BOLSONARO ESTIMULOU AVANÇO DE GARIMPEIROS SOBRE OS YANOMAMI; RELEMBRE CASOS E DECLARAÇÕES

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Brazilian President Jair Bolsonaro speaks during the launching ceremony of new deliveries of the 'Income and Opportunity Programme' at Palácio do Planalto, in Brasília, on March 25, 2022. - A Brazilian Supreme Federal Court (STF) judge on Thursday authorised an investigation against Education Minister Milton Ribeiro for alleged influence peddling to favour political allies of evangelical pastors. Bolsonaro defended the minister by assuring that he "puts his whole face in the fire" for Ribeiro and affirmed that "they are being cowardly with him". (Photo by EVARISTO SA / AFP)

ANTI-INDÍGENA

Presidente já descumpriu decisões do STF, defendeu garimpo em visita à TI e inaugurou ponte que beneficia garimpeiros

Murilo Pajolla
Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

 

“Não é justo, hoje, querer criminalizar o garimpeiro no Brasil”, declarou Bolsonaro em 2021 – Evaristo Sa / AFP

Se dependesse do presidente Jair Bolsonaro (PL), a Terra Indígena (TI) Yanomami nem existiria. Desde o primeiro mandato como deputado federal ele tentou impedir a demarcação de TIs, incluindo a Yanomami. 

Em 1995, sua justificativa era essa: “Com a indústria da demarcação das terras indígenas, assim como Quebec quase se separou do Canadá, num curto espaço de tempo, os yanomamis poderão, com o auxílio dos Estados Unidos, vir a se separar do Brasil”.

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Quase 30 anos depois, o ex-capitão carregou para a presidência sua obsessão de desterrar os povos originários em prol do agronegócio. O chefe de Estado incentiva publicamente a invasão garimpeira que cresceu em ritmo inédito sob seu governo e expõe os Yanomami a mortes, doenças, desnutrição e até abusos sexuais em troca de comida. 

Em uma das muitas declarações de apoio à atividade predatória, disse em 2021 que “não é justo, hoje, querer criminalizar o garimpeiro no Brasil”. Logo depois, em mais um ataque de sinceridade, contou a origem da sua simpatia aos criminosos ambientais: “Não é porque meu pai garimpou por um tempo. Nada a ver”, emendou. 

Segundo a Hutukara Associação Yanomami, a mineração ilegal teve crescimento de 30% em 2020 e de 46% em 2021 no território, e mais de 100 moradores da TI morreram em decorrência do garimpo ilegal no ano passado. 

Relembre ocasiões em que Bolsonaro contribuiu para a invasão garimpeira na TI Yanomami:

“Justifica isso?” 

Em novembro de 2020, Bolsonaro reafirmou que a TI Yanomami não deveria existir. Repetindo um argumento mentiroso utilizado por ruralistas, disse que a demarcação de terras ancestrais ameaçava o agronegócio e se vangloriou de não ter dado sequência a processos demarcatórios em seu governo. 

“A reserva Yanomami. Tem mais ou menos 10 mil índios. O tamanho é duas vezes o Estado do Rio de Janeiro. Justifica isso? Lá é uma das terras com o subsolo mais rico do mundo. Ninguém vai demarcar terra com subsolo pobre. Agora o que o mundo vê na Amazônia, floresta? Está de olho no que está debaixo da terra”, disse Bolsonaro. 

Defendeu garimpo durante visita à TI Yanomami

Em maio de 2021, Bolsonaro visitou a TI Yanomami, que, além da presença de garimpeiros, já registrava sete mortes de bebês por covid 19. Os principais vetores da doença eram justamente os mineradores ilegais, cuja atuação na região é repudiada por todas as organizações indígenas locais e regionais. 

Segundo reportou o Brasil de Fato, o presidente cumpriu agenda no 5º Pelotão de Fronteira do Exército, que fica dentro da Terra Indígena Yanomami, região da Comunidade Maturacá. Com máscaras de proteção e lanças nas mãos, dois caciques leram uma carta de reivindicações para o presidente. 

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Em seguida, Bolsonaro disse que respeita a decisão dos indígenas contra o garimpo, mas frisou que trabalha para aprovar a mineração em terras indígenas porque, segundo ele, essa é uma demanda “dos índios”.

“Tem outros irmãos índios, em outros locais, dentro e fora da Amazônia, que desejam minerar terra, que desejam cultivar terra, e nós vamos respeitar esse direito deles”, disse. 

Inaugurou ponte que facilitou acesso de garimpeiros

Logo antes da visita à TI Yanomami, Bolsonaro havia inaugurado uma ponte de madeira de 18 metros de comprimento. A estrutura é um acesso da BR-307, que cruza a TI Yanomami e liga o município de São Gabriel da Cachoeira a comunidades indígenas em Maturacá, um dos locais que mais sofrem com os efeitos do garimpo.

A inauguração gerou receio e medo na região, já que os indígenas temem que a ponte possa facilitar a chegada de garimpeiros e mineradoras na TI.

Ao El País, o líder Yanomami Dário Kopenawa afirmou que é “uma cara de pau” de Bolsonaro fazer a visita em meio à pandemia de covid-19, colocando em risco a saúde de toda a população local em uma época em que a pandemia não estava controlada, em parte por omissão do próprio governo federal. 

Descumpriu decisões do STF

Diante dos novos capítulos da crise humanitária que assola os Yanomami, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) entrou com uma petição no Supremo Tribunal Federal (STF) solicitando a proteção dos indígenas da região. 

Na ação, a Apib denunciou a conivência do governo federal com os crimes em territórios indígenas e acusou Bolsonaro de provocar uma nova onda de migração de garimpeiros para os locais de extração de minerais.

A Apib afirma que o governo federal descumpre reiteradamente duas decisões do STF que obrigavam o governo a expulsar garimpeiros de terras indígenas durante a pandemia, incluindo a TI Yanomami.

“[O descumprimento é] tanto no que diz respeito ao isolamento e contenção de invasores, quanto na adoção de todas as medidas necessárias à proteção da vida, da saúde e da segurança das populações indígenas que habitam a TI Yanomami”, escreveu na petição o coordenador jurídico da Apib, Eloy Terena. 

Chefe da Funai: garimpeiros também são vítimas

O presidente da Funai e fiel executor da política anti-indígena de Bolsonaro, Marcelo Xavier, disse no mês passado que os “garimpeiros são tão vítimas” quanto os Yanomami. A declaração foi ao ar durante entrevista à rádio Joven Pan

:: Garimpeiros são tão vítimas quanto os Yanomami, diz presidente da Funai ::

Perguntado sobre cenário de fome, doenças e exploração sexual na Terra Indígena Yanomami, Xavier disse que os garimpeiros trabalham em condições insalubres: “O problema tem duas vítimas, tanto o indígena quanto o garimpeiro”.

Outro lado

O Brasil de Fato entrou em contato com as assessorias de imprensa da presidência da República e da Funai, mas não obteve resposta até a publicação. Uma nota publicada no site da Funai elenca ações recentes do governo federal em prol dos Yanomami: 

“Em 2021, R$ 34 milhões do Governo Federal foram aplicados em operações, como a de combate ao garimpo ilegal realizada na Terra Indígena Yanomami que resultou em 89 aeronaves apreendidas e 38 pessoas presas. Também foram apreendidos quase 30 mil quilos de minério, 850 munições e nove embarcações. Além disso, foram inutilizados 89 mil litros de combustíveis, 10 balsas, 11 veículos, quatro tratores e 22 postos de combustíveis interditados”, diz o comunicado. 

Edição: Felipe Mendes

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