FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: BRECHT E AS MÃES-CORAGEM DE JACAREZINHO: SETE NOTAS MARGINAIS

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José Alcimar de Oliveira*

Mãe Coragem: Por quanto tempo é que não tolera injustiça? Por uma hora, ou duas? Pense bem!
Nunca se perguntou isto, embora seja a coisa mais importante: porque é uma desgraça, na prisão,
quando a gente percebe de repente que já está tolerando a injustiça. (Brecht, Mãe Coragem e seus

filhos).

 

01. Logo no início um sargento recrutador define a guerra a seu
modo: “a paz significa apenas um relaxamento. Só a guerra é a ordem.
Durante os tempos de paz, a humanidade se corrompe”. Anna Fierling
permanece indiferente a tudo que acontece com ela e com os demais: é a
única que não tira lições da guerra, nem se modifica por causa dela. Tem
momentos esparsos de não-cegueira, como quando afirma que “as virtudes
não rendem nada, só as maldades rendem”, ou quando afirma que os
homens não são lobos, é sempre possível comprá-los, amam o ouro e “a
venalidade dos homens é como a caridade do Bom Deus. É nossa
salvaguarda. Enquanto exista, existirão julgamentos clementes e até os
próprios inocentes terão chances de se saírem bem nos tribunais”. São
frases típicas de Brecht, paradoxos reveladores e desmistificadores, que
induzem o espectador a uma reflexão imediata. Outro momento em que
Mãe Coragem fala por Brecht, é quando afirma que “num país próspero
não há necessidade de virtudes, todos podem ser até mais ou menos
medíocres, meio inteligentes e até covardes” (Fernando Peixoto).

 

02. O parágrafo acima, que ficou longo para os propósitos destas sete
notas marginais, o reproduzi de Brecht: vida e obra, de Fernando Peixoto. É
um comentário analítico à peça Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt
Brecht (1898-1956), que por força do estatuto épico de peça política contra
o avanço do fascismo e do nazismo na Europa da primeira metade do
século XX adquiriu reconhecimento de obra de alcance universal. Segundo
Fernando Peixoto, “o significado da guerra é o tema de Mãe Coragem e
Seus Filhos”. Sim, a guerra, “essa outra maneira de continuar o comércio”,
nas palavras de Brecht. O capital se alimenta da guerra surda e cotidiana. O
fascismo é o recurso intermitente e extraordinário do capital para dar à
guerra máxima audição e visibilidade.

 

03. O Dia das Mães nasceu na pátria do capitalismo. A cada ano
ouço nas forças mediáticas corporativas a eufórica assertiva de que, à
exceção do Natal, é a mais vendável data para o comércio. Como tem

fôlego o mercado das emoções. Sentimentos de toda ordem são induzidos,
boa parte com alta carga de culpa e felicidade depressiva, porque a ordem
do capital, com inegável fundo religioso, é o mais eficiente e extensivo
sistema de culpa de que a história tem conhecimento. Culpa e capital
formam uma parceria de reconhecido sucesso e sua expressão mais
ostensiva, com relevo e sofisticado poder opressivo, se materializa na
exitosa teologia da prosperidade. Sem o ato individual da posse não existe
consumidor feliz. O consumo é a reversão rebaixada do cogito cartesiano:
se consumo sou. Se não, resta lutar para ser consumidor. O ato de poder
consumir é como um sinal teológico de bênção. Igrejas e shopping centers
se enlaçam num ritual que faz o ceu descer à terra em forma de bênçãos e
vitórias.

 

04. Considero uma divergência teológica de somenos discutir se
Maria de Nazaré, mãe de Jesus, teve ou não outros filhos. O próprio Jesus
de Nazaré relativizou a maternidade biológica ao se interrogar diante dos
discípulos: Quem é minha mãe? Quem são minhas irmãs e meus irmãos?
Dirigindo-se aos que o cercavam, com inegável distanciamento brechtiano,
Jesus responde: eis aqui, neste lugar, minha mãe, minhas irmãs e meus
irmãos. São todos aqueles que, coletivamente, estão construindo a utopia
do Reino. A vocês os tenho e as tenho como meu irmão, minha irmã e
minha mãe (cfr. Mt 12,48-50). A maternidade da ideologia burguesa é
intrinsecamente excludente e egoísta. Jesus de Nazaré socializa sua mãe.
Maria é mãe coletiva. Segundo Leonardo Boff, ela é o “rosto materno de
Deus”.

 

05. Sem que tivessem conhecido a peça Mãe Coragem e Seus Filhos,
de Brecht, as mães da Comunidade de Jacarezinho na zona norte do Rio de
Janeiro agiram como mães coletivas e desceram o morro como milhares de
Annas Fierlings politizadas. À diferença da Guerra dos Trinta Anos,
falsificada como guerra religiosa, tal como um exército de Annas Fierlings
e sua carroça sob a ordem da zona escura bélica e cognitiva, as mães de
Jacarezinho se dirigem ao Brasil e ao mundo para dizer que a guerra não
mata a todos igualmente. Os tiros se dirigem aos subalternizados. Não são
balas perdidas. E mesmo quando chamadas de perdidas, as balas têm
origem, porque são disparadas, em última instância, por ordem do capital
genocida que dirige o Estado. O Estado brasileiro produziu e mantém sob
cerco muitas Faixas de Gaza.

 

06. Brecht pôs em cena sua peça há 80 anos, em 19 de abril de 1941.
A estreia ocorreu em Zurich e, seguramente, deve ter incomodado a suposta

neutralidade do Estado suíço, reconhecido por abrigar em segurança lucros
e dividendos extraídos dos trabalhadores e das trabalhadoras, na guerra e na
paz, pelas mãos invisíveis do capital. Mãos invisíveis que deixam rastros de
sangue bem visíveis e convertidos em criminosa espetacularização
mediática, como ocorreu na chacina de Jacarezinho no último dia 06 de
maio de 2021. A coragem das mães de Jacarezinho é a prova de que ainda
correm dignidade e resistência entre os subalternizados. Jacarezinho, sem
Antônio Conselheiro, sem Brecht, se recusa a ser a Canudos do século
XXI. Menos ainda ser manipulada pela ideologia que denominou de
religiosa a Guerra dos Trinta Anos na Europa do século XVII.

 

07. Diante do êxito do capitalismo religioso, ou do Capitalismo como
religião, conforme o título de obra inacabada de Walter Benjamin (leitor de
Brecht), o exemplo das mães de Jacarezinho nos indica que a ontologia do
ser-mãe é antes de tudo uma ontologia social, da solidariedade coletiva, não
redutível à fabricação ideológico-burguesa do individualismo da
maternidade biológica. A pensadora política Hannah Arendt, insuspeita de
inclinações marxistas, afirma que um ser que se recusa a assumir
“responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso
proibi-lo de tomar parte em sua educação”. As mães de Jacarezinho deram
um exemplo de “responsabilidade coletiva pelo mundo”. As comunidades
faveladas do Rio de Janeiro e do Brasil têm direito ao Estado Democrático
de Direito. Querem trabalho, saúde, educação, espaços de cultura,
bibliotecas, teatro, cinema, livros e não armas. Enfim, viver. Viver com
alegria, “porque, nas palavras de Espinosa, o filósofo dos bons afetos, a
multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que
uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança:
aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte”.
Saudações de vida às mães, biológicas ou não, que se alimentam da
ontologia social do ser-mãe.

 

* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 09 de maio do ano (ainda)coronavirano de 2021.

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