“A IGREJA NÃO EXISTE PARA COMPETIR COM O ESTADO”, DIZ PRESIDENTE DO CIMI

DEUS E POLÍTICA

Em entrevista, o arcebispo de Porto Velho dom Roque Paloschi critica intolerância reigiosa e incentivo à violência

Nicolau Soares
Brasil de Fato | São Pauo (SP) |

 

O uso das religiões é elemento central do bolsonarismo – Foto: Isac Nóbrega/Presidência da República/Divulgação

“Nunca na história do Brasil tivemos um presidente que honrasse o povo cristão, a igreja de Cristo e Deus como o presidente Jair Bolsonaro. Nós somos mais de 30% da população, a igreja evangélica. Nós vamos influenciar, sim. Se sindicalista, socialista e comunista influência, nós vamos influenciar, sim”. A frase é do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, dita no último dia 15 de setembro durante um culto em homenagem ao seu aniversário de 64 anos. O presidente em questão é Jair Bolsonaro (PL), que participava do evento.

Elemento central do bolsonarismo, a mistura entre valores religiosos e política é uma das marcas do atual momento político. Para dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho, presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e secretário da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), a mistura é prejudicial para os dois lados da equação.

“A nossa experiência com a proclamação da República e a separação de Estado e igreja foi uma experiencia que nos ajudou, como cristãos católicos, a perceber que a igreja existe não para competir com o Estado, mas para viver à luz da palavra de Deus e testemunhar a fé, a esperança e a caridade”, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato.

No caso do atual presidente, essa mistura inclui ainda o incentivo à violência contra opositores, termo que não se aplica apenas às disputas políticas: homossexuais, feministas, praticantes de religiões de matriz africana e outras minorias estão todos sob a mira – nem sempre metafóricas – dos seguidores de Bolsonaro.

Para Paloschi, quem faz isso está tentando “fazer com que as pessoas acolham não o que realmente é a vontade de Deus”. “Como falar em nome de Deus alimentando ódio, alimentando preconceito, alimentando a discriminação e sobretudo tentando negar a própria história de quem quer que fale em nome de Deus?”, questiona.

“Como falar em nome de Deus alimentando a violência, alimentando um mundo onde a grande maioria não tem acesso às necessidades básicas. Por isso, eu pessoalmente fico perplexo diante desta situação onde muitas de nossas igrejas estamos usando o púlpito, fazendo do púlpito um balcão de negócios. Esse não é o caminho que nossas igrejas podem seguir.”

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato – Na comemoração do 7 de Setembro, o presidente Jair Bolsonaro fez mais uma fala dizendo ser defensor de valores cristãos, e até fazendo uma comparação entre as duas primeiras-damas, dizendo que só Michele é uma mulher cristã e de família, o que é uma referência a comentários da própria Michele sobre a Janja, esposa de Lula, que teria ligações com religiões de matriz afro. Como você vê esse uso das religiões e da intolerância religiosa na política, e nessas eleições, em particular?

Dom Roque Paloschi – Posso dizer, na minha condição de um padre que vive aqui na Amazônia, é que os caminhos que a palavra de Deus nos convida é sempre o compromisso com a vida, com a justiça, com a fraternidade. Os caminhos a que a palavra de Deus nos direciona é sempre construir pontes, de solidariedade, de respeito e sobretudo de fidelidade, para mim, como cristão, a Jesus, porque ele veio para que todos tenham vida, e vida em abundância. o uso do nome de Deus para lograr vantagem numa disputa eleitoral vai contra o próprio mandamento: não usar o nome de Deus em vão, lá do Antigo Testamento.

Tudo isso demonstra que muitas vezes nós queremos, em nome de Deus, fazer com que as pessoas acolham não o que realmente é a vontade de Deus, não aquilo que Jesus disse, ‘eu vim não para fazer a minha vontade, mas a vontade do Pai que está no céu’. E a vontade do pai que está no céu é que a vida se torne um grande hino de louvor das criaturas ao Criador. E como falar em nome de Deus alimentando ódio, alimentando preconceito, alimentando a discriminação e sobretudo tentando negar a própria história de quem quer que fale em nome de Deus.


Dom Roque Paloschi: “é inadmissível que se utilize de um viés religioso para acalentar a violência, acalentar o preconceito” / Reprodução/REPAM-Brasil

É muito estranho quando nós nos apoiamos em determinadas situações bíblicas para apresentar projetos de poder, político, econômico ou religioso, porque essa não é a via de Jesus Cristo, e não pode ser também a minha via. A via de Jesus Cristo, ele veio para servir. Servir e promover a reconciliação entre todos. Como falar em nome de Deus alimentando a violência, alimentando um mundo onde a grande maioria não tem acesso às necessidades básicas? Por isso, pessoalmente fico perplexo diante desta situação onde muitas de nossas igrejas estamos usando o púlpito, fazendo do púlpito um balcão de negócios. Esse não é o caminho que nossas igrejas podem seguir. Isso é ir contra totalmente os ensinamentos de nosso senhor Jesus Cristo.  

Exaltar determinadas coisa para diminuir as outras, nós vivemos em um mundo plural, pluri ético, pluri cultural e pluri religioso. Tudo isso nos faz crescer, onde no contato com o outro eu vou também aprendendo, que todos nós, indistintamente, somos criados à imagem e semelhança de Deus. Independentemente do nível de escolaridade, da conta bancária, de raízes étnicas, todos somos criados à imagem e semelhança de Deus. Participar e professar dessa ou daquela confissão, ou não confessar, é uma decisão pessoal. A misericórdia de Deus não é apenas para aqueles que professam a fé cristã. Não, a misericórdia de Deus é para todos. E sobretudo, para os pobres, os aflitos, os que são perseguidos, os que são caluniados.

Como vê os prejuízos dessa mistura, tanto para o processo político quanto para as próprias religiões?

A nossa experiência com a proclamação da República e a separação de Estado e igreja foi uma experiencia que nos ajudou, como cristãos católicos, a perceber que a igreja existe não para competir com o Estado, mas para viver à luz da palavra de Deus e testemunhar a fé, a esperança e a caridade. Misturar e aliar a um partido, a um projeto de governo, é sempre muito desafiador, muito arriscado. Porque nós, quando falamos em política, a doutrina social da Igreja, e os papas têm insistido desde Leão XIII, em 1891, com a encíclica “Das coisas novas”, Rerum Novarum. E depois as demais encíclicas sociais. Vamos pegar João Paulo II, com a Laborem Exercens, se não me falha a memória em 1980 ou 81. Paulo VI, João XXIII, com a Pacem in terris, paz na terra. 

Isso mostra que a política, para nós sempre nessa concepção de P Maiúsculo, a política do bem comum, de promover a justiça social. De promover a integração, a dignidade de todas as pessoas. Por isso a mistura vamos dizer, uma palavra simples, corre o risco de nós aprisionarmos, colocarmos algemas no evangelho e não sermos sal da terra, nos unindo como cristãos para poder viver também a profecia dos dias de hoje. O cristão, pela força do batismo, ele é chamado a ser sacerdote, profeta e rei. Ou seja, viver a santidade e denunciar tudo aquilo que vai contra a vida, e olha que nós temos, nessa nossa pátria amada, idolatrada, muita coisa que vai contra a vida. Mas também ele é chamado a ser rei, como Jesus, um rei servidor. Aquele que dá a vida, que entrega a sua vida, que derrama a última gota de sangue para que todos tenham vida, e vida em abundância.

Então concordo plenamente que, no fundo, os dois lados perdem. Perdemos nós como comunidade de fé quando nos aliamos a um projeto político, e perde também o próprio bloco que tem esse projeto político, na medida em que se aprisiona, em nome de Deus, querendo justificar até a violência contra os pobres, as mulheres, contra a juventude negra que está sendo exterminada, a violência contra os povos originários. Como eu, usando da minha função hoje de sacerdote, vou justificar, em nome da palavra de Deus, tudo isso? 

Recentemente, tivemos um caso em Goiânia em que um policial atirou em um homem dentro de uma igreja, depois deles terem discutido por conta de uma circular que passou no culto com orientações sobre as eleições. Também houve críticas de fieis à participação do candidato ao Senado Marcos Pontes (PL) em um culto. As pessoas estão se incomodando com essa mistura? E, por outro lado, qual o perigo dessa mistura de religião e violência que faz o bolsonarismo? 

É difícil a gente dizer, porque se tivesse se passado dentro da igreja em que estou celebrando, eu poderia dizer algo mais pontual. Mas acho que demonstra que todas pessoas, do caso de Goiânia, mas também de São Paulo, com o ministro de Ciência e Tecnologia, demonstra que as pessoas estão sedentas de palavras de vida, não de palavras de morte. Não de palavras de instrumentalização. De instrumentalizar o cristão, o fiel em vista de um projeto em que eu acredito. Eu sou cidadão, tenho que exercer a cidadania, mas no exercício do meu ministério sacerdotal como padre, eu não posso usar do púlpito para defender projetos políticos.

Em relação à segunda pergunta, é óbvio ululante que é impossível nós concebermos que, em nome de deus, a gente alimente a violência, o machismo, o preconceito. E sobretudo incentivar o uso de armas para eliminar aquela que pensa diferente, isso é muito trágico. O sonho de Deus, está lá no profeta Isaias, é que todas as armas sejam transformadas em ferramentas de trabalho, para que se tenha alimentos para todos. Para mim, na minha humilde compreensão, é inadmissível que se utilize de um viés religioso para acalentar a violência, acalentar o preconceito e alimentar sobretudo a divisão. Jesus da cruz nos uniu a todos.

As religiões de matriz africana são um alvo comum de ataques de intolerância. Como vê isso? E como essa intolerância afeta os povos indígenas?

Acho que os dados que têm surgido nesta semana falam por si mesmos. Porque em nome da fé, nós não temos o direito de ver naquele que é diferente a possibilidade de eliminar. A história da recente da humanidade, e nós sabemos o que aconteceu nos caminhos da Segunda Guerra Mundial. As coisas começam assim de maneira, parece que inocentes e depois vão crescendo. É lamentável o quanto nós, falando em relação as populações indígenas. Chegamos, ocupamos o território, desqualificamos eles desde a língua, os costumes e as tradições, a espiritualidade. E nos damos o direito de eliminá-los. Porque nunca os consideramos como pessoas.

E é por isso que então, em nome de Deus, vamos eliminando os pobres, os indígenas, os afros, porque simbolizam, para muitos, caminhos de perversão. E não somos capazes de perceber os valores das culturas afro e indígena. Não somos capazes de perceber os sinais da presença de Deus no meio deles. Pelo contrário, nós achamos que sabemos tudo, e em nome da fé, da palavra de Deus, queremos dominar. Fazer com que eles sejam cristãos, para assumir aquilo que nós vivemos. 

É lamentável, mas essa intolerância religiosa vem de muito tempo. E nós, com todos os caminhos feitos, de um país cada vez mais plural, está se partindo para essa prática tão vergonhosa, e tão criminosa de não sabermos respeitar aqueles que são diferentes. Eu me acho no direito de invadir sua casa, destruir tudo, destruir a vida das pessoas, em nome de Deus. Isto é… inconcebível na história, e muito menos hoje num país que se diz cristão, com tantos católicos e tantos irmãos e irmãs de igrejas de raízes cristãs, e que alimentamos a violência. Isso é inaceitável, é um grito que brada aos céus essa violência e esse desrespeito àqueles que professam a fé de maneira diferente. 

Você é arcebispo de Porto Velho, em Rondônia, um estado em que Bolsonaro aparece com 54% contra 27% de Lula segundo pesquisa Ipec do mês passado. E que tem duas características: está na fronteira da expansão do agro, o que gera conflitos de terra, e é um dos estados com maior concentração de pessoas evangélicas. Como vê esse cenário no seu estado?

O desafio meu como cristão católico, é conjugar a fé com a vida. Nós tínhamos um cantor no Brasil que cantava “não adianta ir na igreja e fazer tudo errado”. Na minha concepção, a fé não pode ser separada da vida. E um estado com tantos católicos e tantos evangélicos, ser o estado que mais mata no campo – isso dito por uma promotora, não por mim – demonstra que alguma coisa está errada, não está indo bem. É isso que me assusta, essa dualidade. Eu professo a fé como cristão, católico ou evangélico, não importa, mas depois eu vivo os trâmites do mundo da ganância, do mundo do “olho do olho, dente por dente”. E sobretudo, acredito no caminho das armas. 

Porque a velha lógica que diz: se queres a paz, te prepara para a guerra. Para nós, se queremos a paz, nos empenhamos para construir justiça, justiça para todos. Por isso é muito difícil quando eu encontro um irmão que, em nome da fé, acha que tem que eliminar o outro que é diferente, o outro que pode ser ameaça, o outro que de repente é uma liderança indígena, sindical, do campo, que luta pela terra, e assim por diante. É muito difícil de entrar na nossa cabeça essa mentalidade. 

Essa intolerância política é uma exclusividade dos evangélicos ou também foi feita por católicos?

É verdade, nós como católicos temos que bater no peito. Que tantas vezes no passado e hoje continuamos a demonizar as vertentes afros, indígenas, e isso significa estreiteza nossa diante do outro, que é diferente, que faz outro caminho que não é o meu caminho. 

Mas nós sabemos que todos são filhos e filhas, amados e amadas de Deus, que desejam sempre o bem. Por caminhos diferentes, mas buscam o bem, buscam a paz. E criminalizar e demonizar as expressões religiosas diferentes das minhas significa uma estreiteza e uma pequeneza da minha parte, da minha religião, minha maneira de professar a fé. 

No fundo, a gente sonha que o processo eleitoral seja feito a partir de propostas, onde não se busque destruir o adversário, mas sim apresentar propostas que ajudem a população a ter caminhos de vida, dignidade e solidariedade. E todo esse caminho das agressões que são alimentadas nas redes sociais, nos programas eleitorais, demonstram a pobreza da nossa experiência política. 

Edição: Glauco Faria

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