Nos últimos anos, o procurador Deltan Dallagnol apresentou evolução patrimonial incompatível com seus ganhos como procurador. Adquiriu dois apartamentos, um por andar, em edifício nobre de Curitiba; adquiriu uma franquia de loja para sua esposa. Tudo isso provavelmente à custa das palestras que proferiu, montando no rabo de cometa da Lava Jato. Mesmo assim, patrimônio não significa renda. Consta que apenas em condomínios, nosso Dartagnan pagaria ao menos R$ 5 mil mensais.

Há algumas dúvida significativas para sua decisão de abandonar a carreira no Ministério Público. Nenhuma dúvida sobre a leitmotiv: foi um chamado de Jesus. Mas qual a motivação de Jesus? Provavelmente foi atendendo a um chamado de Savanolara, o anjo da guarda dos carrascos e executores de infiéis, inquilino do 8o inferno de Dante, ao lado de Mr. Guilhotin, percebendo o iceberg a caminho do transatlântico de Dallagnol.

Correm processos contra Dallagnol no Conselho Nacional do Ministério Público. Agora, sua evolução patrimonial entrou no meio da parada. Enquanto moeda sonante, era apenas uma conta em algum fundo da XP, BTG ou outro patrocinador. Tornando-se patrimônio imobiliário, não teria como ser ignorado.

Há origem pública para seu patrimônio: as palestras altamente bem remuneradas. Qualquer organização pública, por mais mequetrefe que fosse, teria um código de ética para impedir enriquecimento à custa do trabalho efetuado no serviço público. Mas o MPF acha que Código de Ética atropela o direito do procurador de prestar contas de seu enriquecimento pessoal, ainda que colocando em dúvida a idoneidade da corporação.

Lembro-me até hoje de uma conversa com uma pessoa da XP, que participou das negociações para contratar uma palestra de Dallagnol, surpresa com sua ambição.

Ocorre que a Lava Jato Curitiba criou uma jurisprudência para julgar Lula: qualquer cachê por palestras significa lavagem de dinheiro. Faziam o seguinte: quem contratou palestra de Lula? Empresa tal. Aí levantavam se, em algum momento, a empresa teve algum negócio com o governo, um financiamento do BNDES, um contrato com agente público. Era o que bastava para estabelecer uma correlação de causa e efeito. E, olha!, que Lula saiu do governo como o mais prestigiado político do planeta e um dos mais requisitados palestrantes, a ponto de ser contratado até pelas Organizações Globo.

No caso de Dallagnol, bastaria ao CNMP seguir um roteiro bem simples:

  1. 1. Levantar a lista de patrocinadores das palestras pagas.
  2. 2. Conferir o tal fundo anti-corrupção onde, segundo Dallagnol, seria depositada a maior parte das palestras. A constatação óbvia será a de que esse fundo jamais existiu. Logo, Dallagnol criou falsas explicações para justificar o recebimento do dinheiro.
  3. 3. Finalmente, um pente fino na Lava Jato Curitiba para as ações inconclusivas, tipo aquelas que sempre pouparam o doleiro Dario Messer. Poderiam investigar o que se levantou sobre a Unimed, ou sobre o unicórnio de bigdatas para o qual Dallagnol não apenas fez palestra bem remunerada, como gravou um depoimento comercial e ainda tentou trazer para a própria Lava Jato o sistema da empresa. Pouco tempo depois, a empresa foi acusada de subornar um funcionário da… da.. Isso, da Petrobras.

Dallagnol escaparia de uma investigação com esse grau de minúcias? Ainda mais de um CNMP sob pressão total do Congresso.

A segunda dúvida é: como Dallagnol sobreviverá para pagar seus condomínios e outras despesas, sem as rendas da Lava Jato? Outro bom tema para investigações.