FILÓSOFO NOAM CHOMSKY VÊ ‘MÃO AMERICANA’ NA ASCENSÃO DE BOLSONARO À PRESIDÊNCIA
Ao abordar as condições que ajudaram a levar Bolsonaro ao poder no Brasil, Chomsky destaca que, com a queda dos preços das commodities alguns anos após a saída de Lula da presidência, “a direita brasileira – com incentivo, senão apoio direto dos EUA – viu a oportunidade de retomar o país em suas mãos e reverter os programas de bem-estar e inclusão que eles desprezaram”.
“Eles começaram a elaborar um sistemático ‘golpe suave’. Um passo foi o impeachment da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, em procedimentos totalmente corruptos e fraudulentos. O seguinte foi prender Lula sob acusações de corrupção, impedindo-o de concorrer (e possivelmente vencer) as eleições presidenciais de 2018. Isso preparou o cenário para que Bolsonaro fosse eleito em uma onda de uma incrível campanha de mentiras, calúnias e trapaças que inundaram os sites que a maioria dos brasileiros usa como principal fonte de ‘informação’. Há motivos para suspeitar de uma mão americana significativa”, afirmou Chomsky.
O linguista também destaca que as condenações ao ex-presidente Lula foram derrubadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E, claro, cita o papel desempenhado pelo então juiz Sergio Moro, evidenciado pelo escândalo da Vaza Jato.
“Moro praticamente desapareceu de vista com o colapso de sua imagem como o intrépido cavaleiro branco que salvaria o Brasil da corrupção. Enquanto isso, não por coincidência, destruía grandes empresas brasileiras que eram concorrentes de corporações americanas (que não são exatamente famosas por sua pureza)”, pontua.
Brasil de Lula: incômodo para os EUA
Chomsky avalia que, apesar do sucesso econômico e da redução da pobreza, os programas de Lula foram concebidos de forma a não infringir seriamente o poder da elite. Mas, ainda assim, foram “pouco tolerados” nesses círculos. “O PT não conseguiu fincar raízes sociais, a tal ponto que muitas vezes os beneficiários das suas políticas desconheciam a sua origem, atribuindo os benefícios a Deus ou à sorte.”
A relevância do Brasil no plano geopolítico internacional, alcançada durante o governo do ex-presidente Lula, também teria incomodado o governo dos Estados Unidos. “O Brasil se tornou uma voz efetiva para o Sul Global nos assuntos internacionais, e isso não era bem-vindo aos olhos dos líderes ocidentais. E, particularmente, foi irritante para o governo Obama-Biden-Clinton quando o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, esteve perto de negociar um acordo com o Irã sobre programas nucleares, minando a intenção de Washington de comandar o show em seus próprios termos”, lembra Chomsky.
Desse modo, a vitória de Bolsonaro acabou sendo recebida com entusiasmo pelo capital e finanças internacionais, avalia o filósofo. Eles ficaram particularmente impressionados com o czar econômico do Bolsonaro, o ultraliberal economista de Chicago Paulo Guedes. Seu programa era muito simples: em suas palavras, ‘Privatize Tudo’, uma bonança para os investidores estrangeiros. Eles ficaram, no entanto, desiludidos com o colapso do Brasil durante os anos do Bolsonaro e as promessas de Guedes não foram cumpridas.”
Bolsonaro: “nível de depravação” que nem Trump atingiu
Ao ser questionado sobre políticas implementadas por Bolsonaro e se poderiam ser comparadas com as do ex-presidente Donald Trump, Chomsky descreveu similitudes e diferenças. “Trump era o modelo óbvio de Bolsonaro, embora não o único. Em seu voto pelo impeachment de Dilma, Bolsonaro o dedicou ao torturador dela durante a ditadura militar. Esse é um nível de depravação que nem mesmo seu herói Trump atingiu”, critica.
“Os cientistas previram, antes de Bolsonaro, que em algumas décadas a Amazônia passaria de um dos maiores sumidouros de carbono do mundo a uma fonte de carbono, à medida que faz a transição da floresta tropical para a savana. Graças ao Bolsonaro, esse ponto já pode estar se aproximando.”
Chomsky demonstrou preocupação em relação ao discurso de Bolsonaro sobre a possibilidade de fraude no sistema eletrônico de votação no Brasil. Mas não só. “Neste momento, Lula está bem à frente nas pesquisas, assim como em 2018, quando foram tomadas medidas para barrar sua candidatura. Existem preocupações legítimas de uma recorrência.”
Preparação para um golpe militar
Na entrevista, o filósofo também destaca outras possíveis ameaças à democracia. Em especial com a revelação de que militares estão envolvidos em possíveis esquemas de corrupção na negociação de vacinas contra a covid-19.
“Há relatos de medidas que podem ser uma preparação para um golpe militar, talvez inspirado no golpe de 1964 que instalou o primeiro dos perversos ‘Estados de Segurança Nacional’ que aterrorizaram o hemisfério por 20 anos”, diz Chomsky. “O pretexto para derrubar o governo moderadamente reformista de Goulart em 1964 foi o apelo ritual para salvar o país do ‘comunismo’. Algo semelhante poderia ser inventado hoje.”
Quanto ao papel que os Estados Unidos poderiam desempenhar neste cenário, ele afirma que “existem precedentes que sugerem uma resposta. Um é 1964. O golpe militar que derrubou o governo foi elogiado pelo embaixador de Kennedy-Johnson no Brasil, Lincoln Gordon, como ‘a vitória mais decisiva pela liberdade em meados do século XX’”, lembra.
“Aqueles que podem acreditar inocentemente que as coisas mudaram podem recorrer à reação de Obama-Clinton ao golpe militar em Honduras em 2009, derrubando o governo moderadamente reformista de (Manuel) Zelaya”, recorda. Seu apoio ao golpe, quase sozinho, ajudou a transformar Honduras em uma das capitais do assassinato do mundo, estimulando uma enxurrada de refugiados aterrorizados agora cruel e ilegalmente repelidos na fronteira dos Estados Unidos, se eles conseguirem chegar tão longe através das barreiras impostas por parceiros dos EUA.”