FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: SOBRE CAPITALISMO, MANIQUEÍSMO E MAL NÃO METAFÍSICO
José Alcimar de Oliveira*
Não era necessário acreditar na existência de um princípio do mal, porque os homens só por si têm capacidade suficiente para se perverterem (José Saramago).
01. De pleno acordo com José Saramago. O maniqueísmo atual,
que envenena e captura mentalidades que vivem numa espécie de bolha
digital, é legitimado pela crença, de fundo religioso, sobretudo, na
existência de um mundo (falso, certamente) dividido entre dois princípios
absolutos: o princípio do bem e o princípio do mal. Deixemos de lado por
ora a discussão do chamado mal metafísico. De quem é subjugado pela
imanência da miséria real pouco faz sentido, e chega a ser acintoso, exigir-
lhe considerações especulativas sobre o caráter transcendental do mal dito
metafísico. Para evitar o dúbio sentido: metafísica do mal.
02. O mal realmente existente é histórico, construído pelo ser
social. A miséria real não é uma abstração. Para evitar a disputa entre
Hegel e Adorno, vamos admitir que no todo habitam o verdadeiro e o falso.
A desigualdade social, hoje, com a vida desumanizada em que vive a
maioria da população desse maltratado planeta, não é um acidente da
natureza, menos ainda um fenômeno de origem sobrenatural. Decorre
antes de relações sociais capitalistas construídas pela sociedade de classes.
No barco do mercado, comandado por mãos invisíveis, mas de crimes
humanos perfeitamente visíveis, a salvação é de natureza seletiva.
03. O discurso maniqueísta (político, religioso, moralista) é
sempre funcional à opressão de classe da burguesia (vista como agente do
bem) sobre o proletariado (visto como a classe do mal). Não podemos
dividir o mundo entre crentes (agentes do bem) e não crentes, agnósticos,
ateus (agentes do mal). O critério da verdade é a prática. Jesus de Nazaré
bem o mostrou antes de Marx. A ortopraxia tem precedência teológica
sobre a ortodoxia. Para a simplificação maniqueísta, da vida paralela, não
há lugar para o contraditório como constituinte essencial e inseparável da
existência do ser social.
04. É saudável manter cuidado e distância epistêmica de quem
tem a boca cheia de Deus, Pátria e Família. Como pode falar em salvação
da alma quem maltrata o corpo com a fome. Quando Jesus afirma que veio
para que todos tenham vida, refere-se antes à vida materialmente vivida.
Não separa o transcendente do imanente. Vale dizer que para o Mestre de
Nazaré a porta da salvação se abre no devir da imanência à transcendência:
Vinde (…) eu estava com fome, e me destes de comer; todas as vezes que
fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o
fizestes (Mt 25, 34.40).
05. Para Brecht, a justiça é o pão do povo. Se a vida vivida
(sobrevivida) não importasse, por que Jesus iria se compadecer do povo
faminto e multiplicar os pães? Segundo o Texto Base da Campanha da
Fraternidade (CF) de 2023, (…) a fome de uns – a fome de uma só pessoa!
– onera a todos nós, onera a sociedade inteira;. Ainda no Texto Base da CF
de 2023 encontramos: “A fome é um dos resultados mais cruéis da
desigualdade. Afeta inicialmente os mais necessitados. Atinge, contudo, a
todos, diz respeito à sociedade inteira. Esta é a razão pela qual o Papa
Francisco, sem rodeios, afirma que ‘não há democracia se existe fome’”.
06. O nº 40 do Texto da CF 2023 nos apresenta uma síntese da
tragédia social da fome no País que tanto exalta sua condição de exportador
de alimentos para o mundo: “Em abril de 2022, apenas 41,3% dos
domicílios brasileiros tinha seus moradores em Segurança Alimentar (SA),
58,1% viviam em algum nível de Insegurança Alimentar (IA), dos quais
15,5% conviviam com a fome. Em números absolutos, isso significa que
do total de 211,7 milhões de brasileiros e brasileiras, 125,2 milhões
convivem com alguma Insegurança Alimentar (leve, moderada ou grave),
dentre os quais mais de 33 milhões de pessoas enfrentam a fome em
nosso País”.
07. No País da fome capital, com seus números de elevada
produção agrícola, não come quem tem fome, mas quem tem o necessário
poder aquisitivo. Quando domina o valor de troca e diminui a taxa de valor
de uso do que é produzido, o reino da fome alarga suas fronteiras sobre o
povo e mata à mingua e de forma estrutural a imensa população dos
perversamente incluídos no festim do capital. Não é de origem metafísica,
mas antes física, material e histórica, o mal que a burguesia, com seu
regime de fome compulsória, com sua política de subnutrição, impõe sobre
a vida da classe trabalhadora brasileira.
*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, base da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios
Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE).
Em Manaus, AM, abril de 2023.