FILÓSOFO VICTOR LEANDRO*: O MONOLITO

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Muito já se discutiu sobre o destino da arte, sobre qual será a sua condição e
modo de dar-se no mundo ou até mesmo sua relevância na cena determinada como a de
após o seu fim histórico, ou seja, da remissão completa dos estilos e dos movimentos
referidos às suas épocas, no que proliferam previsões ora melancólicas ora alentadoras,
enquanto os artistas seguem fazendo seus trabalhos sem que pareçam ter mais um fim
quanto a seu ofício.

 

Trata-se de uma querela de fato aberta, e que reserva nuances difíceis de reunir.
Se por um lado alguns teóricos consideram que a arte vive um instante de esgotamento
de suas possibilidades criadoras, por outro, muitos consideram que o que se encerrou foi
tão somente aquilo que se poderia chamar como era dos manifestos, em que uma doutrina
ou um conjunto de práticas determinadas asseveravam a forma única de se fazer arte
durante um determinado tempo. Com isso, o que se tem considerado e celebrado é tão
somente o término dessas amarras, a esperada hora em que os artistas não mais precisam
responder a nenhum modelo, e podem trabalhar como quiserem e ir pelo caminho pelo
qual decidirem, isso tendo a vantagem adicional de poder trafegar pelo imenso acervo
colecionado ao longo dos séculos, e que agora vê-se cada vez mais compreendido graças
ao trabalho incessante de acadêmicos e outros especialistas, que o colocam à disposição
e enriquecem as vias de desenvolvimento das obras, de modo que se pode enfim respirar
ares estéticos verdadeiramente livres.

 

Sem dúvida, há que se ponderar bastante esse otimismo. Ainda que a tese do
esvaziamento criativo pareça mais fraca, o fator social desponta como um limite
importante para designar as fronteiras estabelecidas para a arte hoje. Não se sabe mais
muito bem se existe de fato um lugar para o artista e seus engenhos, ou se apenas o
passado interessa. Nessa indefinição, seu espaço público termina por encolher, e o que
decorre então é que o problema do progresso da arte se prenuncia como cada vez menos
importante num momento em que se começa a acenar para o encerramento de sua
experiência.

 

De qualquer forma, quando falamos de literatura, em especial da narrativa
literária, nenhum desses impasses ganha as mesmas feições, uma vez que seu estatuto
estético nesse debate precisa ser visto em separado dos demais, posto que a discussão
envidada deriva sobretudo das novas bases em que a arte se desenvolveu a partir do
modernismo, as quais se agregam sobretudo por meio da ruptura com a representação,
apresentando-se desse modo como um autêntico apartamento do literário, já que,
enquanto os artistas em geral festejaram a desobrigação de tratar do mundo, coube ao
escritor carregar sozinho o peso de continuar a figurá-lo ao longo desses tempos.

 

Essa pedra que a narrativa precisa carregar acaba por ser determinante para suas
constituições estéticas, assim como para explicar o rumo de sua história. Os
desenvolvimentos mais agudos ocorridos no trato formal da arte a partir das vanguardas
não se aplicam de maneira incisiva a sua progressão. A grande guinada que vai do
impressionismo ao abstrato, e que se caracteriza sobretudo pela perda do conteúdo
referencial das obras, não atinge em nenhum caso a raiz central por que a narrativa se
solidifica. Nessa perspectiva, nem mesmo as vanguardas surgidas no esteio das
realizações poéticas, como o dadaísmo e o surrealismo, chegam a arrancar do romance
ou do conto a sua base mimética, tampouco podem se ver refletidas de modo mais
substancial em procedimentos de forma. Quando falamos em impressões num ato
narrativo, por mais que nos esforcemos, a matéria primeira de sua criação permanece lá,
bastante visível e muito mais alusiva que num quadro monetiano. De igual maneira, a
manifestação onírica não elimina por completo a lógica dos fatos e seus ordenamentos.

 

Os narradores, por mais influenciados que sejam por essas inovações, não conseguem
ultrapassar uma determinada linha, por conta da matéria com que atuam, no que resta a
eles, portanto, acompanhar a marcha dos demais artistas de longe, repercutindo aqui e ali
algum novo invento, o que não significa de nenhum modo ficarem alheios ao chamado
espírito do tempo. As diretrizes epocais de uma cultura repercutem talvez na literatura
mais fortes do que em quaisquer das artes. O que fica de lado são apenas as proposições
específicas que se deram pela ascensão do não-representatório. Assim, pensar a
historicidade da narrativa na cena pós-moderna é pensar de que maneira escritores
reagiram a essas mudanças no trato da mimese, de como as incorporaram enquanto ideia
geral sem que pudessem efetivá-la por completo, bem como também, e esse é o ponto
mais significativo, refletir de que modo todos esses eventos confluíram na produção da
dinâmica própria dos escritos, e que somente em sua particularidade formatadora tornase possível conceber.

 

E qual é essa particularidade que se deve pôr em vista para discutir toda forma
de devir estético-narrativo? Como é dito desde Aristóteles, trata-se do tempo e de sua
organização aquilo que se deve discutir. Todos os experimentos formais mais audaciosos
que foram empregados – carnavalização, fluxo de consciência entre outros – na
composição de uma trama sempre disseram respeito a como se constrói sua teia de ações,
sua obrigatória articulação temporal, no que se veem as linhas interpretáveis de seus
direcionamentos, as quais cabe o trabalho de crítica e compreensão.

A história da narrativa é a história dos agenciamentos dos fatos no tempo. Nesse
sentido, ela é um grande monolito, a passar pelas eras tal como encontrado pelos
primeiros humanos. Mas só sob os olhares de uma pós-modernidade capitalísticoindustrial isso pode assumir um sentido negativo, de uma imagem obsoleta e estanque.
Sua permanência é na verdade a resistência do real, que está para nós a despeito dos
malabarismos da teoria. Debrucemo-nos sobre ele. Nada mais essencial para uma
apreensão vigorosa da totalidade do mundo.

 

*Victor Leandro é filósofo, escritor, novelista, analista-politico, doutor e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

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