LUIS NASSIF: LULA E O BURACO NEGRO DO BOLSONARISMO

0
Screenshot

Screenshot

Há um Brasil aguardando EL Cid, o Campeador. Que Lula saia da apatia atual e se mostre à altura do maior desafio do país

Screenshot

O bolsonarismo é um buraco negro, que se alimenta da falta de projetos e de ideais de uma comunidade. É nas cabeças vazias que se plantam os discursos de ódio, teorias conspiratórias, que se desconstroem valores, instituições, que se implanta a selvageria.

A cada dia que passa, a volta do  bolsonarismo torna-se uma ameaça cada vez mais concreta porque não tem pela frente um projeto sequer de país, uma ideia agregadora, um pingo de auto-estima nacional. É um país triste que, aparentemente, perdeu a fé no futuro.

Ontem palestrei em um encontro de bancários. No final, algumas questões colocadas ajudaram a encontrar explicações para esse fenômeno.

Uma das pessoas perguntou se o quadro atual refletiria a chamada “doutrina do choque”, sobre a qual escrevi algumas vezes. Trata-se de uma estratégia que veio da psicologia, quando dois psicólogos alemães, no pós-guerra, desembarcaram nos Estados Unidos e lançaram a ideia dos choques elétricos em doentes nervosos. A lógica era que as neuroses derivavam de pensamentos, memórias guardadas no cérebro. Os choques elétricos “zerariam” essas lembranças, permitindo recriar uma nova psique.

A lógica econômica era simples. Após um grande choque – político, climático – há uma desestruturação ampla das instituições e das próprias relações das comunidades. Deve-se aproveitar para impor um conjunto de princípios – privatização selvagem – que, em outras circunstâncias, não seriam aceitos pela comunidade.

É curiosa a transposição para o Brasil. Em um primeiro momento, o choque do impeachment concedeu os seis meses regulamentares para que Michel Temer e o Supremo Tribunal Federal arrebentassem com direitos trabalhistas, abrissem espaço para privatizações selvagens etc.

Mas, e agora, passado o período Temer, passado o governo Bolsonaro, o que acontece? Aparentemente, há um efeito retardado da teoria do choque. Houve uma enorme energia combatendo o golpe, resistindo a Bolsonaro, ajudando a eleger Lula. Depois, o esvaziamento completo, o ceticismo se espalhando por todos os poros da Nação, a ponto de melhorias pontuais no emprego e no PIB não se refletirem no humor da população.

Aí se entra na segunda parte da novela: o governo Lula. Outra pergunta feita pelo público: qual o espaço que o governo está reservando para a produção nacional no plano da Neoindustrialização recém-lançado, e mesmo nos projetos de transição energética.

O capital externo vem para cá, para explorar riquezas minerais e, em muitos casos, transportando empresas para serem movidas pela energia limpa brasileira. Qual a contrapartida exigida? Nenhuma. Qual o papel do sistema de ciência e inovação, da geração de empregos, da participação do capital industrial brasileiro nos novos projetos? Não se sabe.

Houve dois momentos em que senti, na pele, o orgulho de ser brasileiro. Criança ainda, no governo JK. Toda manhã eu agradecia a Deus o privilégio de ter nascido no Brasil. Mais recentemente, no glorioso período de 2008-2010, que emergiu um Lula estadista inédito, que mobilizou o país contra a crise, articulou o sul global em grandes fóruns.

E agora? Manuel López Obrador sai do governo do México com índices de popularidade similares aos de Lula 2010. Diariamente ele entra em rede nacional, e pelas redes sociais, divulgando seus programas e pautando a discussão da mídia.

Não apenas isso. Criou uma Secretaria de Função Pública para combater a corrupção. Lançou programas sociais como “Sembrando Vida” (de reflorestamento e agricultura sustentável), “Jóvenes Construyendo el Futuro”, oferecendo bolsas de estudo e treinamento para jovens; aumentou as pensões para idosos.

Além disso, investiu na construção de ferrovias conectando várias regiões do México, construiu uma nova refinaria de petróleo, fortaleceu a Pemex (Petróleos Mexicanos) e a CFE (Comissão Federal de Eletricidade), com investimentos significativos para aumentar a oferta de energia pública. Ao mesmo tempo, promoveu a redução dos salários dos altos funcionários públicos, incluindo seu próprio salário. Não teve receio de criar Comissões da Verdade, para investigar desaparecimentos forçados e participou ativamente na melhoria do acordo comercial com os Estados Unidos.

Com um Congresso hostil, e em minoria, com Forças Armadas impregnadas pelo golpismo, não se espere de Lula a mesma atuação de Obrador. Mas alguma coisa precisa ser feita. E Lula não tem feito nada em direção a um projeto de país.

Resistiu a constituir grupos de trabalho para organizar a Neoindustrialização, está absolutamente apático em relação ao boicote empreendido por Roberto Campos Neto, mesmo tendo a possibilidade de organizar todo o setor produtivo em um pacto de desenvolvimento e contra o boicote do Banco Central.

Em 2008, ele conseguiu o apoio dos sindicatos de fabricantes de máquinas e equipamentos, da FIESP, manteve o apoio entusiasmado das centrais sindicais, movimentou o país com as Conferências Nacionais, lançou-se no mundo, liderando o G20, o sul Global.

Cadê esse Lula? Onde foi que se escondeu? O que se passa em sua alma para ter perdido a energia que o credenciaria a ser o mais relevante dos presidentes da República? Quebrou-se alguma coisa no terrível período de prisão, nas campanhas infames da Lava Jato e da mídia? Ou ainda pode-se esperar, a qualquer momento, a volta do Lula de 2008, conduzindo as forças civilizatórias rumo à salvação do país.

Note que não falei em forças da esquerda. 

Falei em forças civilizatórias, não necessariamente forças da esquerda, uma bandeira que foi carregada no pós-Constituinte pelo PSDB e pelo PT. Depois, ficou exclusivamente com o PT, com o desmanche do PSDB. E, agora? Há um Brasil civilizado aguardando EL Cid, o Campeador. Que Lula saia da apatia atual e mostre estar à altura do maior desafio da história do país.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.