DO APARTHEID À CONSCIÊNCIA NEGRA: OS PROGRAMAS QUE DERAM ORIGEM A UMA FILOSOFIA

HISTÓRIA

O Instituto Tricontinental lança o dossiê 44, que fala da manifestação prática da filosofia da Consciência Negra

Redação
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

 

Steve Biko (o quarto da direita, usando boné) em uma festa de aniversário no setor não europeu da Universidade de Medicina de Natal, em Durban, 5 de abril de 1969 – Foto: Lindiwe Edith Gumede Baloyi

Foi lançado nesta terça-feira (14), o Dossiê 44, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, que trará um compilado de projetos iniciados em 1972, na África do Sul, e que serviram para estruturar a filosofia da consciência negra, que pretendia criar uma rede de apoio para que a população negra acessasse trabalho e renda.

No Dossiê, os leitores conhecerão os programas, que variavam entre a criação de publicações e pesquisas, centros de saúde, fábricas para empregar os economicamente marginalizados, e um fundo para atender às necessidades básicas de egressos do sistema penal.

Esses programas passaram a ser pensados durante dois episódios que marcara a metade do século XX na África do Sul, a Campanha da Resistência ao Passe e o Massacre de Shaperville.

A Lei do Passe, que foi alvo da campanha, surgiu em 1945 e exigia que a população negra circulasse sempre com um documento do governo que determinava até onde o cidadão podia ir, em que locais poderia trabalhar, sua profissão e também idade e etnia. Era o Estado com absoluto controle sobre os corpos negros.

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O Massacre da Shaperville ocorreu 15 anos depois, em 21 de março de 1960, na província de Shaperville. Quando negros marchavam e protestava contra a Lei do passe, a polícia sul-africana branca abriu fogo contra a multidão de manifestantes desarmados. Sessenta e nove pessoas foram mortas e 180 ficaram feridas.

A partir daquele dia, a repressão contra a população negra aumentou, militantes e lideranças foram presas e partidos da oposição colocados na ilegalidade. Mesmo assim, a juventude lutou e tentou preencher o vácuo político criado pela proibição de dois partidos políticos importantes que personificavam as aspirações das massas. Esse movimento deu origem a Organização de Estudantes da África do Sul (Saso).

Desde então, começaram a surgir programas que visavam a autossuficiência dos negros, como forma de cooperar para a emancipação essa população.

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O Programa da Comunidade Negra (Black Community Programmes – BCP) foi fundado em resposta à necessidade de abordar o bem-estar da comunidade. A mensagem subjacente do BCP era que uma comunidade não pode ser autossuficiente a menos que esteja ciente e orgulhosa de sua identidade e dignidade.

Essas experiências foram fechadas pelo regime do apartheid em outubro de 1977. Em outubro do mesmo ano, o Movimento da Consciência Negra e todos os seus afiliados foram banidos pelo governo do PN. Ainda assim, nos anos seguintes, o Movimento da Consciência Negra continuou a informar e inspirar movimentos de resistência na África do Sul.

O Programa da Comunidade Negra tive sucesso em promover um legado de desenvolvimento comunitário para transformação política que continua inspirando militantes até hoje. As ideias desenvolvidas e retomadas nesse período de fermentação de cinco anos (de 1972 até a proibição em outubro de 1977) também tiveram influência na África do Sul contemporânea.

No início da década de 1970, as ideias freirianas sobre a práxis foram do ambiente da consciência negra para o movimento sindical e, em seguida, para as lutas comunitárias da década de 1980. Elas permanecem presentes nas formas atuais de organização e luta popular. Um preço alto foi pago por esse período de criatividade política. Mas seu papel na história da África do Sul deve ser estudado, registrado e lembrado.

Tricontinental

O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social é uma instituição internacional, orientada pelos movimentos populares, focada em estimular o debate intelectual para o serviço das aspirações do povo. Procuramos produzir conhecimento sobre a economia política, bem como a hierarquia social, com o objetivo de facilitar o trabalho de movimentos populares e se envolver na “batalha de ideias” para lutar contra a ideologia burguesa que varreu as instituições intelectuais, da academia à mídia.

Edição: Anelize Moreira

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