesia, que eles chamam de Sambada de Maracatu. Em Sergipe, o batuque é chamado de Samba de Parelha. Então, quando a palavra samba chega no no Rio de Janeiro, através da Tia Ciata, dona Hilária Batista de Almeida, ele chega com essa conotação. E é no Rio que a palavra, que o gênero samba vai se fundar.”
Ao falar sobre seu próprio trabalho, Nóbrega enfatizou a influência dos ritmos populares em suas composições. “Tenho como referência ritmos como o de perré de Caboclinho, que ainda não foi absorvido pelos cancionistas no geral, nem em Pernambuco”, afirmou. “Da mesma forma que nas reuniões da Tia Ciata havia aquele mundo referenciador para a criação de canções, eu também tenho essa ligação com matrizes populares, referenciando o meu trabalho.”
Com Tributo a Ciata, Nóbrega busca trazer à tona a força da tradição popular e suas reverberações no presente. “Esses são os ecos indiretos, são os ecos que vêm a partir de um tipo de procedimento, de visão”, concluiu.
Diversidade unifica cultura brasileira
Durante a entrevista, Antônio Nóbrega aprofundou sua visão sobre a cultura popular brasileira, que ele define como uma “corrente cultural” autóctone, formada pelo encontro de matrizes indígenas, africanas e das camadas populares portuguesas. Para ele, essa “cultura mestiça” se expandiu por todo o Brasil, criando uma unidade dentro da diversidade. “Os ciclos econômicos ajudaram nisso: quando Portugal invade o Brasil, coloca as classes mais populares do meio rural com negros e indígenas para trabalhar. No momento em que a cana de açúcar se exauria, por exemplo, os escravizados eram mudados para as minas e levavam consigo não somente o seu corpo, mas a memória de uma cultura que se formava”, explica Nóbrega.
Ele exemplifica essa unidade formada a partir da junção desses elementos distintos mencionando manifestações como o Carimbó, o Tambor de Crioula e o Batuque Paulista, que, apesar das diferenças regionais, compartilham estruturas rítmicas e poéticas semelhantes, como o uso da quadrinha ibérica. “É de uma riqueza e importância cultural para o Brasil muito grande porque podemos trabalhar com formas que podem ser entendidas e recodificadas em todo o Brasil. Tem um mundo de partida comum”, observa.
Cultura e política na resistência indígena
O artista também comentou o debate em torno do marco temporal para a demarcação de terras indígenas, e defendeu que essa questão já deveria estar resolvida há muito tempo. “Essa demarcação está atrasadíssima”, critica. Ele reafirma sua visão de uma cultura popular mestiça, formada ao longo dos primeiros 350 anos do Brasil, e questiona abordagens que buscam separar os componentes dessa mistura. “Eu não sei se existe propriamente uma cultura negra ou preta no Brasil. Eu reconheço mais uma cultura mestiça brasileira, dentro da qual está a cultura cultura negra, a cultura indígena”, defende.
Para ele, a arte pode atuar na defesa dos povos indígenas ao aprofundar o conhecimento sobre essas tradições e expandir a consciência sobre suas raízes. “Minha música Chegança tem um ritmo muito parecido com o dos caboclinhos pernambucanos, e a estrutura poética remete à embolada. São referências que mostram o quanto nossa cultura é interligada”, exemplifica.
A experiência no Quinteto Armorial
Nóbrega relembrou a sua trajetória no Quinteto Armorial, grupo criado por Ariano Suassuna em 1971 para promover uma música de concerto inspirada nas tradições populares. O convite para integrar o grupo levou o artista a um mergulho profundo na cultura popular nordestina, visitando manifestações tradicionais não apenas como pesquisador, mas como aprendiz. “Eu me coloquei como um livre ‘aprendedor’ desse universo, então não poderia deixar repercuti-lo na minha na minha arte”, conta.
Esse processo de imersão influenciou diretamente sua trajetória artística, dando-lhe um repertório cultural que ele incorporou em seus espetáculos ao longo dos anos. “Esse universo de cantos, de danças que veio fazer com que eu tivesse dentro de mim um substrato cultural por meio do do qual eu fui criando os meus espetáculos até hoje”, reflete.