FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: SOBRE A FILOSOFIA DO JARDIM, O ADOECIMENTO E O ÓDIO À VIDA

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José Alcimar de Oliveira*

De fato, assim me parece agora aquele longo tempo de doença: descobri a vida e a mim mesmo como
que de novo, saboreei todas as boas e mesmo pequenas coisas, como outros não as teriam sabido
saborear – fiz da minha vontade de saúde, de vida, a minha filosofia… (Nietzsche).

01. Instituído pela UNESCO, celebra-se a cada terceira quinta-
feira do mês de novembro o Dia Mundial da Filosofia. É sempre da ordem da celebração
o instinto festivo. Nietzsche, filósofo que cultivava o amanhecer, associava
o pensar a uma festa. Epicuro, por sua vez, associava a sabedoria a um
jardim. Um jardim cosmopolita, que poderia ser frequentado por crianças,
mulheres, escravos, estrangeiros, a despeito das restrições de extração
socrática, platônica e aristotélica. Em diálogo com Epicuro e Nietzsche,
com a sábia mediação de Protágoras, ousaria propor que o Dia Mundial da
Filosofia se convertesse em Dia Mundial da Festa do Jardim do
Pensamento. Se para Bachelard a Ciência é a expressão estética da
inteligência, por que a Filosofia não poderia se definir como manifestação
estética do pensamento? Manifestação festiva, inclusive.

 

02. Também instituído UNESCO, celebra-se no dia 24 de
novembro o Dia Mundial da Ciência. Em sua raiz latina, Ciência procede
de scientia, que remete à atitude de saber, conhecimento, o que não
significa necessariamente sabedoria. Sabedoria se diz sapientia em latim e
tem a ver com prudência, circunspecção, um tipo de estética do gosto,
porque há identificação entre saber e sabor. No grego, sabedoria se diz
sophia, e o que cultiva o jardim da sabedoria é o philosophos, em atitude de
sábia tensão com quem se proclama sábio, sophos. Dessa forma, o filósofo
não é, necessariamente, nem cientista nem sábio. Sua atitude, seu modo de
viver, estaria mais próximo da figura do jardineiro, que cuida de todas as
flores do jardim, cujo dia é celebrado a cada 15 de dezembro. O filosofar é
(também) uma jardinagem epicurista.

 

03. Sob a presidência da hegemônica razão instrumental
capitalista, a Ciência se converteu em técnica e separou-se da filosofia, a
ponto mesmo de lhe dedicar ódio. Ortega y Gasset refere-se à técnica
contemporânea como resultado da copulação entre o modo de produção
capitalista e a ciência experimental. Mas nem tudo é festa para a Filosofia,

sobretudo quando em grande medida seu cultivo tem-se convertido em
academicismo apartado do cotidiano concreto da vida. Parece acomodar-se
melhor na assepsia de cômodas prateleiras e preferir a improdutiva
erudição academicista à atitude de embrenhar-se nas contradições da vida
severina. É cada vez mais rarefeita a figura do Filósofo como intelectual
orgânico das classes subalternizadas. A erudição especializada pontifica.
Segundo Nietzsche, o erudito dedica-se a “revirar” livros. Se for filólogo,
“uns duzentos por dia”, em “cálculo modesto”. Desapareceu o Filósofo
como um irredento revirador da vida.

 

04. Em duas obras, O Livro do Filósofo e Ecce homo: como
alguém se torna o que é, Nietzsche associa o cultivo da filosofia à
afirmação dos afetos que potencializam a vida, o que não deve ser
confundido com a ideologia da compulsão pela felicidade. O filósofo seria
uma espécie de “médico da civilização”. Num célebre texto de 1930, O
mal-estar na cultura, Freud igualmente se ocupa do caráter clínico da
filosofia sob a forma de psicanálise da vida social num momento em que a
Europa começava a se envenenar pela ideologia do nazismo e se deixava
contaminar pela vontade de morte e de destruição. Leitor de Nietzsche,
Freud, ele mesmo ao escrever esta obra vinha de se recuperar de longo
adoecimento. Tal como Nietzsche, Freud buscava afirmar a vontade de
vida numa estrutura social adoecida e sob pulsão tanática. Nada a ver com
o Brasil de 2021.

 

05. Quanto a mim, se há um filósofo cujo estilo de vida identifica-
se a um artesanato do bem-viver e mereceria o título de patrono desta
data, não poderia ser outro senão Epicuro. Ao contrário de Sócrates, que
pontifica a data comemorativa, em Epicuro a vontade de vida tem
precedência ontológica sobre a vontade de verdade. Por força de tal
inclinação materialista, que submetia o conceito ao caminho que busca a
saúde da alma corporalmente situada, Epicuro foi esconjurado pela teologia
cristã. Quem se dedicasse ao cultivo do seu belo e cosmopolita Jardim logo
era vítima da injúria, carimbado como epicuri de grege porcum (porco do
rebanho de Epicuro). Mas existe mamífero não humano mais próximo ao
homem do que o porco? Churchill reconhece que os cães se julgam
inferiores a nós, os gatos se consideram superiores e os porcos iguais ao
que somos.

 

06. Devemos a Epicuro, sobre quem Marx escreveu sua tese de
doutorado (na verdade, à época, um Trabalho de Conclusão de Curso que o
habilitava à docência, e que trabalho!) o mais belo elogio já feito ao cultivo

da Filosofia: “nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o
fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem
demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora
de filosofar ainda não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que
ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. Como é possível
cultivar e manter a saúde da alma em tempos de manifesto ódio ao
pensamento? Todo ódio à Cultura, ao Conhecimento, à Filosofia e à
Ciência é, na verdade, auto-ódio. Ao sublinhar o valor da formação diante
da política do ódio promovida pelo nazismo, Adorno reconhecia que a
cultura existe para que não nos acotovelemos uns aos outros.

 

07. O cultivo da Filosofia como “médico da civilização”, tem algo
de terapêutica cognitiva – como a formulada pelo tetraphármakon de
Epicuro –, de promoção da sanidade, para o quanto possível evitar que a
vida social, em qualquer tempo e espaço, venha a sucumbir ao poder
daqueles que, segundo Nietzsche, sequer podem ser contados “entre os
homens” por serem “refugo da humanidade, abortos de doença e instintos
vingativos: são monstros nefastos, no fundo infaustos, que da vida se
vingam… Quero ser o oposto disso: meu privilégio está em possuir a finura
suprema para os sinais de instintos sãos. Falta-me qualquer traço doentio;
mesmo em tempo de severa doença não me tornei doente; em vão procure-
se em meu ser um traço de fanatismo”. Se a verdadeira Filosofia é
reaprendizagem do mundo, conforme Merleau-Ponty, o seu cultivo não
pode prescindir das sadias suspeições que Nietzsche, Marx e Freud
levantaram contra as pretensões positivadas por qualquer modelo de
soberania da razão. Seguramente inspirado nestes mestres é que Heidegger
atribuía à Filosofia a tarefa nada fácil de se postar como “guarda da ratio”.

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 18 de novembro do ano do morticínio de 2021 e no Dia Mundial da Filosofia.

2 pensamentos sobre “FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: SOBRE A FILOSOFIA DO JARDIM, O ADOECIMENTO E O ÓDIO À VIDA

  1. Gostaria de dizer muitas coisas, a respeito do que li. Vou ater- me, a agradecer pela grande sorte, de ter como Professor, este cultivador de jardins…

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