PRODUÇÃO AFINSOPHIA. ORG

 

Sem mais delongas, “Eu Bertolt Brecht, nasci nos negros bosques. No colo de minha mãe me fui para a cidade ainda pequenino. Mas o frio dos bosques enquanto eu viver hei de sentir”. É. Pois é. 10 de fevereiro de 1898, em Augsburgo, na Floresta Negra, na Alemanha, fui lançado ao mundo. “Na cidade de asfalto sinto-me à vontade. Munido desde o início de todo sacramento de morte: jornais, fumo e aguardente. Sou preguiçoso e desconfiado, mas feliz”.  

Pensando nos futuros terremotos que o capitalismo planeja e realiza, propaguei a estética dialética de análise e transformação do mundo. Meu Teatro Dialético carrega, em si, as armas necessárias para a construção de um novo mundo juntamente com outros visionários-revolucionários. Levar os trabalhadores  a se posicionarem contra a opressão promovida pelos patrões, é o texto deste teatro. Uma forma de ensinar divertindo, diria meu amigo, o filósofo-brasileiro, Paulo Freire, e, o outro filósofo-teatrólogo brasileiro, Augusto Boal, com seu Teatro do Oprimido. Não permite que a ignorância seja o singelo instrumento de exploração usado pelo capitalismo para que se torne mais forte e temível.

A desalienação do proletariado é possível através da estética do Distanciamento, no meu alemão: Verfremdungseffekt. Também conhecido como método de estranhamento. O Método do Teatro Dialético para atores capaz de fazer do palco um laboratório de crítica social, e, levar, o público  a se posicionar ativamente contra o que lhe oprime e lhe explora. Não assistir um espetáculo com cenas de exploração do homem pelo homem, e sair afirmando: “É. O mundo é assim mesmo”. E voltar para casa resignado. Não! Assistir o espetáculo que mostra a exploração do homem pelo homem, e afirmar: “É assim mesmo, mas assim não pode ficar. É preciso mudar”.

Este é o teatro antiburguês. O tetro em que homem é sujeito de sua própria história. Nada de “primeiro a barriga depois a moral”. Primeiro a moral-humana, onde a igualdade permite sentir a satisfação de ter a barriga cheia. E depois, poder dizer, com razão, “Sou preguiçoso e desconfiado, mas feliz”.

Exaltar os sentimentos, sim. Porém, sentimentos com racionalidade. Não com a exacerbação sentimental como mostra o teatro gastronômico. O teatro que narcotiza a razão. O teatro que adormece e serve para melhor escravizar a classe proletária. O teatro que embala e protege os sonhos de dominação e lucro do capitalismo. Um teatro em que os personagens são criados com todo o modelo e organização do pathos-burguês, e para ser interpretado por atores e atrizes alienados sem qualquer entendimento que o teatro é uma arte eminentemente política. Não uma prática burguesa reacionária com o objetivo de conservar um arcaico mundo triste e chantagista. Não manter “o sistema que eles construíram, onde a humanidade é uma exceção, e quem se mostrar humano paga as consequências, pois nunca tem razão”. Não! Ter sempre razão. Razão-Dialética. 

Tenho fugido de meus desafetos. Trocados de país como se troca de sapatos. Mas, tenho me divertido. Tocado guitarra, escrito peças, poemas, contos, roteiros cinematográficos, fumado meus charutos-havana e bebido aguardentes, amado grandes e ilustres mulheres, como Helene Weigel, Marianne Zoff, porque sou um homem livre que tentar criar mundos livres juntos com outros homens e mulheres livres. 

Observando o país de vocês, O Brasil, acredito que ele não deve permitir que nos presentes e futuros terremotos os seus charutos venham apagar-se por falta de ternura. É preciso que a ignorância e brutalidade sejam afastadas para que o povo possa ser senhor de seu próprio destino. O país encontra-se imobilizado na tristeza e seu povo não deve usar a máxima de meu personagem: “Viver em um país sem senso de humor é insuportável, mas pior ainda é viver num país no qual se precisa ter senso de humor para viver”. E, com todo respeito, sem narcisismo-burguês, me sentiria muito honrado se vocês usassem minhas obras para transformar essa dor atual em alegria contagiante.

No mais, Eu Bertolt Brecht, me parabenizo através de vocês.

Em tempo: O 14 de agosto de 1956, não me parou. Não fiquei em Berlin.  

 

 

 

POEMA PARA A POSTERIDADE

   
I
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

II
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

III
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
– Bertolt Brecht (Tradução Manuel Bandeira)

An die Nachgeborenen

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)

Man sagt mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten
Schlafen legte ich mich unter die Mörder
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.

Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Haß gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.
– Bertolt Brecht

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.