DALLAGNOL MANDOU LAVA JATO PENSAR “FORA DA CAIXA” PARA COLOCAR LULA NO CENTRO DA “ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA”; OUÇA O ÁUDIO
afinsophia 09/03/2021 0
Novos áudios apresentados pela defesa do ex-presidente revelam como o coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba, na ausência de provas contra o ex-presidente, articulava para que as peças montadas levassem a crer que o líder petista era o elo da corrupção
A defesa do ex-presidente Lula protocolou nova petição no Supremo Tribunal Federal (STF) com novos áudios de Deltan Dallagnol, o ex-coordenador da Operação Lava Jato.
Nas conversas, o procurador orienta os membros da força-tarefa a pensarem “fora da caixinha” na elaboração de uma denúncia que indicasse que o líder petista era o elo entre todos os acusados de corrupção na Petrobras. Foi a parir desse “pensar fora da caixa” que surgiu o famigerado power point apresentado em 14 de junho de 2016.
Deltan Dallagnol, sabendo que até então “não havia qualquer evidência em desfavor” do ex-presidente Lula, manda mensagem aos colegas da força tarefa da Lava Jato e os convida a pensar “fora da caixa” para elaborar as peças acusatórias contra Lula. De acordo com a orientação de Dallagnol, após o conteúdo do “depoimento” de Lula seria preciso pensar “com boa vontade” e agir como “questão de interesse mesmo”.
A defesa de Lula destaca que “pensar fora da caixa” está inserida no contexto de fevereiro de 2016, quando o então juiz Sergio Moro cobrava da força tarefa da Lava Jato que apresentasse uma denúncia “consistente” contra o ex-presiden
Hoje, com o conhecimento de outros áudios revelados pela Operação Spoofing, a petição apresentada pela defesa de Lula afirma que os procuradores da Lava Jato “sempre souberam que não tinham elementos concretos para atender a exigência do então juiz Sergio Moro”.
“Ao contrário, como já exposto, a ‘lava jato’ tinha até mesmo interceptação que reconheciam que D. Marisa chegou a ter interesse na aquisição do ‘Triplex’ a partir de uma cota que ela detinha na Bancoop mas desistiu da compra. Por isso era necessário “pensar fora da caixa”, como indicou aos colegas o procurador da República Deltan Dallagnol”.
Seis meses após pensarem “fora da caixa”, foi apresentada a denúncia contra o ex-presidente, que teve como base o power point que se tornou famoso. À época, os procuradores afirmaram que “nesse esquema criminoso, Lula dominava toda a estrutura por ele montada, com plenos poderes para decidir sobre sua prática, interrupção e circunstâncias”.
O teor da denúncia quando confrontado com os áudios de Dallagnol mostra que, de fato, se utilizaram de muita criatividade, mas “sem qualquer base concreta” ao colocar o ex-presidente Lula como o elo de “conexão entre todos”.
“Ou seja, o ‘pensar fora da caixa’ consistia, em verdade, em apresentar denúncias inortodoxas contra os adversários previamente eleitos pela ‘lava jato’, enquanto seus membros estavam participando de grupos com atuação político-partidária e atuando na seleção e no financiamento de um verdadeiro projeto político”, aponta a defesa de Lula.
Confira abaixo a transcrição da mensagem de Deltan Dallagnol onde ele orienta os colegas a pensarem “fora da caixa”:
Deltan Dallagnol: Julito, falei com Robinho.
Negócio é o seguinte, pressuposto básico do Robinho. Ele não vai fazer nada com o
que você não tá confortável. Esse é o pressuposto dele.
Agora, é, o que eu quero que você pense com a cabeça aberta é a seguinte coisa: É, eu
falei com ele e aos nossos, e aquilo que a gente conversou agora, ele tá na mesma
página. Ele tem a mesma, mesma página quanto a avaliação de método e de estratégia.
Agora, o que existe de discordância não é da análise de estratégia em abstrato, isso aí tá, tem plena concordância, mas existe uma pequena área de discordância em relação a estratégia em concreto.
Isso aí eu queria te incentivar a pensar com a cabeça aberta, a gente conver…, eu já vou te adiantar, mas queria marcar, se pudesse conversar lá por uma e dez, nós três.
Eu vou tá lá na força tarefa, Robinho também, a gente faz um viva-voz com você. É, qual é essa questão da divergência em concreto: Ele acha que aquilo que veio no depoimento, você pode até eventualmente ver o vídeo aí, mas queria que você olhasse com boa vontade tá, com boa vontade tá, não pra afirmar posição, questão de interesse mesmo, é, ele acha, olhando aquilo e olhando o que você já colocara na peça, que não muda nada de perspectiva, de chances ou de riscos em relação ao que já tá na peça quando fala que ele era conexão entre, entre todos.
Então dá uma avaliada com essa perspectiva, dá uma pensada, pensa com a
cabeça aberta e mantem o coração aberto pra pensar fora da caixa quando a gente conversar também uma e pouco, tá.
Eu não tenho opinião firmada porque eu não olhei, não olhei.
É, agora, é, acho que vai ser uma conversa boa pra construir, pra trocar experiências e pra trocar pontos de vistas ainda que seja divergente, é, queria te dizer que o Robinho ele é muito preocupado com você se sentir bem nesse processo, ele quer que você se sinta respeitado, considerado, é, ele se preocupou até porque ele acha que nos últimos dias ali ele estava com várias bolas no ar, ele não, não, não deixou você participar do
modo como deveria, ele falou pra mim que isso ai ele se sentiu mal, que ele achou que foi um erro dele. E ele quer que você se sinta respeitado ao longo do processo, considerado, a tua visão é importantíssima, é, e acho que vai ser espaço de trocar ponto de vista e se você achar que não é o caso, pimba, tá decidido.
Mas vai que, vai que na conversa, olhando e refletindo juntos, é, na ponderação de interesses, você acha que é interessante.
Então essa, essa é a ideia tá?
Valeu querido, grande abraço e até já. Falou.
“Um show midiático para pôr em pé uma denúncia vazia”
À época da apresentação power point de Dallagnol, o advogado Cristiano Zanin Martins, que rebateu as declarações do procurador Deltan Dallagnol, feitas em uma entrevista coletiva, quando afirmou que Lula seria “um general em crime de guerra”, que “pratica crimes a partir de seu gabinete”.
“O procurador da República Deltan Dallagnol voltou hoje (17/03) a atentar contra a honra e a reputação do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em ambiente absolutamente estranho àquele que envolve sua atuação funcional, reforçando o viés pessoal e privado de sua ação”, disse a defesa de Lula em 2016.
“Agora, vale-se de nova expressão, ao comparar Lula a um ‘general em crime de guerra’, que ‘pratica crimes a partir de seu gabinete’. E faz a grotesca ilação de que o ex-Presidente teria comandado ações criminosas do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, apenas porque houve trocas de ministros na Casa Civil da Presidência da República”.

Marcelo Hailer
Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).