SURTO DA URINA PRETA PREJUDICA PESCADORES NO AMAZONAS

TOXINA

Consumidores estão deixando de comprar peixes com medo de contaminação pela doença da urina preta

Gabriel Ferreira Amazônia Real
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Venda de pescado na Feira da Ponte em Parintins, cidade que já registrou caso de rabdomiólise – Liam Cavalcante/Amazônia Real

Morador de Itacoatiara, município localizado à margem do rio Amazonas, e barbeiro há 42 anos, Paulo Afonso Pereira recorda os dias de luta após ser acometido pela doença da urina preta. No dia em que começou a sentir os primeiros sintomas, comeu um tambaqui cozido em casa. 

“Comprei esse peixe no Lago do Maquira. Eu cortei, tratei, botei no freezer por três dias, e comentei com minha esposa que não ia comer depois que começaram a falar da doença que estava dando nas pessoas. A gente ia comer um pirarucu, mas aí ela resolveu fazer o tambaqui. Eu e o meu genro comemos e nós dois acabamos contaminados”, disse Paulo Afonso Pereira, de 58 anos.

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Algumas horas após o almoço, Paulo Afonso teve ânsia de vômito. Na barbearia, vomitou. Decidiu voltar para casa, já com uma grande dor nas costas. Foi, então, para uma UPA (Unidade Pronto Atendimento) e os músculos começaram a travar. “Aplicaram dipirona, tramal e foi quando descobriram que eu estava com a doença. Até fizeram teste de Covid, e me deixaram numa sala”, conta.

Paulo Afonso ficou internado por três dias no Hospital Regional José Mendes, onde recebeu aplicação de soro. “Saí com os músculos fracos, mas com três, quatro dias eu comecei recuperar”, diz. Paulo Afonso tem na memória que “a urina ficou escura, ficou da dor do caldo de cana, e bastante grossa”. Até agora, ainda tem dificuldade para urinar. 

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Os principais sintomas, que surgem entre duas e 24 horas após o consumo do animal infectado, são a urina preta, dor muscular (mialgia) na região cervical, nos membros inferiores e superiores, dores articulares e, em alguns casos, dor torácica, com dificuldade para respirar e dormência. Já foram detectados pacientes nos estados do Amazonas, do Pará, Ceará e Bahia.

O caso de contaminação do barbeiro Paulo Afonso é um dos 66 notificados no estado do Amazonas desde o início do surto no dia 22 de agosto, conforme registros da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) que ainda investiga 54 casos, com 12 descartados, um óbito confirmado, alcançando 9 municípios do Amazonas. Destes 12, quatro são em Itacoatiara (a 270 quilômetros de Manaus), o terceiro município mais populoso do Amazonas, com 102 mil habitantes.

A FVS confirmou o óbito de uma mulher de 51 anos no dia 28 de agosto no Hospital Regional José Mendes, em Itacoatiara. Ela era moradora da Vila do Novo Remanso, zona rural do município.

O órgão estadual associa a doença rabdomiólise, também conhecida como Doença de Haff, ao consumo de três espécies de peixes – o tambaqui, o pacu e a pirapitinga – que são justamente alguns dos prediletos dos amazonenses. 

Até o último boletim divulgado no dia 15 de setembro, Itacoatiara, Silves, Parintins e Maués, Manaus, Urucurituba, Manacapuru, Caapiranga e Autazes confirmavam casos. Cabe a cada prefeitura decidir se adota um determinado protocolo. Apenas a prefeitura do município de Silves (a 181 quilômetros de Manaus) restringiu o consumo dos três peixes. 

O epicentro da doença

A exceção é Itacoatiara, que recebeu um protocolo específico da FVS. De acordo com a diretora-técnica do órgão, Tatyana Amorim, a restrição do consumo de peixes se estenderá por 15 dias, desde o dia 1º de setembro. 

“Os demais municípios seguem em alerta. A gente está monitorando. Todos os núcleos de vigilância epidemiológica e hospitalar dos 61 municípios. E Manaus também estão sensíveis e alertas”, diz Tatyana. Se não houver mais casos nos próximos dias, o órgão deve suspender a restrição, sem dar uma exata ou aproximada do fim deste prazo.

Com o maior número de casos notificados (33), o município a 176 quilômetros de Manaus é o epicentro do surto da urina preta. Cerca de 3 mil pescadores vêm sofrendo com a restrição dos peixes mais consumidos e populares. Inicialmente, a FVS havia notificado 37 casos no município, mas em novo balanço reduziu para 33.

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O presidente da Colônia de Pescadores de Itacoatiara Z-13 e vereador Irailton Cunha relata que “a coisa está cada vez mais difícil” para cerca de 2 mil pescadores. “O único apoio que a gente conseguiu foi a distribuição de mais de 1,2 mil cestas básicas aos pescadores. Mas eles estão exigindo uma ajuda de recurso financeiro”, declara.

De acordo com Cunha, a Justiça concedeu o seguro-defeso para o pescador e os pagamentos já começam a partir do dia 25 deste mês. “Isso aí é uma ajuda muito grande para os pescadores, porque são quatro salários-mínimos para cada pescador.” 

Segundo o presidente da entidade, o impacto da doença foi de mais de 90% na queda da venda do peixe. De acordo com ele, “só quem está comendo o peixe mesmo, é o pescador que pega e pesca, e aquelas famílias mais humildes”. Os marreteiros estão se recusando a comprar a mercadoria, já que não têm clientes, e resta aos pescadores ficar com o peixe. 

Irailton Cunha avalia que a vazante lenta dos rios e o prazo curto até início do período de defeso em novembro deve complicar a vida dos pescadores. “A partir do dia 1º de dezembro começa o defeso de algumas espécies, e do dia 15 das outras. E isso aí realmente junto com a descida das águas, porque tem muita e o peixe fica mais difícil de pegar, porque tem muito espaço para o peixe se esconder, e realmente as coisas estão ficando cada vez mais difícil”, diz.

A Câmara Municipal de Itacoatiara aprovou um auxílio de R$ 200 por mês durante dois anos para ajudar “aos pescadores, agricultores e às famílias mais carentes”. A previsão é de iniciar o pagamento do auxílio em outubro, se houver a sanção do prefeito de Itacoatiara, Mário Abrahim.

Sem se embasar em conhecimento científico, o presidente da Colônia de Pescadores, e também vereador, especula que a doença pode ser “um tipo de veneno que o peixe come, resíduo de navio, de garimpos, que tem aqueles materiais que eles têm, que é tóxico, vai para o rio, que ele se alimenta, ou a urina do rato, armazenamento do pescado, e vai pra pessoa”. 

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Toxinas nas plantas

O pesquisador e professor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Jansen Zuanon, especialista em ictiofauna (estudos de peixes), aponta algumas características dos peixes envolvidos nos casos de rabdomiólise que podem ajudar na investigação sobre o que pode estar acontecendo.

“Tanto o pacu, quanto a pirapitinga e o tambaqui são peixes de uma mesma família serra-salminae que envolve pacus e piranhas. Esses três peixes fazem parte de um grupo de pacus que são bem aparentados. O fato desses três tipos de peixe estarem envolvidos não deve ser coincidência. O acúmulo de toxina nessas espécies deve estar relacionado com alguma característica biológica ou ecológica dessas espécies”, explica.

Zuanon afirma que as três espécies citadas são basicamente frugívoros, ou seja, comem frutos e sementes. “Isso me indica que é bem provável que a origem dessas toxinas esteja em alguma planta naquela região de Itacoatiara, onde esses peixes têm sido consumidos e capturados”, afirma o pesquisador.

O pesquisador explica ainda que os três peixes mais associados à doença não possuem nenhum tipo de estratégia de acumular toxinas como mecanismo de defesa. “Se fosse assim, a gente teria essas espécies intoxicando pessoas o ano inteiro em todos os locais da Amazônia. E não é isso que acontece, que é um fenômeno localizado parcialmente e temporariamente.”

A hipótese apresentada por Zuanon é que a cheia histórica de 2021 em grande parte da bacia amazônica possibilitou que “os peixes frugívoros tenham alcançado áreas que foram alagadas neste ano, mas que normalmente não são”. Ao terem acesso a alguns tipos de plantas, os peixes acabaram acumulando as toxinas na musculatura.

“O tambaqui e outras espécies têm a capacidade de acumular substâncias na musculatura, derivadas do que eles consumiram como alimento. Então isso reforça essa hipótese de que a toxina vem da alimentação dessas espécies”, completa. Jansen Zuanon recomenda às pessoas não consumirem tambaqui, pacu e pirapitinga, a não ser que sejam de cativeiro. 

O pesquisador do Inpa descartou que a poluição dos rios pelo garimpo e o aumento de temperatura dos rios possam ser a origem da doença da urina preta. Para ele, é possível que isso gere alguma contaminação, mas não a rabdomiólise.

“Existem problemas de contaminação gerados por diversos tipos. Por poluentes, má conservação de peixes, por excesso de calor degradando a carne dos peixes, mas isso não geraria rabdomiólise, geraria outro conjunto de sintomas, principalmente relacionados a doenças gastrointestinais”, explica.

Crise no pescado

Na comunidade do Maranhão, zona rural de Parintins, no Baixo Rio Amazonas e distante a 370 quilômetros de Manaus, o pescador José Carlos Pereira, 67 anos, associado ao Sindpesca (Sindicato dos Pescadores do Amazonas), enfrenta a dificuldade na venda do pescado. “É um prejuízo muito grande, inclusive não querem mais comprar os produtos que a gente leva daqui”, explica.

Há 18 anos pescando todos os dias na região do rio Uaicurapá, afluente do rio Amazonas, Pereira relata que os peixes mais encontrados na bacia são o jaraqui, pacu e matrinxã. “São os peixes que mais a gente come e trabalha aqui. O tambaqui é difícil de pegar porque é grande”, diz. Sem outra fonte de renda, ele afirma que vive somente da pesca, “do pouco que vende”.

O vendedor de peixe na Feira da Ponte Amazonino Mendes, bairro de Itaúna II, em Parintins, Janderson Silva, 26 anos, afirma que a venda no box em que comercializa o peixe caiu 80%, por conta do medo dos compradores. 

Ele cobra das autoridades uma divulgação massiva sobre o peixe de cativeiro para dar opção e segurança alimentar para os consumidores. “Como trabalho com tambaqui de cativeiro, também passei a esclarecer que o meu produto era seguro, mas não adiantou muito”. Janderson Silva afirma que o receio da população afetou as vendas de todos os peixes e, como consequência, também outros produtos, como farinha, banana, consumidos com os pescados. 

O presidente da Colônia dos Pescadores de Parintins Z-17, Gelson Santarém, conta que o governo do Amazonas distribuiu somente cestas básicas aos pescadores da colônia do município, porém em ação itinerante referente ao enfrentamento da pandemia da Covid-19. “O governo deu uma cesta básica. Passou aqui, deu pros pescadores de Parintins, como está dando em todo estado. De ajuda foi só isso”, conta.

Apesar do receio dos consumidores e da queda nas vendas, em Parintins a comercialização do pescado continua sem restrições. Não houve recomendação ou orientação dos poderes municipal ou estadual para a medida. “Está normal, não foi proibido nada. Não saiu decreto da prefeitura, nada”, diz Santarém.

Sem plano de assistência

A doença da urina preta teve o efeito de uma bomba no Amazonas, mudando o hábito alimentar da população, cujas refeições diárias vem predominantemente do pescado, e impactando a renda dos pescadores e trabalhadores das feiras livres.

Até o momento, o governo do Amazonas não elaborou um plano de assistência econômica emergencial para os pescadores impactados pelos prejuízos da doença. 

No último dia 9, as autoridades do Estado criram um grupo de trabalho “para mapear e investigar as regiões onde estão os municípios notificadores de casos suspeitos de rabdomiólise”, conforme nota enviada à Amazônia Real pelo governo do Amazonas.

A força-tarefa, composta por vários órgãos do Estado, coletou amostras da água dos rios que banham os municípios notificados dos casos, de peixes contaminados, de frutos que ficam dentro da água dos rios e servem de alimento para os pescados, além de amostras de sangue dos pacientes hospitalizados pela síndrome. Esses materiais já foram encaminhados ao Laboratório Central de Saúde Pública da FVS-RCP (Lacen/FVS-RCP). 

Questionado sobre o auxílio aos pescadores afetados pela suspensão da venda de determinados peixes, o governo do Amazonas afirmou que “técnicos da Sepror estão acompanhando os produtores, para definir quais ações possam ser adotadas, seja por benefício estadual, linhas de crédito diferenciadas, subsídios ou outras alternativas”. 

Impacto cultural

O ambientalista e geógrafo Carlos Durigan, diretor da organização WCS-Brasil, afirma que o impacto da doença da urina preta não afeta apenas o consumo da população, mas se estende a uma prática que está conectada à cultura do amazonense, associada ao período de estiagem. É nesta época que a pesca é mais farta devido à descida do nível dos rios. 

Durigan destaca que “a pesca assume um peso maior na dieta das pessoas, porque a disponibilidade de peixe é maior, com a baixa dos rios, nós temos concentração dos cardumes e aí a pesca é mais intensiva, e uma disponibilidade maior de peixes no mercado”. O ambientalista ressalta que muitas famílias dependem dessa dinâmica de mercado nessa época do ano. 

Um estudo, lembrado por Durigan, coloca “o Amazonas como uma das regiões que mais consome peixe por pessoa anualmente”. Segundo o pesquisador, o consumo médio de pescado pode chegar a 50 quilos de peixe por pessoa. “E a Amazônia, o Amazonas em especial, é onde o consumo de peixe pela população se equipara a países que em geral consomem muito peixe e tem uma população saudável como os países nórdicos, da Europa e o Japão.”

A falta do tambaqui

Na comunidade São Francisco Xavier, localizada no município de Barreirinha (a 317 KM de Manaus) na região do baixo rio Amazonas, Raimundo dos Santos Carvalho, 85, conhecido como Mimica, sofre com a falta de seu prato favorito na mesa de casa: o tambaqui assado ou cozido com tucupi e farinha.

Desde agosto, com a chegada da ‘doença da urina preta’, ele e a família passaram a consumir outras espécies de peixe. Mimica é aposentado, mas durante toda a vida trabalhou como pescador de subsistência.

“A gente aqui vê uns peixes melhores para comer para não acontecer nada. A gente tem sardinha, tucunaré, curimatã. É a primeira vez que vejo isso, porque sempre morei no interior e não é escolher peixe, mas tem aqueles que a gente vê para não fazer mal”, explica Mimica.  

Ao lado da esposa há 58 anos, Maria de Souza Carvalho, 76, Mimica formou família de 5 filhos, 15 netos e 8 bisnetos, e em meio a tanta história de vida, ele conta que jamais viveu com a escassez do peixe preferido, mesmo em período de seca (de agosto a outubro), pois atrás da sua casa há o Lago das Piranhas, que dá nome popular à comunidade. De acordo com o aposentado, “dá peixe de todo tipo”.

Mimica também desabafa sobre o medo de consumo do tambaqui pelo atual cenário da doença no estado, mesmo sem proibição na região do Baixo Amazonas. “No momento, ninguém está comendo por causa da doença. E principalmente o tambaqui, agora aqui no nosso lago”, relata. O aposentado afirma que os peixes mais consumidos têm sido aracu, tucunaré e curimatã.

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