FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: ANA NILDA, SINHA VITÓRIA E O DEVIR DAS MULHERES ANÔNIMAS
José Alcimar de Oliveira *
A vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os
aspectos de sua individualidade, de sua personalidade (Agnes Heller).
01. A fotografia que encima este escrito não é um registro da família
de sinha Vitória, do romance Vidas secas de Graciliano Ramos. A data é
provavelmente de setembro de 1964, no Alto da Catinguinha, Jaguaruana –
CE. Compôem o quadro Ana Nilda de Oliveira (1934-2014) e seus
primeiros quatro filhos, de um total de 12. Nos braços, Dulce Enilde,
nascida em 1963. Da esquerda para a direita: Leudo Antônio (1960-2015),
Maria de Fátima (1957) e José Alcimar (1956). Embora na fotografia
aparente bem mais, minha mãe tinha apenas 30 anos. Nenhuma
comparação está imune às contradições, pois o princípio dialético do
contraditório é constitutivo ontológico do real, seja o real do mundo
subjetivo da consciência, do mundo objetivo da natureza e das coisas ou do
mundo das relações do ser social. Desse modo e tendo em consideração
este princípio, penso que comparada à família de Ana Nilda, a família de
sinha Vitória poderia parecer meio pequeno-burguesa, constituída que era
de Fabiano, de dois filhos e da cadela Baleia. Mas a comparação não
resistiria à mais rasa dialética e consideraria mesmo um despropósito
analítico diante da figura sóbria, sábia e dialética que foi Graciliano Ramos.
02. Se me utilizo do registro fotográfico acima, é para estabelecer
uma ponte filosófica entre o cotidiano e a história a partir de uma mulher
anônima num tempo e espaço igualmente anônimos. Ana Nilda e sinha
Vitória, a primeira do concreto real e a segunda do concreto ficcionado e
não menos verdadeiro, e ambas representantes das mulheres anônimas, têm
mais em comum do que podem objetivar os ensaios sociológicos. Embora
o golpe empresarial-militar definisse à época o horizonte do país, ninguém
na foto, todos carentes de horizonte como se pode ver em seus rostos
desolados, dispunha de mediações para compreender, por exemplo, que o
leite da Aliança para o Progresso – que meu pai ia regularmente buscar na
igreja paroquial de Jaguaruana – era ideologicamente enriquecido com o
anticomunismo do Império. Vale dizer que o cotidiano surdo e opressivo da
foto estava longe de ser objetivado pela reflexão helleriana. O cotidiano de
miséria, de carência de mediações, inclusive, do mundo de Ana Nilda e
sinha Vitória era e é impeditivo, com força de quase intransponibilidade,
para um diálogo com a Filosofia do cotidiano de Agnes Heller.
03. Três acontecimentos experimentei, em Manaus, no dia 12 de
maio de 2016. O primeiro, mais prosaico e doméstico, com quase nenhum
impacto conhecido para além dos limites do meu quintal, foram os dez anos
de vida canina de Nina, que aqui chegou em 2006. Se prevalecer a
proporção em sete entre os tempos de vida canino e humano, teria ela
completado 70 anos. Agora caminha para os 105. O segundo, danoso e
regressivo, foi a consolidação do golpe que interrompeu o mandato da
Presidente Dilma Rousseff, com diferentes níveis de participação das
forças de ordem econômica, mediática, parlamentar, jurídica, religiosa,
castrense, todas devidamente afinadas e sob o mando do capital sem
controle. O terceiro, foi ouvir, naquele 12 de maio de 2016, uma
conferência da pensadora húngara Agnes Heller sobre Ética e Saúde. Ela
veio a Manaus a convite da Universidade do Estado do Amazonas. Por uma
feliz coincidência, Heller completara naquele dia 87 anos. Assistente de
Lukács, faleceu aos 90 anos no dia 19 de julho de 2019, na Hungria,
politicamente governada pela ultradireita.
04. Sem fluência nenhuma em húngaro e menos ainda sem
influência nos aposentos acadêmicos, consegui com algum esforço que
Agnes Heller me autografasse o seu livro O cotidiano e a história, de 1970,
traduzido por Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, dois pensadores
dialéticos que imprimiram as marcas da crítica e da inteligência no
pensamento filosófico brasileiro. Sempre que sou tomado por pessimismo
além do tolerável recorro à bela e inteligente sacada filosófica de Heller:
“Nem um só valor conquistado pela humanidade se perde de modo
absoluto; tem havido, continua a haver e haverá ressurreição. Chamaria a
isso de invencibilidade da substância humana, a qual só pode sucumbir
com a própria humanidade, com a história. Enquanto houver humanidade,
enquanto houver história, haverá também desenvolvimento axiológico no
sentido acima descrito”. O dito de Heller, bem mais do que em 1970, se
reveste de antídoto epistêmico contra o atual e disseminado veneno da pós-
verdade e da negação da história, agravado pela pandemia de Covid-19.
05. Para a grande maioria da humanidade o cotidiano é o lugar da
opressão. E os que mais sofrem o peso da opressão cotidiana são os que
menos dispõem de mediações para objetivá-la e livrar-se de seu poder
sisífico e absurdamente naturalizado. Estrutural, a opressão de classe se
naturaliza como cultura, talvez o conceito mais carregado de armadilhas
que há. Afinal, abstraída a natureza, tudo é cultura, e inversamente. O
teólogo José Comblin afirma que a cultura é a prisão dos pobres, impedidos
que são, pelo peso cotidiano e heteronomizado de sua cultura, de
subjetivamente se apropriar do mundo. Vivida pelo regime da crença, a
cultura cotidianamente reforça uma existência refém do fatalismo, da
resignação e do mutismo. Um mínimo movimento de reação individual a
essa estrutura opressiva torna-se objeto de reprovação pelos próprios
oprimidos. Ainda que impedido do acesso à objetivação letrada da cultura,
meu pai Marcondes certa vez rebelou-se contra a cobrança indevida de uma
taxa fixada pela autoridade paroquial de Jaguaruana – CE, para o assistido
tivesse direito à porção do leite e do óleo da Aliança para o Progresso, que
deveria ser distribuído gratuitamente. Ao tomar ciência da revolta
impotente do meu pai Marcondes, minha mãe Ana Nilda o aconselhou a ir
confessar-se ao religioso atravessador. Estou certo de que ele não o fez.
06. Ana Nilda, minha mãe, à própria custa, malmente conseguiu
concluir o segundo ano do ensino primário. Marcondes, preso desde
criança ao trabalho na roça, foi impedido de frequentar o espaço escolar.
Ambos, em bela comunhão, sacrificaram-se e não mediram esforços para
que seus 12 filhos escapassem ao jugo do analfabetismo promovido, com
reconhecido êxito, pelo projeto de escola excludente e dualista do Estado
brasileiro. A saga anônima desse casal à margem da história, ou nela
perversamente incluído, me trouxe à memória uma afirmação, dos tempos
de ginásio, já não tenho certeza se de um livro de autoria de Antônio
Borges Hermida, que de imediato tomei como verdade: todo fato histórico
é um fato social, mas nem todo fato social é um fato histórico. O cotidiano
social dos anônimos seria destituído de estatuto historiográfico. Alguns
anos depois, já estudante de Filosofia, encontrei em Lucien Goldmann uma
sentença precisa que me levou de encontro àquela verdade que costumava
repetir, dela retirando agora o veu ideológico: “todo fato social é um fato
histórico e inversamente”. Mesmo não escrita, a história dos anônimos não
é menos fato histórico que a história dos dominantes.
07. É recorrente a tese de que o pensamento como estrutura cotidiana
em que se move o pensar define os limites do pensamento e do próprio
mundo. Para os diletos filhos da filosofia analítica esta é a chave para
quebrar o segredo. Wittgenstein teria encontrado a saída para os
prisioneiros da caverna. Mas reside aí uma falha ontológica de base, não no
sentido heideggeriano do esquecimento do ser, mas em desconsiderar a
precedência ontológica do ser social sobre a linguagem. A linguagem que
pensa definir os limites do mundo pode se perder em artimanhas lógicas se
permanece refratária ao princípio dialético de que é o mundo (do ser social)
que define os limites da linguagem. O mutismo de Ana Nilda e sinha
Vitória, de Marcondes e Fabiano, não provinha de uma falha da linguagem,
mas antes da miséria ontológica do mundo em que nasceram. Embora meus
contatos com o mundo do além não sejam dos melhores, tentarei por via
psicográfica convencer Graciliano Ramos a intermediar um encontro entre
Ana Nilda e sinha Vitória, entre Marcondes e Fabiano, entre Leudo
Antônio (meu irmão inventor) e os dois meninos, o mais novo e o mais
velho, do mundo de Vidas secas. Quanto à Baleia, tenho dúvidas de que
Nina, que ainda está entre nós, iria estabelecer com ela uma relação
imediata. Nina, mesmo sempre de barriga cheia e incapaz de saber o que é
caçar comida, poderia pôr em risco os preás que faziam parte do paraíso
sonhado por Baleia antes de morrer sacrificada pelo disparo de
misericórdia de Fabiano.
Por meio de Ana Nilda e sinha Vitória, com a
mediação de Agnes Heller, vida longa à luta no DEVIR
INTERNACIONAL DA LUTA DAS MULHERES TRABALHADORAS,
sobretudo das que vivem sob o peso do anonimato e da opressão.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe.
Em Manaus, AM, em 08 de março do ano (ainda coronavirano) de 2021.
Mestre José Alcimar , minha gratidão por essa homenagem tão rica . Mulheres anônimas e vítimas da Opressão . Mulheres invisíveis que na literatura , Graciliano Ramos com perfeição soube imortalizá-las do seu silêncio opressor .