“DEPOIS DE 601 DIAS DE RECLUSÃO, ESTAVA MUITO DEPRIMIDO. RECEBER ESSE TÍTULO É FANTÁSTICO”, DISSE ALMIRANTE OTHON, QUE FOI PRESO PELA LAVA JATO,AO RECEBER DOUTOR HONORIS CAUSA,
Uma das maiores vítimas dos abusos e injustiças cometidos no âmbito da Lava Jato, Almirante Othon recebe título de doutor honoris causa da UFBA
Ex-presidente da Eletronuclear, o Almirante Othon Pinheiro da Silva recebeu na última quarta (18) o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Emocionado e feliz pela homenagem, o Almirante Othon – uma das maiores vítimas dos abusos praticados no âmbito da Operação Lava Jato – relembrou o tempo em que esteve preso a mando de Marcelo Bretas, e agradeceu pela homenagem.
“Depois de 601 dias de uma reclusão que nunca houve [igual], oficial general nenhum teve [de passar por isso], eu estava muito deprimido”, revelou Othon. “Receber esse título é fantástico, fabuloso”, disse. “Foram muitos anos de trabalho. (…) Eu não tenho palavras para agradecer esse título. Isso é uma honraria, um oásis”, acrescentou.
Othon Pinheiro da Silva é um dos mais destacados oficiais da Marinha brasileira e um dos cientistas mais relevantes da história contemporânea. Durante a cerimônia da entrega do título de Doutor Honoris Causa, o reitor da UFBA, Paulo César Miguez, frisou que Othon é um grande cidadão brasileiro que destacou-se, entre outras razões, pela “busca de integração entre militares e civis em benefício dos mais legítimos interesses nacionais”.
Quem é Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva
O pai do projeto do submarino nuclear brasileiro nasceu em 25 de fevereiro de 1939, em Sumidouro, no estado do Rio de Janeiro. Passou a primeira infância no Nordeste, onde seu pai atuava como médico e pesquisador na área de medicina tropical. Fez o ginásio em Friburgo (RJ) e, aos 16 anos, ingressou no curso de ciências do colégio naval. Atingiu o oficialato da Marinha em 1960, ocupando todas as missões em funções que lhe foram delegadas, dedicando-se sobretudo aos projetos de construção e manutenção de navios. Concluiu cursos de graduação e pós-graduação em engenharia nuclear nos EUA, com o objetivo estratégico de construir e colocar em funcionamento o submarino nuclear brasileiro.
Hoje, aos 85 anos, Almirante Othon trava batalhas homéricas. De um lado, enfrenta um tratamento contra o câncer sem a companhia da esposa, que faleceu no início de 2024. De outro, responde, há quase uma década, a seis processos judiciais, com seus bens congelados em decorrência dos desdobramentos da Lava Jato. “Sua trajetória tornou-se um dos símbolos de questionamento sobre os procedimentos e impactos dessa operação no país”, diz a Rede Lawfare Nunca Mais.
Na cerimônia do título de Doutor Honoris Causa, Almirante Othon relembrou sua trajetória, que mesclou a carreira militar com a academia. Ele agradeceu aos cientistas, engenheiros e professores universitários com os quais trabalhou ou se inspirou ao longo da vida. “Foram anos de trabalho, que sem aquelas equipes e sem orientação dos cientistas brasileiros, eu nada faria.”
Reitor da UFBA, Paulo Miguez destacou que o Almirante Othon, “como militar, encarna as melhores tradições das Forças Armadas Brasileiras, da Força Expedicionária Brasileira que lutou contra o fascismo. Que na armada, certamente, encarna a rebeldia de João Cândido Felisberto [considerado herói da Marinha por ter liderado a ‘Revolta da Chibata’ nos idos de 1910]”, referenciou o reitor.
Miguez ainda acrescentou: “Ao saudá-lo, engenheiro, ao saudá-lo, Almirante, nós saudamos um grande brasileiro. E não são poucos os grandes brasileiros que ao longo da vida tiveram de enfrentar perseguições.”
A perseguição da Lava Jato
Ao longo de uma década de cobertura da Operação Lava Jato, este GGN publicou diversas reportagens e artigos exibindo as injustiças que recaíram sobre os ombros do Almirante. Ele foi “foi alvo de uma operação infame da Lava Jato, depois que o infame Procurador-Geral Rodrigo Janot trouxe informações colhidas diretamente do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, criminalizando uma operação legítima de tradução técnica feita por uma das filhas de Othon. A acusação dizia que a contrapartida havia sido a prorrogação de contratos de construção de usinas, prerrogativa da presidência da República”, narrou Luis Nassif em um dos artigos.
“A operação [para prender Othon preventivamente] foi conduzida pelo delegado da Polícia Federal, Wallace Fernando Noble Santos, com o poder absoluto assegurado por uma Justiça indecentemente parcial e uma mídia que se transformara em repassadora de press releases da operação. Segundo o delegado, Othon teria avançado sobre a equipe. Noble, com a ajuda de um agente, derrubou e algemou o Almirante, de 76 anos, que gritava que, na condição de vice-almirante da Marinha, deveria haver no mínimo um vice-almirante no local.”
Em outra publicação em que revela minúcias da parceria Brasil-França para construção do submarino nuclear, Nassif explica que “Othon foi acusado pela Lava Jato do Rio de Janeiro de ter recebido dinheiro de empreiteiras. Nem se cuidou de saber qual a razão do pagamento. Foi acusado de ter sido subornado pela Odebrecht para conseguir a parceria com a França na construção do submarino nuclear. Ou seja, teria utilizado o dinheiro para subornar todo alto comando da Marinha – a quem cabia a decisão. Aliás, a escolha da Odebrecht foi uma imposição da própria Dassault, devido à reputação internacional da empreiteira.”
Almirante Othon ficou preso por quase dois anos. Foi condenado em primeira instância a uma das maiores penas da Lava Jato: 43 anos de prisão por supostamente ter cometido cinco crimes – corrupção passiva, lavagem de dinheiro, embaraço às investigações, evasão de divisas e participação em organização criminosa. Na prisão, Othon teve que aprender a comer com as mãos e chegou a tentar suicídio quando lutava, sem mais esperanças, aos 77 anos, por sua liberdade. Em 2017, foi libertado por um habeas corpus concedido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, que revisou a condenação a mais de 40 anos de prisão e substituiu a pena por restrições de direitos. Ainda hoje aguarda recursos no Supremo Tribunal Federal.
Para Nassif, “o correto seria [Othon receber] um pedido público de desculpas da Procuradoria-Geral da República e do Poder Judiciário, em nome do Estado brasileiro. E jogar os autores desses abusos contra Othon na lata de lixo da história.”
Medalha
Poucos dias antes de receber o título de Doutor Honoris Causa, em 12 de dezembro, Almirante Othon foi agraciado com a Medalha Henrique Morize, a maior comenda da Academia Brasileira de Ciências, em solenidade que contou com a presença do atual Comandante da Marinha, Almirante Marcos Sampaio Olsen.
Acompanhe, abaixo, o vídeo da cerimônia da entrega do título de Doutor Honoris Causa pela UFBA.