SUPERIOR TRIBUNAL MILITAR MARCOU JULGAMENTO DE RECURSO QUE PODE RETIRAR PATENTE DO PRESIDIÁRIO BOLSONARO
Plenário da Corte Militar decidirá se ministro acusado de parcialidade pela defesa permanece no processo que avalia a indignidade do ex-presidente para o oficialato.
05:44
OSuperior Tribunal Militar (STM) marcou para o dia 24 de junho o julgamento de um recurso apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro que tenta afastar o ministro brigadeiro Joseli Parente Camelo do processo sobre perda de patente do ex-presidente. A ação foi aberta pelo Ministério Público Militar após a condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado. A defesa alega que Camelo não tem imparcialidade para atuar no caso, argumento já rejeitado pela presidente da corte, Maria Elizabeth Rocha, e que agora será submetido ao plenário. Se o STM concluir que Bolsonaro é indigno para o oficialato, ele perde a patente de capitão reformado, os vencimentos militares e o direito a prisões militares.
O impasse no STM
O plenário do STM se reunirá no dia 24 de junho para decidir uma questão preliminar que a defesa de Bolsonaro transformou em obstáculo processual: se o ministro brigadeiro Joseli Parente Camelo pode ou não participar do julgamento sobre a perda da patente do ex-presidente. Segundo os advogados de Bolsonaro, o magistrado teria se manifestado publicamente em 2023, declarando a jornalistas que defendia a punição de envolvidos nos atos de 8 de janeiro. A defesa também cita declarações de apreço do ministro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como argumento para sustentar a falta de imparcialidade.
O pedido de afastamento já foi analisado e negado uma vez. A presidente do STM, ministra Maria Elizabeth Rocha, rejeitou a suspeição sob o argumento de que os fatos apresentados pelos advogados não se enquadram nas hipóteses legais previstas para esse tipo de afastamento. Diante da negativa, a defesa apresentou um novo agravo, que agora será apreciado pelo colegiado completo da corte. É esse recurso que o plenário julgará no dia 24. O movimento é lido, no contexto do processo, como uma tentativa de retardar a análise de mérito sobre a manutenção da patente.
O processo de indignidade
A ação em curso no STM não é uma revisão da condenação criminal imposta pelo Supremo Tribunal Federal. Seu objeto é outro e mais específico: avaliar se a conduta de Bolsonaro o torna indigno ou incompatível com o oficialato, nos termos do Estatuto dos Militares. O processo foi protocolado pelo Ministério Público Militar após a condenação do ex-presidente a 27 anos e 3 meses de prisão pelo STF por tentativa de golpe de Estado. A base constitucional é direta: a Constituição Federal prevê a possibilidade de exclusão das Forças Armadas para oficiais condenados na Justiça a penas superiores a dois anos.
O que o STM precisa determinar, portanto, não é se Bolsonaro é culpado pelo golpe, matéria já decidida pelo STF, mas se ele ainda reúne as condições éticas e morais exigidas pelo ordenamento militar para manter a patente de capitão reformado conquistada ao longo de sua carreira no Exército. Trata-se de um julgamento de caráter institucional, que coloca a própria hierarquia castrense diante da responsabilidade de avaliar a conduta de um de seus membros frente ao Estado Democrático de Direito.
Impactos e desdobramentos
Uma eventual decisão pela perda da patente teria consequências imediatas e concretas para Bolsonaro. O vínculo definitivo com o Exército seria encerrado, junto com todas as honras militares associadas ao posto. Os vencimentos que o ex-presidente recebe como capitão reformado deixariam de ser pagos a ele diretamente e seriam convertidos em pensão para seus dependentes, esposa ou filhas, sob o instituto jurídico conhecido como morte ficta, que equipara a exclusão das Forças Armadas à morte do militar para fins previdenciários.
Há ainda uma consequência de ordem prática sobre o regime de cumprimento de pena. Atualmente, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar humanitária temporária por 90 dias, medida determinada em razão de problemas de saúde. Com a perda da patente, ele perderia o direito de ser mantido em estabelecimentos prisionais militares e seria transferido para o sistema prisional comum. A combinação de perda financeira, simbólica e de prerrogativas sobre o local de cumprimento de pena torna o julgamento do STM um dos processos de maior impacto prático sobre a situação do ex-presidente, para além da condenação já proferida pelo STF.
O núcleo golpista
Bolsonaro não é o único militar de alta patente que responde a processo de perda de patente no STM. Todos os integrantes do chamado “núcleo 1” da tentativa de golpe de Estado, o grupo responsável pelo planejamento do crime segundo a condenação do STF, enfrentam ações similares na corte militar. Entre eles estão o general da reserva Walter Braga Netto, vice na chapa de Bolsonaro em 2022, condenado a 26 anos de prisão; o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, condenado a 21 anos; o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, condenado a 24 anos; e o ex-ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, condenado a 19 anos. O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, também integra o núcleo, mas recebeu pena de 2 anos em regime aberto em razão de sua delação premiada.