ELAS NO TERRITÓRIO: A SOLIDÃO URBANA DA MULHER NEGRA
Esta é a terceira e última matéria da série 20 anos de Estatuto da Cidade, Elas no território. Buscamos contextualizar e trazer aspectos de reflexão da realidade das mulheres no contexto urbano e das políticas públicas (ou a falta delas) que impacta no território e no cotidiano feminino.
A pesquisadora Jessica Tavares, em uma publicação do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU), abordou um aspecto estratégico da relação das mulheres periféricas com o espaço urbano, mais especificamente os lugares que habitam: a favela.
A autora resgata a abordagem histórica de Bell Hooks sobre as barreiras que afastam a mulher negra de vivenciar o amor e propõe um paralelo do quanto as condições de precariedade afastam as mulheres faveladas de possibilidades de sociabilidade — a começar pelo abandono do Estado.
Partindo de um banco de entrevistas, utilizado para outras finalidades, Jessica constatou as diversas maneiras que isso afeta a subjetividade das mulheres faveladas, sobretudo negras .
“Para a sociabilidade da mulher favelada há um componente complicador, que a atinge para além do machismo e do racismo: a discriminação de classe. E que se torna potencialmente danoso quando é interiorizado, onde se cria o sentimento de inferioridade”, Jessica
Para entender essa desigualdade, é importante olhar os dados de distribuição de renda no Brasil. Além do aspecto econômico, o indicador também infere a localização das pessoas no espaço urbano. Segundo dados do IPEA, entre os 10% mais pobres da população, 64,6% eram negras; entre os 10% mais ricos da população, o percentual de negros cai para 22,3%; E entre os 1% mais ricos da população, apenas 11,5% eram indivíduos negros.
Uma vez à margem da “fatia do bolo econômico”, estar na periferia dos direitos e habitar a “cidade informal”, onde a legislação e o Estado não regulam tampouco garantem políticas mínimas de dignidade e sobrevivência, aumenta o estado de desamparo, vulnerabilidade e exclusão.
“Qualquer um dos dois (apartamento ou casa) seria bom. Pra quem quer uma moradia digna, entrar um carro, uma correspondência, a gente poder receber nossos amigos de outro tipo de classe, porque faz vergonha, os becos da favela é muito sujo. Eu não tenho coragem de trazer o pessoal da igreja na minha casa. Tem um lá que é louco pra vir, mas eu tenho vergonha de trazer um engenheiro aqui.” Manifestação de moradora que participou do artigo de Jessica.
A autora ressalta que o desafio da sociabilidade da mulher favelada, em diversos aspectos, deixa de ter teor puramente urbanístico e se agrava em barreiras do campo afetivo.
“A convivência com esgoto a céu aberto, lixo, disputa por espaço, falta de privacidade, abandono estatal e interiorização da inferioridade, modificam a forma como colocamos nossos corpos na cidade. Nos sentimos menos aptas para deixar de atravessar lugares para passar a ocupá-los”, sintetiza a pesquisadora.
Ana Clara ,Elas Por Elas