FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: MULHER: NATUREZA, TRABALHO E CLASSE
José Alcimar de Oliveira*
Fiquei nervosa ouvindo a mulher lamentar-se porque é duro a gente vir ao mundo e não poder nem
comer. Pelo que observo, Deus é o rei dos sábios. Ele pois os homens e os animais no mundo. Mas os
animais quem lhes alimenta é a Natureza porque se os animais fossem alimentados igual aos homens,
havia de sofrer muito. Eu penso isto, porque quando eu não tenho nada para comer, invejo os animais
(Carolina Maria de Jesus).
01. Categoria ontológica fundante do ser social, o trabalho é a
condição incontornável da existência humana, desde os tempos da mulher
indígena do comunismo primitivo até os tempos de luta da mulher operária
contra a exploração capitalista na sociedade de classes. Nas palavras do
Mouro de Trier, o trabalho “é uma necessidade natural eterna que medeia o
metabolismo entre homem e natureza e, portanto, a própria vida humana”.
O regime do capital subtraiu ao trabalho sua natureza emancipatória.
02. Para Spinoza, Deus sive Natura significa que dizer Deus é
dizer a Natureza. Do pouco que sabemos sobre a Natureza, temos apenas a
certeza de que ela antecede e sucederá ao ser social. O ser social,
notadamente o ser social burguês, cuja consciência (e vida) foi degradada
pelo metabolismo do capital, é um sujeito essencialmente matricida. Nunca
falamos de pai natureza porque Mãe mesmo é a Natureza. Não há
patriarcado na natureza. Natureza, Vida, Luta, Classe, Resistência,
Solidariedade, é tudo mulher.
03. Neste dia 08 de março de 2023 sobrará discurso a exaltar a
mulher como bela, necessária, dócil, rainha do lar. Como é cruelmente
refinada a cultura burguesa! Mas nas trilhas de uma estética libertária e
anticapitalista, necessariamente bela é a mulher que luta e, na luta coletiva,
adquire consciência de classe. De alta e necessária classe é a mulher
classista. Sua luta pela emancipação humana e sua solidariedade de classe
não conhecem fronteiras. Sua pátria é o espaço-tempo da luta contra a
opressão.
04. Neste 08 de março de 2023, falemos menos em Dia da
Mulher, data tão cara ao gosto burguês pela falsificação da vida. Falemos
antes em Dia Internacional de Luta das Mulheres Trabalhadoras. Da
luta contra a exploração de classe, contra o feminicídio, contra o
machismo, contra o patriarcalismo, contra a misoginia, contra a
mercantilização da vida e dos corpos, contra o sexismo da linguagem,
contra a discriminação salarial do trabalho da mulher. Fora disso, sobram
confeite social e discurso vazio.
05. Aprendamos todas e todos com as mulheres irredentas, feitas
de coragem, de luta prática e teórica, como Elizabeth Altina Teixeira,
paraibana, com 98 anos completados em 13 de fevereiro de 2023. Mulher
pobre, líder camponesa, militante, plena de consciência de classe e
dignidade, imortalizada pelo melhor documentário do cinema brasileiro,
Cabra marcado para morrer, do inigualável Eduardo Coutinho. Brecht,
seguramente, tomaria Elizabeth Teixeira como paradigma para seu teatro
épico.
06. Mulheres como Carolina Maria de Jesus, negra, favelada e
literata maior desse país estruturalmente racista e sob o poder da misoginia
e da logofobia. Como nos ensina Adorno, é preciso recuperar o passado e a
memória sob forma de esclarecimento. Sem o protagonismo da mulher
classista não haverá êxito na luta contra o ódio que se organiza como
política, contra a afronta à cultura, contra a falsificação da história e
destruição da memória. Mulheres como Conceição Derzi e Graça Barreto,
da contraordem e avessas ao morno, que partiram contra a nossa vontade
em 2022.
07. O que querem as mulheres trabalhadoras? Antes de tudo o
direito de ser e de viver. Querem trabalho digno e salário justo. Querem
viver com alegria, “porque – nas palavras de Espinosa, o filósofo dos bons
afetos – a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao
passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela
esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a
morte”. Viva a luta das mulheres que se alimentam da ontologia social do
cuidado pela vida.
José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, base da ADUA-Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios
Solimões e Jaguaribe.
Em Manaus, AM, no Dia Internacional da Luta das Mulheres Trabalhadoras, em oito de março do ano de 2023.
Sábio, oportuno e intenso o texto do filósofo e professor, Alcimar. Sempre contribuindo culturalmente para aqueles que ainda se sensibilizam com o ato de aprender.