DOM PAULO EVARISTO ARNS E O CULTO ECUMÊNICO EM MEMÓRIA DE HERZOG

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Em vídeo, o cardeal da resistência à ditadura conta como se deu a primeira manifestação pública de repúdio ao golpe militar

Dom Paulo Evaristo Arns – 1979. | Foto: PEDRO MARTINELLI/DedocEm um vídeo que passou a circular nas redes sociais nos 60 anos do golpe militar de 1964, o arcebispo emérito de São Paulo e símbolo de resistência, cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, revela os bastidores do culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog. A celebração, que se tornara a primeira manifestação pública de repúdio à ditadura militar, reuniu oito mil pessoas na Praça da Sé, região central de São Paulo, em 31 de outubro de 1975. [Assista a declaração em vídeo abaixo].

Vladimir Herzog é uma das centenas de vítimas dos anos de chumbo. Natural da Croácia, o jornalista naturalizou-se brasileiro. No dia 25 de outubro daquele ano, ele foi preso nas instalações do DOI-CODI, departamento de repressão aos opositores do regime militar, onde foi torturado e morto. A versão dos militares apresentada à época foi a de que Herzog teria se enforcado com um cinto, mas o cardeal não acreditou na teoria do suicídio.  

Segundo Dom Paulo, ao saberem do ato, cinco rabinos foram à sua casa. “Eles disseram: nós viemos aqui para que o senhor não fizesse culto ao jornalista, porque ele não foi assassinado, ele se suicidou. Aí eu disse: os senhores são rabinos e nós devemos dizer a verdade. Aquele que lavou o corpo dele, no momento em que ele descobriu os ferimentos e a tortura, avisou aos senhores e até foi ameaçado de morte pelos soldados“, contou. “Aí então eles disseram: o senhor sabe tudo. [E eu disse]: sei”, acrescentou o cardeal.

A partir disso, os rabinos teriam percebido que Dom Paulo não desistiria do ato e o mais jovem deles, o rabino Sobel, se levantou e afirmou que estaria presente na celebração e faria uma alocução ao povo se o cardeal confirmasse que iria presidir a sessão, como ocorreu. 

Ainda, segundo o cardeal, cerca de 500 policiais estariam em torno da praça, sob a promessa de que se houvesse protesto “metralhariam a população”. Os rabinos manifestaram preocupação sobre isso, mas foram tranquilizados.

Nós temos em cada janela um jornalista, dois ou três fotógrafos, que estão ali para fotografar de onde sai o tiro. Então, os rabinos não sabiam mais o que responder (…) Eu nunca ia pedir [que a população] gritasse qualquer coisa [contra os militares], mas sim que rezassem comigo”, disse.

 “Quando eu entrei na Catedral e vi que não havia lugar nem para um fósforo, tanta gente e gente comovida, chorando, a frente de uma pessoa tão querida na cidade, estimada na cidade, quando eu vi isso eu me enchi de esperança em favor do povo brasileiro”, completou Dom Paulo.

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 8 anos. Graduada em Jornalismo pela Universidade de Santo Amaro. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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