FESTIVAL FOLCLÓRICO DE MANAUS E O ENSOMBRAMENTO DO DEVIR-POVO

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PRODUÇÃO AFINSOPHIA.ORG

 

O filósofo holandês, Spinoza, afirma que um Ente é tudo aquilo que, por meio de uma percepção clara e distinta, pode-se conceber que existe. O filósofo, Nietzsche, lembra que devemos falar, mas com a condição de falar somente do que se superou, caso contrário, só tagarelamos. 

 

Um ensombramento é uma forma de impossibilitar-perceptivamente um conhecimento claro e distinto de um Ente, como, também, é a impossibilidade de falar sobre ele, posto, que se não o conhecemos, não podemos ultrapassá-lo para tecer comentários. O Festival Folclórico de Manaus – confusamente chamado de Festival Folclórico do Amazonas, sem realizar a síntese dos municípios que compõem o estado -, tem nos apresentado um quadro de ensombramento do que seja o sentido de folclore na significância Ontológica do Devir-Povo. Diante desse ensombramento, vamos tentar algumas enunciações-discursivas-coletivas com maneiras compreensivas. 

 

SOBRE O SENTIDO E O VALOR DO CONCEITO CULTURA

 

Etimologicamente, a palavra cultura tem sua origem latina no signo-linguístico, colere. Que significa cultivar. É termo eminentemente agrário, já que remete a cultivar a terra. O agricultor cultiva a terra para fazer brotar o vegetal. No entendimento ontológico, ele faz passar a Vida como o Novo. Assim, criar cultura é revelar o Novo. É criar vida. 

 

Na perspectiva antropológica, cultura é tudo que o ser humano cria além da Natureza e, também, cultua. Quando o sentido do conceito cultura se desprende de colere, ato de cultivar a terra, ele entra na ordem da multiplicidade como produção de ideias e objetos. Nessa ordem pode-se então sintetizá-la em três seguimentos: Cultura Civilização, Cultura Identidade e Cultura Comercial. A expressividade do mundo cultural se mostra pelos corpos políticos: filosóficos, econômicos, científicos, psicológicos, sociológicos, esportivos, religiosos, antropológicos, estéticos, éticos, etc,.

 

Não há qualquer erro em afirmar que a cultura é própria do ser humano. Da mais complicada fórmula de física-astronômica ao mais simples gol de uma perna de pau, tudo é cultura. Até a tortura é cultura, pois é obra do homem. Entretanto, existem classificações de culturas que fazem divergirem seus criadores. Existe a alta cultura e a baixa cultura. Por exemplo, o burguês só vivencia a baixa cultura por ser um um sujeito-sujeitado à força reativa. A força que produz o niilismo. A doutrina tanática de destruição da Vida. A divisão de classes é cultural, mas produzida pela cultura econômica criada pela classe-capitalista. Que determinou a cultura da exploração da força de produção do trabalhador cujo salário é culturalmente a forma realística de perversão da economia-capitalista. Um sadismo economicamente-cultural. O próprio ato sexual em que o homem fica por cima da mulher é cultural – foi aí que o orgasmo foi perturbado -, porque o natural é o coito por trás. Para confirmar essa sexualidade-natural basta um ato voyeur canino ou felino. Ou, bovino. 

 

Na perspectiva da Cultura Civilização, não existem os que têm mais ou menos cultura, porque, como afirma Freud, foi pelo processo de inibição do instinto que o homem pôde criar um mundo civilizado como sintoma e angústia cultural. Daí, porque, para ele, a sociedade é neurótica, e todos são pacientes  dele. Islâmicos, judeus, cristãos, fascistas, nazistas, burgueses, reacionários, terroristas, artistas, ladrões, corruptos, assassinos, baba-ovo, covardes, mentirosos, pilantras, vaidosos, trapaceiros, canalhas, patifes, mafiosos, femenicidas, homicidas, suicidas, misóginos, pedófilos, homofóbicos, racistas, etc, todos fazem parte da Cultura Civilização. Nada do que exista na Natureza. Por exemplo: não existe burguês-capitalista na Natureza. A Natureza não explora. Só se Movimenta-Continuamente.

 

SOBRE O SENTIDO DO CONCEITO FOLCLORE COMO DEVIR-POVO

 

O folclore não é uma dissipação esquizofrênica como alguns fazem questão de afirmar e defender. O folclore, em seu sentido semiótico-inglês, é a sabedoria do Povo. Já mostravam o sociólogo Florestan Fernandes, o antropólogo francês estruturalista Claude Levi Strauss, antropóloga Margaret Mead, Manuel Diegues Junior, Câmara Cascudo, Nunes Pereira, entre tantos e tantas.

 

Como cultura, ele é o produto da práxis e da poieses do Povo como conhecimento. A sua própria etimologia-inglesa expressa essa incontestável realidade. Folk: – significante-significado como Povo. Lore: significante-significado como conhecimento. Como o Devir-Povo é o Movimento-Criador do Novo, Folclore é a Potência-Coletiva que reflete e alimenta o sentido de Democracia. O que assevera que o folclore não é um delírio esquizofrênico.

 

O folclore, como saber Devir-Povo, expressa a composição do imaginário-mágico-humano com a Natureza. Uma cobra, uma árvore, um peixe, uma vitória-régia, uma piraíba, um jacaré, uma verdura, uma pimenta, uma semente, qualquer Ente-Natural passa a ter um poder transcendente, sobrenatural, quando desta composição. Assim, nascem os mitos, as lendas, as histórias-verdadeiras, as histórias não verdadeiras, as comidas, as festas, as danças, os rituais, as alegorias, as brincadeiras, as cantigas, um universo múltiplos de expressividades pela práxis e poieses do Devir-Povo como Folclore. 

 

Como Devir-Povo, o Folclore é sempre criação, jamais um simulacro. Ele só existe como produto da experiência humana. Nunca como imposição de um querer de um indivíduo ou uma entidade. Ninguém, individualmente, cria o folclore. 

 

SOBRE O CONCEITO DE GOVERNAR E O CONCEITO DE CIDADANIA

 

Em uma Democracia, qualquer indivíduo que tenha intenção de se candidatar a um cargo eletivo, seja de governador, prefeito, senador, deputado, vereador, tem por obrigação conhecer quais são as categorias-públicas-coletivas que ele deve ser constituído para poder ocupar qualquer um destes cargos e exercer democraticamente as funções que a Constituição de seu Estado lhe obriga. Caso, contrário, não passará de um corrompido intelectual e eticamente. Um fariseu, um hipócrita: aquele que coloca a mentira em ação. Um pervertido-demagogo. Um exemplo inconteste de degeneração-política como predomina no mundo. Inclusive no Amazonas.  

 

Assim, também, todos os habitantes de uma estado, devem Democraticamente conhecer as categorias constitutivas dos candidatos para poderem exigir seus direitos fundamentais para que sejam respeitados como cidadãs e cidadãos. Saberem quais são as obrigações dos governantes e exigirem seus cumprimentos para que a Democracia prevaleça como Regime-Político da Igualdade de Todos.

 

Sem esses conhecimentos não haverá nem governantes e nem cidadania.

 

SOBRE O FESTIVAL FOLCLÓRICO DE MANAUS

 

O conceito festival tem seu radical em Festa. Festa é um modo de agir-criativo em que é produzido um aumento alegre da Potência de Agir. Como um jogo-lúdico, a Festa implica a corporidade, sensibilidade, a intelectualidade e a a eticidade dos festantes como alegria. Não a alegria compensatória: ganhei tal objeto e ideia. Como tristeza compensatória: perdi tal objeto ou ideia. Mas, alegria como aumento da Potência de Agir produzida pela composição de um Bom Encontro, como afirma Spinoza. Já o festival é a coletivização da Festa. Ou, a Festa como comunhão-consubstancial da Comunalidade. O Aumenta da Potência de Agir Coletivo.  

 

No caso específico de Manaus, sempre houve alegria folclórica. Sempre houve arraial nos bairros, Praça 14, Cachoeirinha, Educandos, Matinha, São Raimundo, Flores, Aparecida, Glória, etc. Festas juninas nas ruas, nas escolas, nos terreiros de umbanda, quimbanda, macumba, nos clubes… Apresentação de Boi Bumbá nas frentes das casas que os contratavam. Mina de Ouro, Corre Campo, Luz de Guerra, alguns garrotes como boizinhos com crianças. Muito antes, e depois do começo do Festival Folclórico apresentado no Campo General Osório, na Rua Epaminondas, agora completando 65 anos, sempre houve alegria folclórica em Manaus.  

 

Porém, não é possível ficar inerte diante do chamado Festival Folclórico do Amazonas de uns anos para cá. Apesar da disposição e entusiasmo dos brincantes, há um quê de ensombramento do Devir-Povo. A sua sabedoria e sua inteligência não se mostra como práxis e poises Ética. Para entender esse ensombramento bastam apenas dois exemplos.

 

1 – O explícito e irracional ato de subserviência ao governador e prefeito, promovidos por alguns membros de grupos, pela realização do festival. Uma subserviência tamanha que fede a capachismo com nuances de propaganda eleitoral antecipada e com caráter de cabo eleitoral. Uma demonstração clara, e dolorosa, de total alienação como delírio-simbólico-edipiano que precisa reverenciar a figura dos governantes como autoridade-paternal-fálica, santificá-las, porque não sabem que é obrigação de todo governante produzir políticas públicas de Saúde, Educação, Transporte Coletivo, Emprego, Entretenimento, etc. Não trata-se de bondade do governador e do prefeito a realização do festival. É obrigação-administrativa-burocrática. Além de quê, o dinheiro é público. A subserviência-bajulatória é tamanha que alguns chegam a lançar golfos de baba.

 

O próprio apresentador e o responsável pela TV Encontros das Águas, que transmitiu o evento, não pouparam elogios ao governador. Mesmo sabendo-se que uma TV, assim como uma Rádio, não são propriedades privadas, mas apenas uma concessão pública como sinal para ser difundido como princípio educacional de comunicação-coletiva. Tratou-se de uma transmissão que merece reconhecimento, mas não pode se colocar como marketing governamental, porque o festival não é uma promoção nem do governador e nem do prefeito. Mesmo que tivesse claramente o patrocínio de empresas privadas. O Festival é Devir-Povo.

 

2 – A submissão dos grupos de danças, como personagens das ligas, às imposições de seleção, classificação e hierarquização em série bronze, prata e ouro. O que demonstra que não há liberdade-alegria-criativa nesses grupos, já que eles produzem suas danças para satisfazerem as determinações, os julgamentos dos jurados que, tristemente, se prestam a tal serviço-reativo. Além, de tais participantes dos grupos, propagarem os mesmos sentidos futebolísticos com ‘vamos ser campeões’. Uma verdadeiro quadro paranoico em que a liberdade artística, como Novo-Cultural, encontra-se comprometido por um regulamento que não faz parte da Alegria como Aumento da Potência de Agir. E com a cumplicidade da plateia alheia ao espírito essencialidade do folclore. 

 

O mesmo ocorre com os bois cerceados nas séries Master B e Master A. O círculo-paranoico: o B quer passar para o A, e o A, apavorado, em não descer para o B. Não precisa ser psiquiatra para saber que com impulso e ordem paranoica não há criatividade. Sem falar que os bois de Manaus entraram na “parintinização porque se não iriam sucumbir”, seguindo o boi tradicional, como afirmou um membro de um boi ao apresentador da TV Encontro das Águas, que chamou de “evolução”. Darwin tremeu. Mas ele deveria ter dito, que antes dessa ‘parintinização’ os dois bois, verdadeiros, Caprichoso e Garantido, foram ocultados pelos dois bois simulacros ‘escola-sambarizados’ com o modelo Rio de Janeiro. Tudo com as participações de Amazonino, Coca-Cola e a mídia de mercado. Uma debochada imposição ao Povo-Singular de Parintins pelos seguimentos da Cultura Comercial. A perversa força da sociedade de mercado, onde tudo só vale como mercadoria. O que alguns, alienadamente, se encantam e batem palmas e pedem bis. 

 

No mais, não poderia passar sem ser enunciado, um motivo-racial: um boi apresentou um Pai Francisco e Catirina com os rostos pintados com tinta preta. O que nos levou a lembrar de uma episódio ocorrido, na década de 60, no teatro do Rio, com o ator-branco, Sérgio Cardoso, que ao interpretar Otelo de Shakespeare, que é o Mouro de Veneza, se pintou de piche. Uma ofensa aos atores negros. O que levou o talentoso e revolucionário, Abdias do Nascimento a tecer profundo protesto.    

 

O certo é que, diante desse ensombramento, capachismo aos governantes, paranoia julgadora, ‘parintinização’ dos bois de Manaus e a ‘escola-sambarizados’ dos bois de Parintins, temos que acatar o que indica a bem-aventurança: “Bem-aventurados os meus imitadores, pois deles serão os meus erros!”. 

 

 

 

 

   

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