CINCO ANOS DA PANDEMIA: BOLSONARO IGNOROU E DEBOCHOU, ENQUANTO O MUNDO FECHAVA FRONTEIRAS

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Em março de 2020, a OMS declarou uma pandemia de Covid-19, mas enquanto os países tomavam medidas rigorosas, o Brasil seguia pelo negacionismo

Bolsonaro e enterro durante a pandemia da COVID-19 (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino | REUTERS/Bruno Kelly)
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247 – Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente a pandemia da Covid-19. No mesmo dia, enquanto a Europa já tomava medidas drásticas para conter o avanço do coronavírus, no Brasil, o estádio do Maracanã recebeu cerca de 60 mil torcedores para assistir a uma partida da Libertadores. A diferença de posturas entre os países evidenciou os diferentes estágios do vírus no mundo e as estratégias políticas adotadas para enfrentá-lo.

As informações originais foram publicadas pela Folha de S. Paulo e ajudam a reconstruir os primeiros momentos da pandemia no Brasil. Na época, o país contabilizava apenas 69 casos confirmados e a primeira morte ocorreria no dia seguinte, em São Paulo. Enquanto isso, a Itália já vive uma crise sanitária sem precedentes, com hospitais sobrecarregados e um número crescente de óbitos.

A resposta do governo brasileiro foi marcada pela retórica negacionista do então presidente Jair Bolsonaro (PL), que minimizou a gravidade da doença desde os primeiros momentos. “Rapidamente foi sugerido que a postura brasileira seria o negacionismo”, afirmou Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP. No dia 9 de março, Bolsonaro discursou em um evento esvaziado em Miami, nos Estados Unidos, alegando que o coronavírus estava sendo superdimensionado pela mídia.

Apesar das declarações presidenciais, algumas medidas iniciais sugeriam uma preocupação com o avanço da doença, como a repatriação de brasileiros que estavam em Wuhan, epicentro do surto na China, e a declaração de emergência sanitária feita pelo então ministro da Saúde, Henrique Mandetta, em fevereiro. No entanto, decisões contraditórias marcaram os primeiros momentos da crise. No dia 12 de março, Bolsonaro apareceu de máscara em transmissão semanal ao vivo, recomendando cautela. Poucos dias depois, no entanto, delegou a resposta cooperativa à pandemia à Casa Civil, esvaziando a autoridade do Ministério da Saúde.

Nos Estados Unidos, Donald Trump também minimizou a gravidade do vírus e reduziu recursos para a OMS, prejudicando os esforços globais de combate à pandemia. Na Itália, imagens dramáticas revelaram o impacto devastador da doença, como o caso de uma mulher que ficou dias em casa com o corpo do marido falecido, aguardando o serviço funerário sobrecarregado.

Em 24 de março, Bolsonaro intensificou sua retórica ao chamar a Covid-19 de “gripezinha”, termo que se tornaria emblemático de sua gestão durante uma crise sanitária. Embora tenha negado posteriormente o uso da expressão, há registros em vídeo que comprovam a declaração. O posicionamento do governo brasileiro contribuiu para um atraso significativo na resposta à pandemia, com reflexos diretos no número de mortes. Em 2020, quase 195 mil brasileiros perderam a vida por doença. No ano seguinte, enquanto grande parte do mundo já iniciava campanhas de vacinação e reabria suas fronteiras, o Brasil vivia seu período mais letal, com mais de 424 mil mortes.

A demora na compra de vacinas e a insistência na tese da “imunidade de rebanhos” fizeram com que uma crise sanitária se prolongasse no país. Segundo a professora Deisy Ventura, houve uma estratégia deliberada de propagação da doença dentro do governo Bolsonaro, baseada na ideia de que a circulação do vírus levaria naturalmente ao controle da pandemia. O conceito, no entanto, ignorava a existência da vacinação, que oferece imunização sem necessidade de infecção, diminuindo significativamente o número de mortes.

Como destacou o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), em entrevista à Folha em dezembro de 2024, “todas as pandemias terminam da mesma forma, com o atingimento de uma boa imunidade populacional. A diferença é que você pode atingir isso com milhares de mortes ou milhões de mortes”. No Brasil, o custo da demora nas medidas preventivas e na imunização foi uma das tragédias mais marcantes da história recente do país.

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