FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: SETE MULHERES IRREDENTAS E FEITAS DE CORAGEM

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Por José Alcimar de Oliveira*

 

Mãe Coragem: Por quanto tempo é que não tolera injustiça? Por uma hora, ou duas? Pense bem!
Nunca se perguntou isto, embora seja a coisa mais importante: porque é uma desgraça, na prisão,
quando a gente percebe de repente que já está tolerando a injustiça. A guerra não é mais do que (…)
outra maneira de continuar o comércio (Brecht, Mãe Coragem e seus filhos).

 

01. Considero uma divergência teológica de somenos discutir se
Maria de Nazaré, mãe de Jesus, teve ou não outros filhos. O próprio Jesus
de Nazaré relativizou a maternidade biológica ao se interrogar diante dos
discípulos: Quem é minha mãe? Quem são minhas irmãs e meus irmãos?
Dirigindo-se aos que o cercavam, com inegável distanciamento brechtiano,
o próprio Jesus responde: eis aqui, neste lugar, minha mãe, minhas irmãs e
meus irmãos. São todos aqueles que, coletivamente, estão construindo a
utopia do Reino. A vocês os tenho e as tenho como meu irmão, minha irmã
e minha mãe (cfr. Mt 12,48-50). A maternidade da ideologia burguesa é
intrinsecamente excludente e egoísta. Jesus de Nazaré socializa sua mãe.
Maria é mãe coletiva. Segundo Leonardo Boff, ela é o “rosto materno de
Deus”. Em Nuestra América seu rosto de mulher, ao contrário da assepsia
estética da indústria cultural hollywoodiana, é antes indígena e negro.

 

02. Sem que tivessem conhecido a peça Mãe Coragem e seus
filhos, de Bertolt Brecht, as mães da Comunidade de Jacarezinho na zona
norte do Rio de Janeiro agiram como mães coletivas e desceram o morro
como milhares de Annas Fierlings politizadas. À diferença da Guerra dos
Trinta Anos (falsificada como guerra religiosa), tal como um exército de
Annas Fierlings e sua carroça, sob a ordem da zona escura bélica e
cognitiva, as mães de Jacarezinho se dirigiram ao Brasil e ao mundo para
dizer que a guerra não mata a todos igualmente. A população negra está
sempre no início da fila mortal. Em toda guerra os tiros se dirigem sempre
aos subalternizados, “quase todos perdidos de arma na mão”. Não são
balas perdidas. E mesmo quando chamadas de perdidas, as balas têm
origem, porque são disparadas, em última instância, por ordem do capital
genocida que dirige o Estado. O Estado brasileiro produziu e mantém sob
cerco muitas Faixas de Gaza.

 

03. Brecht pôs em cena sua peça há quase 81 anos, em 19 de abril de
1941. A estreia ocorreu em Zurich e, seguramente, deve ter incomodado a

suposta neutralidade do Estado suíço, reconhecido por abrigar em
segurança lucros e dividendos extraídos das trabalhadoras e dos
trabalhadores, na guerra e na paz, pelas mãos invisíveis do capital. Mãos
invisíveis que deixam rastros de sangue bem visíveis e convertidos em
criminosa espetacularização mediática, como ocorreu na chacina de
Jacarezinho, no Rio de Janeiro, no dia 06 de maio de 2021 e agora, em
março de 2022, na guerra intercapitalista entre as forças do capital feito
Estado Interventor pelo Império e o Estado russo não menos dominado pelo
capital pária e apátrida.

 

04. A coragem das mães de Jacarezinho é a prova de que ainda
correm dignidade e resistência entre os subalternizados. Jacarezinho, sem
Antônio Conselheiro, sem Brecht, se recusa, no século XXI, a ser a
Canudos destruída pela República que nunca foi ou a Alemanha dominado
pelo nazifascismo. Menos ainda ser manipulada pela ideologia, igualmente
de extração nazifascista, que, no Brasil e no mundo, sob a máscara do
discurso vazio em defesa de Deus, da Família, da Pátria, da Liberdade, da
Democracia, da Propriedade Privada destrói e corrói todas as razões, e
conduz o povo ao abismo da barbárie social.

 

05. A pensadora política Hannah Arendt, insuspeita de inclinações
marxistas e criticada por seu olhar ideologicamente embaçado sobre as
causas do totalitarismo, afirma que um ser que se recusa a assumir
“responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso
proibi-lo de tomar parte em sua educação”. As mães de Jacarezinho deram
um exemplo de “responsabilidade coletiva pelo mundo” em 2021. As
comunidades faveladas do Rio de Janeiro e do Brasil têm direito ao Estado
Democrático de Direito. Mas, nas palavras de Florestan Fernandes, aqui
vivemos sob a força do encurtamento da memória, que dura pouco, às
vezes um instante.

A história da luta da mulher

06. Neste 08 de março de 2022, não falemos em Dia da Mulher,
data tão cara ao gosto burguês pela falsificação da vida. Falemos antes do
Devir Internacional da Luta das Mulheres Trabalhadoras. Aprendamos
todas e todos com mulheres irredentas, feitas de coragem, de luta prática e
teórica, como Elizabeth Altina Teixeira, nascida em 1925 na Paraíba,
mulher pobre, camponesa, militante, plena de consciência de classe e
dignidade, imortalizada pelo melhor documentário do cinema brasileiro,
Cabra marcado para morrer, do inigualável Eduardo Coutinho. Mulheres
como Rosa Luxemburgo, paradigma do feminismo classista; Carolina
Maria de Jesus, negra, favelada e literata maior desse país estruturalmente

racista e sob o poder da misoginia e da logofobia; Simone de Beauvoir,
Conceição Evaristo, Angela Davis e a nossa Conceição Derzi, mulher da
contraordem e avessa ao morno, que partiu contra a nossa vontade em 10
de fevereiro de 2022.

 

07. O que querem as mulheres trabalhadoras? Por que lutam e
não se rendem diante da opressão de classe e de gênero? Querem antes de
tudo o direito de ser e de viver. Querem trabalho digno e salário justo.
Querem saúde, educação, espaços de cultura, bibliotecas, teatro, cinema,
livros e não armas. Enfim, viver. Viver com alegria, “porque – nas palavras
de Espinosa, o filósofo dos bons afetos – a multidão livre conduz-se mais
pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada
conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a
vida, esta procura somente evitar a morte”. Saudações de vida, na alegria
da luta, a todas as mulheres que se alimentam da ontologia social do
cuidado pela vida.

 

* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no Devir Internacional da Luta das Mulheres Trabalhadoras, em oito de março do ano da virada de 2022.

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